— Uma arqueologia filosófica das correntes sub
terrâneas que brotam em Alva Noë
PRÓLOGO: A RAIZ SECRETA
O enativismo parece uma teoria nova. Parece filha da cibernética, neta da inteligência artificial, sobrinha da neurociência cognitiva dos anos 1990. Alva Noë, Francisco Varela, Evan Thompson — nomes do presente, ou do passado recente.
Mas as raízes dessa árvore são antigas.
Muito antigas.
Elas penetram o solo da filosofia grega do século V a.C., atravessam camadas de poeira helênica, encontram veios de água no pensamento de Spinoza no século XVII, irrigam-se no solo vulcânico do élan vital de Bergson no início do século XX, e só então — só então — brotam na superfície como a flor chamada "enativismo".
Este texto é uma viagem arqueológica. Vamos cavar.
Vamos encontrar Heráclito e Parmênides discutindo sobre o ser e o devir. Vamos encontrar Espinosa e seu conatus — o esforço de tudo o que existe para perseverar em seu ser. Vamos encontrar Bergson e sua duração criadora, sua matéria em movimento, sua evolução que não é plano, mas improviso. E então, com o mapa desses antigos nas mãos, vamos entender o que Noë realmente está dizendo — e por que isso importa.
PARTE I: O NASCIMENTO DO PROBLEMA — PRÉ-SOCRÁTICOS E A COSMOGONIA DA MUDANÇA
1. O Espanto Original
Tudo começa com uma pergunta que parece infantil, mas é a mais profunda que um ser humano pode fazer:
Por que as coisas mudam?
Ou, dito de outra forma: como algo pode se tornar outra coisa sem deixar de ser o que era?
Os pré-socráticos foram os primeiros no Ocidente a formular essa pergunta em termos não-mitológicos. Não disseram "é a vontade dos deuses". Disseram: vamos pensar. Vamos buscar o logos — a razão, a estrutura, a lei .
E, como era de se esperar, eles não concordaram.
2. Heráclito: O Filósofo do Fluxo
Heráclito de Éfeso (c. 500 a.C.) olhou para o mundo e viu movimento. Viu devir. Viu mudança como a única constante.
Seus fragmentos são relâmpagos verbais:
"Não podemos descer duas vezes no mesmo rio, porque novas águas correm sobre nós."
O rio é o mesmo? Sim, em nome. Não, em substância. A identidade de uma coisa não está em sua matéria — que flui — mas no padrão, na forma, na lei que governa seu fluxo.
Heráclito também disse: "Tudo flui" (panta rhei). E: "A guerra é o pai de todas as coisas" — porque o conflito, a tensão, a oposição entre opostos é o motor da transformação. O dia só existe porque há noite. O verão só existe porque há inverno. A vida só existe porque há morte .
Para Heráclito, o logos — a razão universal — não é uma estrutura estática. É a própria lei do devir. O mundo não é um ser imóvel. É um processo .
3. Parmênides: O Filósofo do Ser Imóvel
Parmênides de Eleia (c. 450 a.C.) olhou para o mesmo mundo e viu algo completamente diferente.
Ele raciocinou assim: se algo muda, então em algum momento ela não é mais o que era e ainda não é o que será. Nesse momento, ela não é nada. Mas como o nada poderia existir?
A conclusão de Parmênides era implacável: a mudança é impossível. O que existe — o Ser, o Uno — é eterno, imóvel, indivisível, completo. Não começa, não termina, não se transforma. Nossos sentidos nos enganam quando nos mostram um mundo de coisas que nascem, crescem e morrem. A verdade está no pensamento, não na sensação .
"O que é, é; o que não é, não é. O que é não pode não ser; o que não é não pode ser."
Se levarmos Parmênides a sério, a frase "a maçã está amadurecendo" é um absurdo lógico. A maçã ou é verde ou é madura. O "estar amadurecendo" implica um não-ser (ela não é mais verde, ainda não é madura) — e o não-ser não pode ser dito, pensado, existido.
Parmênides foi tão longe que argumentou que a única sentença verdadeira é "O Ser é". Tudo o mais é ilusão .
