A Casa Grande ainda treme em suas fundações de cal e sangue. Os ecos do sinhô-mor não são mais canções de berço, mas gemidos de paredes que desabam sob o peso de um tempo que não perdoa.
“Na casa-grande, tudo era mandado; na senzala, tudo era sofrido”,
escreveu Freyre, com lente suave —
mas nós, os que herdamos o chicote na memória,
sabemos que o sofrimento tinha nome,
e o mandado, cheiro de pólvora e cruz.
Hoje, os oligarcas choram.
Choram porque o mundo já não lambe suas botas de verniz.
Choram porque a senzala aprendeu a ler,
e o capitão-do-mato — ah, ironia —
cansou de ser cão de fila e virou gente.
“Não adianta, múmias do poder se levantarem para defender outras múmias”,
como canta Carazzo em suas trincheiras de tinta e fúria:
o tempo não teme múmias,
o povo não teme faraós de gravata.
Eles que já foram tudo — terra, ferro, voz, verbo,
que compraram juízes com moeda podre,
que escreveram a lei com a ponta da chibata,
que nos deram esmolas chamando-as de “bondade” —
agora querem mais.
Querem o espólio do futuro,
querem o suor do neto que ainda não nasceu,
querem transformar moedas de esmola em grandes feitos,
como se o pão que negaram pudesse virar altar.
Mas Raymundo Faoro já avisava, em Os Donos do Poder:
o estamento burocrático não se dissolve com lágrimas de herdeiro.
O poder que se fecha em si mesmo apodrece,
e o cheiro do apodrecimento é o mesmo da casa-grande em ruínas:
mofo, sangue, hipocrisia e incenso.
Não adianta, oligarcas.
Vocês podem pagar psiquiatras para curar esse narcisismo incurável,
esse espelho onde só veem a própria face deformada pelo privilégio.
Mas o espelho vai quebrar.
E atrás dele, não haverá trono —
haverá um monte de moedas de cobre
que nunca alimentaram ninguém,
mas sempre compraram a fome alheia.
São essas moedas, sim,
que perpetuam a pobreza,
que esfaimam crianças para engordar cofres,
que tornam a democracia um teatro de fantoches onde o povo só assiste,
quando não é empurrado para a vala comum da violência extrema.
Mas há algo que dói mais em vocês do que a derrota:
a descoberta de que os capitães do mato —
esses que vocês treinaram para odiar a própria cor,
para bater no irmão de senzala em troca de um prato de feijão —
esses mesmos, um dia, se rebelam.
E se unem à resistência.
E derrubam ditaduras com as mãos que vocês amarraram.
E vocês choram.
Choram como choram os deuses antigos quando o último templo cai:
sem fé, sem rebanho, sem futuro.
O choro da oligarquia na casa-grande não é tragédia —
é biografia.
É o som do próprio veneno escorrendo pela goela abaixo.
É o eco de uma história que, finalmente,
virou do avesso.
Durmam com o choro, senhores.
Ou paguem psiquiatras.
Mas não peçam lágrimas nossas.
Nossas lágrimas, há muito, secaram —
e viraram facas.
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