Fortaleza, cidade de vento e sol, não me venhas com festas de arromba enquanto teu povo dorme no chão. Trezentos anos, musa, e ainda sangras pelas feridas abertas pelos teus próprios filhos de terno e gravata.
Lembro do que foste. Jader Carvalho, em Aldeota, teceu tuas entranhas de areia e mangue, quando o bairro dos ricos ainda respirava com os pulmões abertos para o riacho Pajeú. Hoje, a Aldeota virou fantasia de si mesma — condomínios de luxo que migraram para o Eusébio como víboras fugindo do próprio veneno, esquecendo que um dia foram terra molhada, chão de índios e pescadores. Paris tem Amélie, Londres tem Notting Hill, Berlim tem O Céu sobre Berlim, Nova York tem Annie Hall — poemas de amor em celuloide. E nós? Temos a Cidade de Deus escrito na carne da periferia, temos O Som ao Redor nos tiros da Grande Messejana. O amor que nos cantaram foi sempre o dos outros. Ninguém fez Roman Holiday com o Centro arrasado pelo especulador imobiliário.
Chegaram os portugueses de espada e cruz, árabes com seus panos e contas, judeus fugindo da inquisição com a fé cosida na sola do sapato. Juntaram-se aos sertanejos que a seca expulsou como folhas secas, aos negros que o navio quebrou, aos índios que o rio guardou. Dessa lama, Darcy Ribeiro profetizou: somos um povo novo, mestiço, rebelde por natureza. Renato Russo cantou: "Quem me dera, ao menos uma vez, ter de volta todo o ouro que entreguei a quem conseguiu me convencer que era prova de amizade, se alguém levasse embora até o que eu não tinha— e esse sol, Fortaleza, é o rosto do teu povo pobre, não o brilho dos vidros da Beira Mar.
Os rios que te amamentaram — Pajeú, Cocó, Maranguapinho, Ceará — hoje correm entupidos de esgoto e promessas quebradas. Foi neles que nossas avós lavaram roupa e contaram casos. Foi neles que meninos de pé no chão pescaram o almoço. Agora são valas a céu aberto, enquanto os de cima constroem piscinas no rooftop.
E o mar? Ah, o mar é a única coisa que ainda te defende, musa. Ele nos deu o humor — essa ironia ácida de quem aprendeu a rir da desgraça porque chorar já não adianta. Ele nos deu o forró que não nasceu no cabaré de luxo, mas na sanfona de Luiz Gonzaga, que ouviu o sertão gemer e transformou dor em arrasta-pé. Nossa cultura é isso: remar contra a corrente com um sorriso no rosto.
Mas a Nona Sinfonia de Beethoven — aquela ode à alegria — precisa ser reescrita. Não com coros de fraque e gravata, mas com as vozes dos meninos do Jangurussu, das mulheres do Pirambu, dos velhos do Bom Jardim. Que o coral entoe não a alegria burguesa, mas a revolta que ainda insiste em nascer no meio do lixo e da fome. Pois, como disse o poeta: a alegria do povo é a mais cruel das tristezas quando se sabe que podia ser festa e é apenas sobrevivência.
Trezentos anos, musa. A curva da desigualdade não se moveu. O circuito superior de Milton Santos compra teu rosto e vende teu corpo em shoppings. O circuito inferior sangra nos becos que o mapa oficial não enxerga. Os ricos não pagam impostos, compram vereadores, vivem da corrupção que a imprensa chama de "esquemas" e o povo chama de "comer o que é nosso".
Mas ainda assim te amo, Fortaleza. Como se ama uma mãe que erra, um amante que trai, uma pátria que não merecemos. Porque o teu povo — esse sim — é minha nação. E enquanto houver um só homem ou mulher em pé na periferia, recusando o lugar que lhe impõem, ainda haverá esperança. Não a esperança dos projetos imobiliários, mas a que nasce do ódio bem guardado e do amor mal resolvido.