4. A Tensão Fundamental
A filosofia ocidental nasceu dessa tensão. De um lado, Heráclito e o devir (fluxo, mudança, processo). De outro, Parmênides e o ser (estabilidade, permanência, identidade).
Tudo que veio depois — Platão, Aristóteles, os medievais, Descartes, Kant, Hegel, Nietzsche, a ciência moderna, e sim, o enativismo — é uma tentativa de responder a essa tensão. De encontrar um terceiro caminho entre o fluxo absoluto (que parece dissolver a própria ideia de identidade) e o ser imóvel (que parece negar a realidade da experiência) .
Como observa um estudo sobre as origens da noção ocidental de causalidade: "A tensão entre essas duas posições ecoou através dos tempos, e grande parte da discussão sobre estabilidade e mudança nas ciências da complexidade remonta a ela" .
O enativismo, como veremos, é herdeiro direto de Heráclito — mas com uma sofisticação que Heráclito jamais poderia imaginar. Ele é uma filosofia do devir, do processo, da interação. Mas é também uma filosofia que encontra no próprio devir uma estrutura — não fixa, mas recorrente; não eterna, mas estável o suficiente para que possamos falar de "conhecimento" e "percepção".
PARTE II: SPINOZA E O CONATUS — A MATÉRIA QUE DESEJA PERSISTIR
1. O Filósofo-Aranha
Baruch Spinoza (1632-1677) foi muitas coisas: judeu excomungado, polidor de lentes, ateu declarado por seus contemporâneos, o filósofo dos afetos, o profeta da alegria.
Para nossos propósitos, ele é o filósofo do conatus.
Conatus é uma palavra latina que significa "esforço", "tendência", "impulso". Spinoza a usa para descrever a essência de todas as coisas:
"Cada coisa, na medida em que está em si mesma, esforça-se por perseverar em seu ser." (Ética, Parte III, Proposição 6)
Isso não é uma escolha. Não é uma decisão consciente. É a natureza íntima da realidade. Uma pedra "se esforça" para continuar sendo pedra. Um ser humano "se esforça" para continuar vivo. Um ecossistema "se esforça" para manter seus ciclos.
2. Conatus como Trägheitsprinzip — Princípio de Inércia
Um estudo recente sobre Spinoza e a "paradoxo do desejo" propõe uma leitura surpreendente: o conatus spinozista pode ser entendido como um princípio de inércia .
O que isso significa? Que a tendência fundamental de tudo o que existe não é "crescer", "evoluir", "tornar-se mais". É continuar sendo o que é. É resistir à mudança. É manter o estado.
"Em vez de perguntar como o progresso emerge da inércia, Holzhey investiga como o progresso através da inércia é pensável" .
Isso é fascinante porque conecta Spinoza diretamente à física newtoniana — e, através dela, à nossa discussão sobre movimento e matéria. O conatus é, de certa forma, a primeira lei de Newton traduzida para a metafísica: um corpo permanece em seu estado de repouso ou movimento retilíneo uniforme a menos que forças externas atuem sobre ele.
Mas Spinoza vai além. Ele pergunta: o que um corpo pode? Não o que ele é, mas o que ele pode fazer — quais são suas potências, suas capacidades de agir e de ser afetado.
3. A Ética Como Afetividade
O que torna Spinoza tão relevante para o enativismo é sua ênfase na afetividade. O conatus não é apenas um princípio físico — é também um princípio psicológico e ético.
George Burdon, em um artigo recente na Transactions of the Institute of British Geographers, explica:
"Nosso conatus é afetado pelos encontros e relações que compõem a vida socioespacial, o que significa que os desejos que animam nosso esforço são frequentemente moldados por poderes externos" .
Isso é crucial. Para Spinoza, não somos átomos isolados buscando nossa própria preservação. Somos seres-em-relação. Cada encontro com outro corpo — humano ou não, vivo ou inerte — nos afeta. Pode aumentar nossa potência de agir (alegria) ou diminuí-la (tristeza).
