Introdução: A Virada Afetiva na Filosofia Política
Nas últimas décadas, um movimento intelectual conhecido como "virada afetiva" (affective turn) tem desafiado as concepções tradicionais da filosofia política que privilegiavam a razão, o interesse calculado ou as estruturas discursivas como fundamentos da vida social. No centro desse movimento, duas obras se destacam por sua radicalidade e profundidade teórica: Espinosa e a psicologia social: Ensaios de ontologia política e antropogênese, de Laurent Bove, e A sociedade dos afetos: Por um estruturalismo das paixões, de Frédéric Lordon. Ambos os autores, herdeiros da tradição espinosista francesa, propõem nada menos que uma refundação da teoria social a partir do conceito de afeto.
O que está em jogo nessa empreitada é a própria definição do que constitui o social. Contra a tradição contratualista que imagina indivíduos pré-sociais que posteriormente decidem associar-se, contra o individualismo metodológico que reduz o social à soma de ações individuais racionais, contra o estruturalismo que dissolve os sujeitos em posições discursivas, Bove e Lordon retornam a Espinosa para afirmar: somos antes de tudo corpos que se encontram, se afetam e se transformam mutuamente. O social não é um contrato, mas uma composição de corpos; a política não é uma questão de interesses racionalmente articulados, mas de paixões compartilhadas e potências comuns.
Este texto busca reconstruir as linhas fundamentais desse pensamento, articulando as contribuições de Bove e Lordon para mostrar como uma "sociedade dos afetos" se constitui, como ela se distingue de outras formas de associação e, sobretudo, como ela contém em si a possibilidade tanto da servidão quanto da liberdade.
Parte I: Laurent Bove e a Ontologia Política do Corpo
1. A Antropogênese como Processo Afetivo
Laurent Bove, professor emérito da Universidade de Lille e um dos maiores especialistas contemporâneos em Espinosa, propõe em Espinosa e a psicologia social uma tese ousada: a formação do humano — o processo que ele chama de antropogênese — não é um evento singular ou um salto qualitativo na evolução, mas um processo contínuo de composição afetiva entre corpos.
Para Bove, a pergunta "o que é um humano?" não pode ser respondida apelando a uma essência fixa, a uma alma imortal ou a uma capacidade racional inata. O humano, como Espinosa já havia formulado no Tratado Teológico-Político, é um ser cuja definição não se encontra em sua substância, mas em seu desejo de perseverar na existência e em sua capacidade de compor-se com outros corpos de modos cada vez mais complexos.
"A antropogênese não é um acontecimento metafísico, mas um processo ontológico: ela designa o modo pelo qual os corpos humanos, em sua relação com outros corpos humanos e não humanos, constituem gradualmente uma natureza comum, uma forma de vida coletiva que é também uma forma de potência comum" (Bove, Espinosa e a psicologia social, p. 45).
Bove insiste que esse processo é fundamentalmente afetivo antes de ser racional. Os humanos não se associam porque calculam os benefícios da cooperação; eles se associam porque são afetados pelos outros, porque experimentam alegria ou tristeza em sua presença, porque seus corpos encontram nos outros corpos uma possibilidade de expansão ou de contração de sua potência de agir.
A crítica de Bove ao contratualismo (Hobbes, Rousseau) e ao individualismo metodológico (da economia neoclássica à teoria da escolha racional) é devastadora: essas teorias pressupõem exatamente o que precisam explicar — a existência de indivíduos autônomos, dotados de razão e interesses estáveis, que depois se associam. Para Bove, não há indivíduos pré-sociais; há corpos em relação desde o início, e é nessa relação que a própria individualidade se constitui.
2. A Mimesis como Fundamento do Social
Um dos conceitos centrais mobilizados por Bove é o da mimesis (imitação), retomado de Aristóteles, mas radicalmente transformado pelo espinosismo. Se para a tradição filosófica a imitação é frequentemente vista como uma forma de servidão — a multidão que imita cegamente os afetos dos líderes —, para Bove ela é também a condição de possibilidade de qualquer vida coletiva.
