A Fragilidade do que Não se Completa
Existe uma ideia corrente de que o amor verdadeiro é aquele que se consolida — que encontra seu lugar, se nomeia, se resolve. Mas e quando o amor não se resolve? Quando ele permanece suspenso, ambíguo, sem a cerimônia de um final ou a segurança de uma definição? É nesse território movediço que transita Loved One, o romance de estreia de Aisha Muharrar, roteirista conhecida por seu trabalho em Hacks, Parks and Recreation e The Good Place .
A história começa onde muitas histórias de amor terminam: num funeral. Julia, trinta anos, entrega o elogio fúnebre de Gabe, seu primeiro amor que, com o tempo, tornou-se seu melhor amigo. O que ela evita dizer — "a coisa óbvia", nas palavras do romance — é que ele tinha apenas 29 anos e que sua morte foi tão súbita que faria mais sentido estar celebrando seu casamento . Este deslocamento inicial já anuncia o tom da obra: Muharrar não está interessada no amor que segue roteiros previsíveis, mas naquele que desorienta, que deixa perguntas no ar.
Ambiguous Loss: O Amor que não Encontra Palavras
O conceito que estrutura o livro vem da psicóloga Pauline Boss: ambiguous loss (perda ambígua). Diferente da perda convencional, que permite rituais de despedida e narrativas de encerramento, a perda ambígua se caracteriza pela incerteza — seja porque a pessoa desapareceu sem explicação, seja porque a relação foi rompida de forma abrupta, deixando questões insolúveis . "Não existe isso de closure", afirma Boss, contrariando uma expectativa tipicamente americana de que toda história deve ter um final arrumado .
Julia não sabe, ao longo do romance, o que exatamente estava acontecendo entre ela e Gabe no mês anterior à sua morte. Eles haviam se reaproximado? Havia algo não dito? A impossibilidade de responder a essas perguntas — porque o outro não está mais ali para responder — é o que transforma o luto de Julia em algo mais tortuoso que a simples saudade. Não é apenas a perda de uma pessoa; é a perda da própria certeza sobre o que existia entre eles.
Muharrar, que escreveu o livro após perder quatro pessoas próximas em um curto período, inclusive durante a pandemia, encontrou nesse conceito uma chave para narrar a dor sem cair no melodrama . "Há muitos livros sobre luto agora", observa a autora, "mas eu queria escrever algo que, se você estivesse passando por uma perda, pudesse ler e não se sentir mais deprimido ao final" .
Duas Mulheres, um Morto, Muitas Versões
O grande achado narrativo de Loved One é introduzir Elizabeth, a última namorada de Gabe, como contraponto a Julia . As duas mulheres se encontram pela primeira vez no banheiro do funeral — um cenário deliberadamente pouco romântico, quase cômico — e a fala de Elizabeth é um golpe: "Eu sei exatamente quem você era para o Gabe" .
Esta afirmação desestabiliza Julia porque contém uma pretensão de saber algo que talvez ela mesma não saiba. Mas contém também uma ameaça: de que a versão que Elizabeth tem de Gabe — e do lugar de Julia na vida dele — pode ser diferente, talvez contraditória. A tensão que move o romance não é, portanto, uma rivalidade romântica banal. É uma disputa epistemológica: quem realmente conhecia Gabe? Qual das duas mulheres tem o direito de reivindicar a versão mais autêntica daquele homem?
Muharrar conta que a ideia para o livro surgiu de uma conversa trivial: uma amiga lhe contou que sua amiga estava namorando um ex-namorado da autora — um ex sobre o qual ela só tinha elogios. A amiga, no entanto, achava o homem um péssimo namorado. "Eu não sou o Yelp de namorados!", brincou Muharrar na época . Mas a pergunta persistiu: quem está certa? A resposta, evidentemente, é que ninguém está. Somos pessoas diferentes em relacionamentos diferentes, e o outro nunca é uma essência estável, mas um feixe de relações possíveis .
Humor como Forma de Suportar o Insuportável
O que impede Loved One de ser um romance depressivo é o humor — e aqui a formação de Muharrar na televisão se faz sentir. Julia pensa em tropos de comédia romântica, em "conteúdo nunca antes visto que mantém o filme da vida dele em exibição" . O humor não é um alívio superficial; é, para as personagens, o único terreno neutro onde podem se encontrar. "Você não pode fingir uma boa risada", diz Muharrar, "e ao mesmo tempo é difícil conter o riso" .
Elizabeth e Julia têm razões para desconfiar uma da outra — ciúmes, inveja, a sensação de que a outra recebeu algo que lhe era devido. Mas o humor as desarma. A química entre elas, observa a autora, não é necessariamente sexual, mas é uma química real: "Elas são atraídas uma pela outra" . É essa atração — feita de inteligência compartilhada, de timing cômico, de reconhecimento mútuo — que permite que a história avance para além da suspeita inicial.
O Amor como Pergunta, não Resposta
Ao final do livro, não há grande revelação. Não há uma carta deixada por Gabe que explique tudo. Não há uma cena catártica em que Julia finalmente "supera" sua perda. O que há, em vez disso, é um aprendizado mais sutil: que o amor não precisa de resolução para ter sido real. "Closure pode ser pedir demais para essas mulheres enlutadas", escreve a crítica da AP, "mas é o suficiente que elas percebam que ainda têm vidas para viver sem o objeto do título do livro" .
Muharrar deliberadamente evita falar sobre luto de forma direta. "Achei que a maneira de expressar isso no livro viria de como as pessoas se comportam naturalmente. Você está em um momento pensando em alguém que não está mais ali. E em outro momento, alguém pergunta o que você quer para o jantar" . Essa alternância entre a dor e a banalidade da vida cotidiana é, talvez, a representação mais honesta do que significa perder alguém.
Loved One nos lembra que o amor raramente cabe nas categorias que inventamos para domesticá-lo — amizade, romance, ex, amante. Ele transborda, deixa rastros, se recusa a ser arquivado. E é precisamente essa recusa que faz com que valha a pena amá-lo, mesmo quando — talvez especialmente quando — ele dói.
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