A vida ética, para Spinoza, é aprender a compor encontros que nos alegram — que aumentam nossa potência. E isso significa entender que nossa identidade não é fixa:
"A ética torna-se uma prática de pensamento voltada para a expressão das inúmeras maneiras pelas quais o 'eu' que deseja é inseparável dos poderes dos outros — sejam pessoas, ideias, eventos, instituições ou qualquer outra coisa — de modo que a própria identidade desse 'eu' é lançada em desordem" .
Esse "eu" em desordem, essa identidade que não é fixa mas emerge da interação — isso é puro enativismo avant la lettre.
4. Deleuze, Leitor de Spinoza: A Potência de Ser Afetado
Gilles Deleuze, no século XX, foi o grande arqueólogo de Spinoza. Deleuze leu Spinoza como um filósofo da imanência — um pensador que recusou qualquer transcendência, qualquer "plano superior" de existência, e afirmou que tudo está na mesma natureza, no mesmo plano de composição.
Para Deleuze, o conatus não é apenas "esforço para perseverar". É potência de ser afetado. E a passividade — a capacidade de ser afetado — não é uma fraqueza. É um campo riquíssimo de potencial ético-político .
Essa intuição deleuziana-spinozista está no coração do enativismo. A percepção, para Noë, não é algo que fazemos sobre o mundo. É algo que fazemos com o mundo. Somos afetados — e ao sermos afetados, afetamos. O percebedor e o percebido co-emergem na interação.
5. Spinoza e a "Renaturalização"
Hasana Sharp, em Spinoza and the Politics of Renaturalization (2011), leva essa leitura adiante. Ela argumenta que Spinoza nos oferece um caminho para renaturalizar o humano — para parar de nos ver como exceções à natureza e nos reinserir no tecido das relações naturais .
"Sharp usa Spinoza para delinear uma sabedoria prática da 'renaturalização', mostrando como ideias, ações e instituições nunca são meros produtos da intenção ou design humanos, mas resultados das relações complexas entre forças naturais além do nosso controle" .
Isso é enativismo. A cognição não está "na cabeça". Está no mundo. Está na relação entre o corpo e seu ambiente. Está na dança entre o organismo e suas circunstâncias.
PARTE III: BERGSON E A EVOLUÇÃO CRIATIVA — A MATÉRIA QUE DANÇA
1. O Filósofo da Duração
Henri Bergson (1859-1941) foi o filósofo mais famoso da França no início do século XX. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1927. Influenciou Proust, Deleuze, Merleau-Ponty — e, através deles, o enativismo.
O conceito central de Bergson é duração (durée). A duração não é tempo cronológico — não são segundos, minutos, horas marcados no relógio. A duração é o tempo vivido — o fluxo contínuo, qualitativo, indivisível da consciência.
Quando você ouve uma melodia, você não ouve notas isoladas. Você ouve um fluxo — um movimento em que o passado se conserva no presente e o futuro já está antecipado. Isso é duração.
2. Matéria e Movimento
Em Matéria e Memória (1896), Bergson propõe uma teoria radical da percepção. A percepção não é uma representação do mundo dentro da cabeça. É uma seleção — uma escolha, entre todas as imagens do universo, daquelas que interessam ao meu corpo.
O mundo, para Bergson, é feito de imagens. Mas "imagem" não é representação mental. É algo intermediário entre o "objeto" do materialismo e a "representação" do idealismo. O mundo é um conjunto de imagens que agem umas sobre as outras. Meu corpo é uma imagem privilegiada — porque é a imagem que pode agir no lugar de receber ação.
"A matéria para Bergson não é uma substância inerte, mas um fluxo de imagens em movimento".
Isso ecoa diretamente no enativismo. A percepção não é passiva. É ativa. É um modo de selecionar — com base nas necessidades do corpo — o que no mundo importa.
3. A Evolução Criativa
Em A Evolução Criativa (1907), Bergson vai além. Ele propõe que a vida não é um mecanismo (como Darwin às vezes sugeria) nem um plano pré-determinado (como os finalistas acreditavam). A vida é um impulso criador — élan vital.