"A mimesis não é um fenômeno secundário ou patológico; ela é o mecanismo fundamental pelo qual os corpos se afetam mutuamente e pelo qual os afetos se propagam através de uma multidão. O que chamamos de 'sociedade' é, antes de tudo, um campo de imitação afetiva, um espaço onde as alegrias e as tristezas circulam, se intensificam, se transformam" (Bove, p. 78).
Essa perspectiva permite a Bove uma crítica poderosa tanto do individualismo liberal quanto do comunitarismo essencialista. Contra o liberalismo, ele afirma que não há indivíduo autossuficiente; contra o comunitarismo, ele afirma que a comunidade não é um dado preexistente baseado em identidades fixas, mas um processo de composição sempre provisório e instável.
O social, para Bove, é esse campo de forças afetivas onde corpos se encontram e se transformam. E é precisamente porque o social é fundado na mimesis que ele pode ser tanto o lugar da servidão quanto o lugar da liberdade — dependendo de quais afetos predominam e de como eles são organizados.
3. Paixões e Potência: A Dupla Face dos Afetos
Bove dedica uma parte significativa de seu livro à análise do que ele chama de "dupla face" dos afetos. Por um lado, os afetos podem ser paixões — afecções passivas que nos submetem a causas externas, que nos fazem agir sem que sejamos plenamente causa de nossas ações. Por outro lado, os afetos podem ser expressões de potência — afecções ativas que decorrem de nossa própria natureza, que nos permitem agir de modo a perseverar em nosso ser e a expandir nossa capacidade de existir.
Essa distinção, herdada de Espinosa, é fundamental para a teoria política de Bove. Uma sociedade pode ser organizada de modo a multiplicar as paixões tristes — o medo, a esperança supersticiosa, a inveja, o ódio —, mantendo os indivíduos em estado de submissão e impotência. É o que Espinosa chamava de servidão humana e que Bove identifica como a lógica fundamental do poder soberano na tradição hobbesiana: produzir medo para garantir obediência.
Mas uma sociedade também pode ser organizada de modo a favorecer as afecções ativas — o amor, a alegria compartilhada, a amizade —, permitindo que os indivíduos componham suas potências em uma potência comum que ultrapassa a soma das partes. É o que Bove chama de democracia afetiva: não uma forma de governo entre outras, mas o regime político que corresponde à natureza humana quando ela é compreendida em sua essência como desejo de perseverar e capacidade de se compor com outros.
"A democracia, para Espinosa, não é uma forma institucional entre outras; ela é o regime no qual a multidão se organiza de modo a produzir afetos de alegria e a multiplicar as condições da potência comum. É porque os afetos são o fundamento do social que a questão política fundamental é sempre uma questão de regime dos afetos: quais afetos predominam em uma sociedade, e como eles são produzidos, circulam e se transformam?" (Bove, p. 156).
Parte II: Frédéric Lordon e o Estruturalismo das Paixões
1. Para Além da Oposição entre Estrutura e Sujeito
Frédéric Lordon, diretor de pesquisa no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) e membro do Centre de Sociologie Européenne, propõe em A sociedade dos afetos uma síntese audaciosa entre o estruturalismo (particularmente na versão de Pierre Bourdieu) e a filosofia espinosista dos afetos. O objetivo de Lordon é superar a antinomia que paralisou as ciências sociais por décadas: de um lado, as teorias estruturalistas que dissolvem o sujeito em posições determinadas por estruturas objetivas; de outro, as teorias da ação que celebram a liberdade do sujeito, mas frequentemente ignoram os condicionamentos sociais.
Lordon propõe um "estruturalismo das paixões" — uma teoria na qual as estruturas sociais não são menos determinantes, mas onde a determinação opera através dos afetos e não contra eles. As estruturas não são apenas externas aos indivíduos, impondo-se como constrangimentos objetivos; elas são também incorporadas como disposições afetivas, como maneiras de sentir e desejar que orientam a ação de modo frequentemente mais poderoso do que qualquer cálculo racional.
"O que a sociologia de Bourdieu nos ensinou é que as estruturas sociais se inscrevem nos corpos sob a forma de habitus — disposições duráveis que orientam a ação sem passar pela consciência explícita. O que o espinosismo nos permite acrescentar é que essas disposições são essencialmente afetivas: o habitus é um conjunto de tendências a ser afetado de certas maneiras, a experimentar alegria ou tristeza diante de certos objetos, a desejar certas coisas em detrimento de outras" (Lordon, A sociedade dos afetos, p. 34).