Vira o jogo, musa. Ou o vento que te nomeia vai virar tempestade! Enquanto escrevemos " Aldeota Euzébio- O silêncio da corrupção como câncer das Oligarquias"
A Crítica Social de Aldeota!
A grande virada do romance ocorre na última parte, quando Chicó ascende socialmente e a história passa a focalizar a constituição do bairro Aldeota. O livro denuncia como a elite fortalezense se formou :
"Vê-se uma crítica pesada à riqueza e ao luxo ostentado pela corrupção. A elite fortalezense se formou assim com a cobertura da justiça, da imprensa, da polícia e dos órgãos públicos fiscalizadores que faziam vista grossa para essa situação."
O jornalista e escritor Xico Sá, em crítica para a Folha de S.Paulo, define Chicó como alguém que "de 'lascado' passa a escroque-mor", e classifica o livro como "literatura punitiva" . O mesmo crítico afirma que "a sua formação, nos anos 60, deu-se à custa de fraudes fiscais, isenções politiqueiras e trambique aos balaios" .
Personagens e Estrutura Narrativa
Chicó é o fio condutor – um personagem que o crítico Xico Sá compara ao Chicó de Ariano Suassuna, "mas o que dá tinta trágica em 'Aldeota' é a metamorfose daquele miserável em um 'grandíssimo filho-da-puta'" .
Katarina (Catá) emerge como uma narradora fundamental na segunda parte do livro. Segundo a pesquisadora Juliana Diniz :
"É nesse momento que entra em cena uma narradora exemplar, testemunha privilegiada e silenciosa: a esposa Catá, que nos revelará, em voz feminina e no formato de diário, os bastidores reservados das contravenções praticadas pelo marido e seus colegas de classe."
Catá, que fez escola normal e tem inclinações literárias, registra em seu caderno as falcatruas do marido e chega a "envergonhar-se de ser sócia inocente nas escusas atividades de seu marido" .
Contexto Histórico
O romance referencia eventos históricos reais, como a Marcha do Pirambu (1962), quando cerca de 30 mil flagelados marcharam do bairro periférico até o início da Aldeota clamando por reformas sociais. O livro mostra como essa marcha representava "uma ameaça contra a paz dos residentes da Aldeota" .
Repercussão e Polêmica
A obra foi queimada na Praça do Ferreira em um ato de revolta por parte dos poderosos locais. Segundo a pesquisadora Juliana Diniz :
"Tem-se notícia de que foi queimado na Praça do Ferreira, num arroubo de revolta, e que o artifício do autor de utilizar como exemplos de seus personagens figuras reais, bem conhecidas da época, provocou o choque e o ressentimento de muitos poderosos do estado."
O próprio Jáder de Carvalho declarou sobre sua obra :
"Em Aldeota prestei o maior serviço à moral política e à moral social do Estado, trazendo aos olhos do povo, do governo e das autoridades, os sonegadores de impostos, os ladrões, os contrabandistas que, numa terra paupérrima, de economia que é preciso se ver com binóculo, de tão pequena que é, dão lugar à existência de um bairro aristocrático como é a Aldeota."
Atualidade da Obra
Em 2025, o livro ganhou nova edição pela Editora UFC, após décadas de relativo ostracismo. A pesquisadora Juliana Diniz afirma que "nada envelheceu no texto" e que o livro continua necessário . Tiago Coutinho Parente, estudioso da obra, destaca que o livro "teve uma grande repercussão, mas as pessoas procuram não comentar, escondem, não falam" – um silêncio que, segundo ele, persiste quase 50 anos após o lançamento .
Metáfora Final
Uma das leituras mais bonitas do livro vem do pesquisador Expedito Eloísio Ximenes, que compara Chicó a um rio :
"O personagem principal assemelha-se a um rio com seu movimento de andanças a subir e a descer desfiladeiros sempre na insegurança das altas e das baixas cheias até desaguar no oceano. (...) O oceano é seu limite, é ali que ele se estabelece para completar sua riqueza e viver o fim dos seus dias, assim como o rio que após todo o percurso descansa sua carga no grande mar."
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