O élan vital é uma tendência original que atravessa a matéria e a organiza em formas cada vez mais complexas. Não é um plano — porque planos são fixos, e a vida é improviso. Não é acaso — porque o acaso não produz regularidade. É uma criatividade imanente:
"A evolução não é uma série de adaptações a circunstâncias externas, mas um movimento interno de diferenciação e complexificação".
A metáfora de Bergson é a do artesão: a vida trabalha com a matéria como um escultor trabalha com o mármore. A matéria resiste, oferece possibilidades, impõe limites. Mas a vida encontra caminhos, inventa formas, cria novidade.
Isso é enativismo evolutivo. O organismo não é passivamente moldado pelo ambiente. O organismo e o ambiente co-evoluem — cada um afeta o outro, cada um cria o outro.
4. Bergson e a Crítica ao Associacionismo
Bergson critica a psicologia de sua época — o associacionismo que via a mente como um mosaico de sensações elementares. Para Bergson, a experiência não é composta de átomos. Ela é um fluxo. Primeiro vem o todo — a impressão global, a qualidade vivida. Depois, por abstração, podemos recortar partes.
Essa crítica está no coração do enativismo de Noë. A percepção não é uma soma de dados sensoriais. É uma estrutura de habilidades — um modo de estar no mundo que é sempre mais do que a soma de suas partes.
5. Deleuze Leitor de Bergson: O Virtual e o Atual
Deleuze, novamente, é o ponte. Deleuze leu Bergson e extraiu uma distinção fundamental: entre o virtual e o atual.
O atual é o que está presente, o que é dado, o que se manifesta. O virtual é o conjunto de tendências, de potenciais, de direções que não estão atualmente realizadas mas que são reais — no sentido de que influenciam o que se torna atual.
Um exemplo: a raiz de uma planta tem a tendência virtual de crescer em direção à água. Essa tendência não é uma representação mental. É uma propriedade real do sistema vivo — uma direcionalidade imanente que não precisa de um planejador externo.
O enativismo herda essa noção. A percepção não é apenas o que está "aqui e agora". É também o conjunto de possibilidades de ação que o ambiente oferece — aquilo que os psicólogos ecológicos chamam de affordances. Uma cadeira "convida" a sentar. Uma maçã "convida" a comer. Essas convocações são virtuações — tendências reais, ainda que não atuais.
PARTE IV: O ENATIVISMO — A SÍNTESE CONTEMPORÂNEA
1. O Que é Enativismo? Uma Definição de Trabalho
Agora que cavamos as raízes, podemos ver a flor.
O enativismo, como formulado por Francisco Varela, Evan Thompson e Eleanor Rosch em The Embodied Mind (1991), propõe que:
A cognição não é a representação de um mundo pré-dado. A cognição é a enação — o ato de trazer à existência — de um mundo através da ação.
Kevin Sinclair, em sua tese sobre Noë, resume:
"A experiência perceptiva é constituída pelo domínio do percebedor sobre as leis das contingências sensório-motoras relacionadas ao movimento, em vez de pela suposta capacidade do percebedor de traduzir dados sensoriais em uma representação do mundo".
Isso significa: você não vê uma maçã porque seu cérebro construiu uma imagem interna dela. Você vê uma maçã porque você sabe — corporalmente, praticamente — como suas sensações mudariam se você andasse ao redor dela, se a tocasse, se a mordesse.
A percepção é um saber-fazer. É uma habilidade corpórea.
2. Alva Noë: O Filósofo da Atenção
Alva Noë é, hoje, o principal herdeiro dessa tradição. Em Action in Perception (2004), ele levou o enativismo para a filosofia da percepção. Em Learning to Look: Dispatches from the Art World (2021), ele aplicou essas ideias à experiência estética.
O título é uma pista: aprender a olhar. Olhar não é natural. É uma habilidade que se aprende, que se treina, que se cultiva. A arte é uma tecnologia de treinamento perceptivo.
"A experiência da arte — deixar que ela faça seu trabalho em nós — exige pensamento, atenção e foco. Exige criação, mesmo por parte do observador. E é nesse processo de confronto e reorganização que as obras de arte podem nos levar a nos refazer".