Para Lordon, a noção de interesse que domina a teoria social moderna — da economia à sociologia da ação — é um conceito inadequado para dar conta da complexidade da ação humana. O que move os indivíduos não é um interesse calculado, mas uma paixão — e as paixões são sempre moldadas pelas estruturas sociais nas quais os indivíduos são formados.
2. A Economia Afetiva das Relações Sociais
Uma das contribuições mais originais de Lordon é sua análise das relações sociais em termos de economia afetiva. Para ele, toda relação social é também uma relação de afetação: os indivíduos se afetam mutuamente, produzem alegrias e tristezas uns nos outros, e essa produção afetiva é tão fundamental para a reprodução das estruturas sociais quanto a produção econômica de bens materiais.
"Se as relações sociais são relações de força, elas são também e inseparavelmente relações de afeto. Não há poder que não opere através da produção de afetos — o medo, a esperança, o amor, a admiração, o ódio. A dominação social não é apenas uma questão de exploração econômica ou de coerção física; ela é também e sobretudo uma questão de captura dos afetos, de organização do campo afetivo de modo a produzir adesão, obediência, submissão" (Lordon, p. 78).
Lordon radicaliza a crítica da economia política ao mostrar que o capitalismo não é apenas um sistema de extração de mais-valia, mas também um sistema de produção de afetos. O trabalho assalariado não é apenas uma relação contratual baseada na troca de trabalho por salário; é também uma relação de subordinação afetiva, na qual o trabalhador é obrigado a orientar seus afetos de acordo com os interesses do empregador, a produzir alegria e entusiasmo mesmo quando experimenta tédio ou humilhação.
Essa análise permite a Lordon compreender fenômenos que escapam à economia política tradicional: o engagement dos trabalhadores em empresas que os exploram, o amor pelo trabalho que se torna servidão, a identificação com figuras de autoridade que agem contra os interesses objetivos dos subordinados. Tudo isso, para Lordon, são manifestações de uma economia afetiva que opera em paralelo à economia material e que frequentemente a torna possível.
3. A Mecânica das Paixões: Teoria da Conatus e Imitação dos Afetos
No centro da teoria de Lordon está o conceito espinosista de conatus — o esforço de cada ser por perseverar em seu ser. Esse esforço, para Lordon, não é um princípio egoísta ou individualista; é antes o fundamento ontológico da sociabilidade.
"O conatus é desejo, e o desejo é sempre desejo de alguma coisa. Mas o que ele deseja, fundamentalmente, é sua própria persistência e expansão. E porque ele só pode perseverar e expandir sua potência através da composição com outros corpos, o conatus é imediatamente social: ele é o princípio de uma sociabilidade que não precisa ser acrescentada a uma natureza humana pré-social, porque ela já está inscrita na própria definição do humano como ser de desejo" (Lordon, p. 112).
Lordon articula esse princípio com a teoria da mimesis dos afetos, desenvolvida originalmente por Espinosa na Ética. A imitação dos afetos — o processo pelo qual os afetos se propagam de um corpo a outro, transformando a multidão em um campo de ressonância afetiva — é, para Lordon, o mecanismo fundamental da vida social.
"O que chamamos de 'opinião pública', de 'clima social', de 'estado de espírito de uma época' são manifestações desse fenômeno fundamental: a circulação mimética dos afetos através de uma multidão. Ninguém escapa a essa circulação; somos todos constantemente afetados pelos afetos dos outros, e nossos próprios afetos afetam os outros por sua vez. O social é esse campo de ressonância" (Lordon, p. 135).
Essa circulação mimética, no entanto, não é indeterminada ou caótica. Para Lordon, ela é sempre estruturada pelas posições sociais que os indivíduos ocupam. As estruturas sociais — classes, gênero, raça, posições no campo econômico e cultural — são também estruturas afetivas: elas determinam não apenas o que os indivíduos podem fazer, mas também o que eles podem sentir, o que os afeta como alegria ou tristeza, o que eles desejam e o que temem.