Noë está dizendo algo profundo: a percepção não é algo que nos acontece. É algo que fazemos. E podemos fazer melhor — se aprendermos a olhar.
3. As Raízes Enativistas em Noë
Onde estão Heráclito, Spinoza e Bergson em Noë?
Heráclito está na ênfase no devir. Para Noë, a percepção não é um estado — é um processo. Não é uma foto — é um filme. Não é uma representação — é uma exploração ativa do fluxo sensório-motor.
Spinoza está na ênfase na afetividade. Perceber é ser afetado. Mas também é afetar. O percebedor e o percebido co-emergem. A alegria spinozista — o aumento da potência de agir — é o que acontece quando percebemos bem, quando nos engajamos ativamente com o mundo.
Bergson está na ênfase na duração. A percepção não é instantânea. É temporal. É um fluxo em que passado e futuro se compõem no presente. E está também na ênfase na criatividade: a evolução da percepção, como a evolução da vida, é um processo inventivo, não mecânico.
4. Críticas ao Enativismo
O enativismo não é uma teoria sem críticas.
Uma crítica comum, formulada por Jesse Prinz e outros, é que o enativismo é "internalista demais" — ou melhor, "externalista demais". Ao negar o papel das representações internas, o enativismo teria dificuldade em explicar fenômenos como a imaginação (percebemos algo que não está lá) ou a alucinação (percebemos algo que não existe).
A resposta enativista: a imaginação não é percepção. É uma simulação de ações perceptivas — um "como se" que recruta os mesmos sistemas sensório-motores, mas em modo off-line. A alucinação é uma disfunção desse sistema — o cérebro ativa padrões sensório-motores sem o acoplamento adequado com o mundo.
Outra crítica: o enativismo é antirrepresentacionalista demais. Mesmo que a percepção seja ativa, ainda precisamos de representações para explicar a constância perceptiva — como reconhecemos um objeto como o mesmo sob diferentes ângulos, iluminações, distâncias.
A resposta enativista: a constância perceptiva é exatamente o que o domínio das contingências sensório-motoras explica. Você reconhece a mesa como a mesma não porque tem uma representação interna dela, mas porque você sabe como suas sensações mudariam se você se movesse ao redor dela. A "mesmidade" não está na cabeça. Está no padrão de possibilidades de ação.
PARTE V: A SÍNTESE — MATÉRIA, MOVIMENTO, VIDA
1. A Matéria Não É Morta
Uma das contribuições mais importantes do enativismo — e de suas raízes spinozistas e bergsonianas — é a reabilitação da matéria.
Para a tradição cartesiana, a matéria é extensão inerte, puro mecanismo, relógio sem alma. Para Spinoza, a matéria é ativa. Para Bergson, a matéria é movimento. Para o enativismo, a matéria é campo de possibilidades de ação.
Isso não é vitalismo — a crença em uma "força vital" misteriosa que anima a matéria. É materialismo ativo — a afirmação de que a própria matéria, em seus níveis mais fundamentais, é processo, relação, tendência.
Como escreve um estudo recente sobre Spinoza e os "New Materialisms":
"A questão central diz respeito às tendências neovitalistas nas interpretações atuais do princípio do conatus. Não se trata, porém, de perguntar como o progresso emerge da inércia, mas de investigar como o progresso através da inércia é pensável" .
A matéria tem inércia — tende a perseverar em seu estado. Mas essa própria perseverança é uma forma de atividade. Não há necessidade de um "espírito" externo para explicar o movimento da matéria. A matéria já é movimento.
2. O Movimento Como Condição da Percepção
O enativismo nos ensina que a percepção só é possível porque somos corpos em movimento.
Se fôssemos cérebros numa cuba — se não tivéssemos corpo, se não pudéssemos nos mover, se não pudéssemos agir — não perceberíamos. Teríamos apenas dados sensoriais brutos, sem significado. A percepção emerge do acoplamento entre ação e sensação.
Isso tem implicações radicais para a inteligência artificial e a robótica. Um sistema de IA que apenas processa imagens estáticas nunca "verá" no sentido humano. Para ver, seria preciso um corpo — uma capacidade de agir, de explorar, de testar hipóteses através do movimento.