4. Afetos e Política: O Neoliberalismo como Regime Afetivo
Lordon dedica a parte final de A sociedade dos afetos a uma análise do neoliberalismo como regime afetivo. Para ele, o neoliberalismo não é apenas uma doutrina econômica ou um conjunto de políticas de desregulação; é também um modo de produzir subjetividade, de moldar os afetos de modo a torná-los compatíveis com a acumulação capitalista.
"O neoliberalismo não se contenta em privatizar empresas e reduzir gastos sociais; ele opera uma verdadeira reforma dos afetos. Ele produz indivíduos que não experimentam mais a solidariedade como alegria, mas como peso; que veem os outros não como potenciais parceiros de composição, mas como concorrentes; que avaliam sua própria vida não por sua riqueza afetiva, mas por seu desempenho econômico" (Lordon, p. 189).
Lordon mostra como o neoliberalismo mobiliza um conjunto de afetos específicos: o medo do desemprego e da exclusão social; a esperança de ascensão social que mantém os indivíduos em competição permanente; a inveja que os volta uns contra os outros; o ressentimento contra os "beneficiários" da assistência social. Esses afetos, longe de serem naturais ou universais, são produzidos por um conjunto de dispositivos institucionais, discursivos e práticos que constituem o que Lordon chama de "estrutura afetiva do neoliberalismo".
A crítica política de Lordon é clara: não se pode combater o neoliberalismo apenas com argumentos econômicos ou propostas institucionais. É preciso combater também sua estrutura afetiva — é preciso produzir outros afetos, outras maneiras de sentir e desejar, outras formas de composição coletiva que permitam escapar da atomização competitiva imposta pelo capitalismo contemporâneo.
Parte III: Diálogos e Tensões entre Bove e Lordon
1. Convergências Fundamentais
Apesar das diferenças de estilo, escopo e público-alvo, Bove e Lordon compartilham um conjunto de convicções fundamentais que permitem falar de uma verdadeira escola espinosista francesa na teoria social contemporânea:
Primeiro, ambos rejeitam qualquer forma de dualismo entre corpo e alma, entre afeto e razão, entre determinação estrutural e liberdade individual. Para Bove, o humano é um corpo cuja capacidade de pensar e agir é inseparável de sua capacidade de ser afetado; para Lordon, as estruturas sociais são eficazes porque se inscrevem nos corpos como disposições afetivas.
Segundo ambos afirmam a prioridade ontológica da relação sobre o termo. Não há indivíduos pré-sociais que posteriormente entram em relação; os indivíduos são constituídos nas e pelas relações afetivas em que estão imersos desde o início.
Terceiro, ambos veem na mimesis dos afetos o mecanismo fundamental da vida social. A circulação mimética dos afetos é o que transforma uma multidão em um corpo coletivo, para o bem ou para o mal.
Quarto, ambos compartilham uma visão da política como regime dos afetos. A questão política fundamental não é "quem governa?" ou "como distribuir os recursos?", mas "que afetos predominam em uma sociedade, e como eles são produzidos, organizados e transformados?".
2. Tensões e Ênfases Diferenciadas
No entanto, há também tensões importantes entre as duas obras, que refletem diferentes ênfases e diferentes heranças teóricas:
Ontologia vs. Sociologia: Bove é fundamentalmente um filósofo, preocupado em estabelecer as bases ontológicas de uma teoria social dos afetos. Lordon é um sociólogo, preocupado em aplicar e refinar essas categorias para a análise de fenômenos sociais concretos — o neoliberalismo, o trabalho, a mobilização política. Essa diferença de ênfase leva Lordon a um diálogo mais explícito com a tradição sociológica (Bourdieu, Foucault) do que Bove, que permanece mais próximo do comentário filosófico.
Potência vs. Estrutura: Embora ambos rejeitem a oposição entre estrutura e sujeito, suas ênfases são ligeiramente diferentes. Bove enfatiza a potência dos corpos de se compor em formas cada vez mais complexas, a capacidade de produzir afetos ativos que escapam à determinação estrutural. Lordon, mais influenciado por Bourdieu, enfatiza a estruturação dos afetos pelas posições sociais, a maneira como a dominação se inscreve nos corpos como disposições duráveis. Para Bove, o horizonte é a libertação da potência coletiva; para Lordon, o horizonte é a crítica das estruturas afetivas de dominação.
Desejo vs. Interesse: Bove tende a opor desejo (compreendido em sentido espinosista como conatus) ao interesse calculado da tradição utilitarista. Lordon, por sua vez, propõe uma reformulação do conceito de interesse em termos afetivos: o interesse não é um cálculo racional, mas uma paixão — o desejo de perseverar no ser, que pode assumir formas muito diferentes dependendo do contexto estrutural.
3. Complementaridade
Longe de serem contraditórias, essas diferenças fazem das duas obras complementares. Bove fornece os fundamentos ontológicos e conceituais para uma teoria social dos afetos; Lordon mostra como essa teoria pode ser aplicada à análise de fenômenos sociais concretos. Bove enfatiza a potência criadora dos corpos; Lordon mostra como essa potência é frequentemente capturada e canalizada por estruturas de dominação. Bove oferece o horizonte utópico de uma democracia dos afetos; Lordon oferece as ferramentas para a crítica das estruturas afetivas que nos mantêm em servidão.
Parte IV: Implicações para a Teoria Social Contemporânea
1. Crítica do Individualismo Metodológico
Uma das contribuições mais importantes da "sociedade dos afetos" é sua crítica radical ao individualismo metodológico que domina as ciências sociais contemporâneas, particularmente na economia e na teoria da escolha racional.
Para Bove e Lordon, o pressuposto de que o social pode ser explicado como a soma de ações individuais orientadas por interesses calculados é duplamente falso: primeiro, porque não há indivíduos pré-sociais cujas preferências sejam formadas independentemente das relações em que estão inseridos; segundo, porque a ação humana não é orientada principalmente por interesses calculados, mas por paixões que escapam ao cálculo e que são moldadas pelas estruturas afetivas nas quais os indivíduos são formados.
Essa crítica tem implicações profundas para a teoria econômica, a sociologia da ação e a teoria política. Ela sugere que a tentativa de fundar a análise social em um "agente racional" maximizador de utilidade é um reducionismo que ignora precisamente o que há de mais específico no social: sua dimensão afetiva e mimética.
2. Para Além da Oposição entre Estrutura e Agência
A sociologia contemporânea tem sido marcada por uma oposição entre abordagens estruturalistas, que enfatizam a determinação dos indivíduos por estruturas objetivas, e abordagens centradas na agência, que enfatizam a capacidade dos indivíduos de agir criativamente sobre o mundo. A teoria dos afetos proposta por Bove e Lordon oferece uma via para além dessa oposição.
Ao mostrar que as estruturas sociais são eficazes porque se inscrevem nos corpos como disposições afetivas — maneiras de sentir, desejar e se relacionar com o mundo —, Bove e Lordon mostram que a determinação estrutural não se opõe à agência, mas opera através dela. Os indivíduos não são meros efeitos das estruturas, mas também não são sujeitos autônomos que agem independentemente delas. Eles são corpos constituídos por estruturas afetivas, mas dotados de uma potência que lhes permite transformar essas estruturas através de novas composições afetivas.
3. A Política como Regime dos Afetos
Talvez a contribuição mais importante da "sociedade dos afetos" seja sua redefinição da política. Contra a tradição que vê a política como uma questão de interesses, de direitos ou de procedimentos, Bove e Lordon afirmam que a política é fundamentalmente uma questão de afetos.
"A política não é a arte de conciliar interesses ou de administrar instituições; ela é a arte de compor afetos, de produzir alegrias e tristezas coletivas, de organizar o campo afetivo de modo a favorecer a expansão da potência comum ou, ao contrário, a manter a multidão em estado de servidão" (Bove, p. 203).
Essa perspectiva tem implicações profundas para a teoria democrática. Ela sugere que a democracia não é apenas uma forma institucional baseada no sufrágio universal e na separação dos poderes; ela é, antes de tudo, um regime afetivo — um modo de organizar os afetos coletivos de modo a multiplicar as alegrias compartilhadas e a potência comum.