As pesquisas mais recentes em inteligência incorporada (embodied intelligence) estão caminhando exatamente nessa direção. Robôs que aprendem através da interação com o ambiente, que desenvolvem habilidades sensório-motoras, que "pensam" agindo — esses robôs são, sem saber, enativistas .
3. A Evolução Criativa Como Processo Enativo
Finalmente, a evolução. Bergson nos deu o conceito de élan vital — um impulso criador que não é plano nem acaso. O enativismo atualiza essa intuição.
A evolução não é a adaptação passiva de organismos a um ambiente fixo. É a co-evolução de organismos e ambientes. Os organismos não apenas se adaptam — eles criam seus ambientes através de sua atividade. Uma castor constrói uma represa e transforma o rio. Uma minhoca transforma o solo. Um ser humano transforma o planeta.
Esse é o círculo enativo: o organismo age sobre o mundo; o mundo afeta o organismo; essa afetação modifica as ações futuras do organismo; e assim por diante, em um loop sem fim.
A evolução não é uma linha reta. É uma dança.
EPÍLOGO: POR QUE ISSO IMPORTA
O enativismo não é apenas uma teoria filosófica. É uma maneira de estar no mundo.
Ele nos diz que não somos espectadores de um mundo já feito. Somos participantes da construção do mundo que percebemos. A cada movimento, a cada olhar, a cada toque, estamos enactuando — trazendo à existência — a realidade que habitamos.
Isso é libertador. Significa que não estamos presos a uma realidade fixa. Podemos aprender a ver de novo. Podemos treinar nossa percepção. Podemos, como Noë sugere, usar a arte como uma tecnologia de reinvenção.
E isso é também uma responsabilidade. Se o mundo que percebemos é em parte construído por nossa ação, então como agimos importa. Nossas escolhas — o que olhamos, como olhamos, com que atenção — moldam o mundo em que vivemos.
Heráclito, Spinoza, Bergson, Noë — eles nos oferecem, através dos séculos, a mesma mensagem:
Você não está separado do mundo. Você é parte do mundo. O mundo não é um palco onde você assiste. É uma dança em que você participa.
Aprender a olhar é aprender a dançar.
NOTAS FINAIS: OBRAS E AUTORES CITADOS
Pré-socráticos
Heráclito de Éfeso — Fragmentos (panta rhei, o rio, a unidade dos opostos)
Parmênides de Eleia — Sobre a Natureza (O Ser imóvel, a via da verdade vs. via da opinião)
Mourelatos, A.P.D. (ed.) — The Pre-Socratics: A Collection of Critical Essays (1974)
Spinoza
Ética demonstrada à maneira dos geômetras (1677) — O conatus, os afetos, a alegria e a tristeza
Holzhey, C.F.E. — "Conatus errans: Paradoxe Lust zwischen Teleologie und Mechanik" (2017)
Burdon, G. — "On being affected: Desire, passion, and the question of conatus after Spinoza and Deleuze" (2022)
Sharp, H. — Spinoza and the Politics of Renaturalization (2011)
Deleuze, G. — Spinoza: Filosofia Prática (1988); Expressionismo em Filosofia: Spinoza (1990)
Bergson
Matéria e Memória (1896)
A Evolução Criativa (1907)
O Pensamento e o Movente (1934)
Enativismo e Noë
Varela, Thompson & Rosch — The Embodied Mind: Cognitive Science and Human Experience (1991)
Noë, A. — Action in Perception (2004)
Noë, A. — Out of Our Heads (2009)
Noë, A. — Strange Tools: Art and Human Nature (2015)
Noë, A. — Learning to Look: Dispatches from the Art World (2021)
FIM
"O rio em que Heráclito desceu duas vezes não é o mesmo rio — mas também não é um rio diferente. É o mesmo processo. É a mesma dança. É a mesma vida se fazendo e se refazendo a cada instante. O enativismo é o nome contemporâneo para essa sabedoria antiga: o mundo não é. O mundo acontece."
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