Isso explica por que a democracia pode existir em formas muito diferentes daquelas previstas pela teoria política liberal — em movimentos sociais, em comunidades autogeridas, em práticas cotidianas de solidariedade e cooperação — e porque instituições formalmente democráticas podem ser vazias se não forem sustentadas por afetos democráticos de confiança, respeito e desejo de composição comum.
4. O Neoliberalismo como Contrarreforma Afetiva
A análise do neoliberalismo como "regime afetivo" proposta por Lordon é uma das contribuições mais originais da obra. Ela permite compreender por que o neoliberalismo sobreviveu a suas crises econômicas e à evidente injustiça de suas consequências sociais: porque ele não é apenas um sistema econômico, mas também um sistema de produção de subjetividade que molda os afetos de modo a torná-los compatíveis com a exploração e a desigualdade.
O neoliberalismo, para Lordon, opera uma verdadeira reforma dos afetos: ele substitui a solidariedade pela competição, o cuidado pelo desempenho, a cooperação pelo individualismo. Ele produz sujeitos que experimentam sua própria vida como um empreendimento a ser gerido, que veem os outros como concorrentes ou obstáculos, que avaliam seu valor não por sua contribuição para o bem comum, mas por sua posição na hierarquia econômica.
Essa análise abre caminho para uma política antineoliberal que não se limite a propor alternativas econômicas, mas que se proponha a produzir outros afetos — a reconstruir laços de solidariedade, a multiplicar espaços de cooperação, a cultivar alegrias coletivas que escapem à lógica da competição e do desempenho.
Conclusão: A Potência da Alegria Coletiva
O que emerge da leitura combinada de Bove e Lordon é uma visão do social radicalmente diferente daquela que domina a teoria social contemporânea. O social não é um contrato, nem um mercado, nem um conjunto de estruturas objetivas que determinam a ação dos indivíduos. O social é, antes de tudo, um campo de afetos — um espaço onde corpos se encontram, se afetam, se transformam, onde alegrias e tristezas circulam e se intensificam, onde potências se compõem ou se chocam.
Essa visão tem consequências profundas para a teoria política. Ela sugere que a questão política fundamental não é "como conciliar interesses?" ou "como garantir direitos?" ou "como estabelecer instituições justas?". A questão política fundamental é: quais afetos predominam em uma sociedade, como eles são produzidos, e como podemos organizá-los de modo a favorecer a expansão da potência comum?
Para Bove e Lordon, a resposta a essa questão está em Espinosa. O filósofo holandês do século XVII, muitas vezes lido como um precursor do liberalismo ou do racionalismo, revela-se aqui como o teórico radical de uma política dos afetos que desafia as categorias fundamentais da filosofia política moderna.
"A alegria não é apenas um sentimento subjetivo; ela é o sinal de que nossa potência de agir está se expandindo, de que estamos compondo nossa potência com a potência de outros corpos de modo a produzir algo que nos ultrapassa. A política da alegria é, assim, o avesso da política do medo: enquanto esta mantém os indivíduos em estado de isolamento e impotência, aquela os abre para a composição e para a potência comum" (Lordon, p. 245).
A "sociedade dos afetos" proposta por Bove e Lordon não é, portanto, apenas uma teoria sobre o social; é também um projeto político. É a aposta na possibilidade de construir formas de vida coletiva baseadas não no medo, na competição e na dominação, mas na alegria compartilhada, na cooperação e na expansão da potência comum.
Essa aposta, longe de ser ingênua ou utópica, é sustentada por uma ontologia rigorosa e por uma análise minuciosa dos mecanismos pelos quais os afetos circulam e se transformam nas sociedades contemporâneas. Bove e Lordon nos oferecem, assim, não apenas um diagnóstico do presente, mas também ferramentas para sua transformação — uma caixa de ferramentas afetivas para a construção de outros mundos possíveis.
Referências
BOVE, Laurent. Espinosa e a psicologia social: Ensaios de ontologia política e antropogênese. Tradução de Luís César Guimarães Oliva. São Paulo: Editora Unifesp, 2020.
LORDON, Frédéric. A sociedade dos afetos: Por um estruturalismo das paixões. Tradução de Fabrício Corsaletti. Campinas: Editora Unicamp, 2020.
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