SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

O Choro da Oligarquia na Casa Grande. Por Egidio Guerra.




A Casa Grande ainda treme em suas fundações de cal e sangue. Os ecos do sinhô-mor não são mais canções de berço, mas gemidos de paredes que desabam sob o peso de um tempo que não perdoa.

“Na casa-grande, tudo era mandado; na senzala, tudo era sofrido”, 
escreveu Freyre, com lente suave — 
mas nós, os que herdamos o chicote na memória, 
sabemos que o sofrimento tinha nome, 
e o mandado, cheiro de pólvora e cruz.

Hoje, os oligarcas choram. 
Choram porque o mundo já não lambe suas botas de verniz. 
Choram porque a senzala aprendeu a ler, 
e o capitão-do-mato — ah, ironia — 
cansou de ser cão de fila e virou gente. 
“Não adianta, múmias do poder se levantarem para defender outras múmias”, 
como canta Carazzo em suas trincheiras de tinta e fúria: 
o tempo não teme múmias, 
o povo não teme faraós de gravata.

Eles que já foram tudo — terra, ferro, voz, verbo, 
que compraram juízes com moeda podre, 
que escreveram a lei com a ponta da chibata, 
que nos deram esmolas chamando-as de “bondade” — 
agora querem mais. 
Querem o espólio do futuro, 
querem o suor do neto que ainda não nasceu, 
querem transformar moedas de esmola em grandes feitos, 
como se o pão que negaram pudesse virar altar.

Mas Raymundo Faoro já avisava, em Os Donos do Poder: 
o estamento burocrático não se dissolve com lágrimas de herdeiro. 
O poder que se fecha em si mesmo apodrece, 
e o cheiro do apodrecimento é o mesmo da casa-grande em ruínas: 
mofo, sangue, hipocrisia e incenso. 

Não adianta, oligarcas. 
Vocês podem pagar psiquiatras para curar esse narcisismo incurável, 
esse espelho onde só veem a própria face deformada pelo privilégio. 
Mas o espelho vai quebrar. 
E atrás dele, não haverá trono — 
haverá um monte de moedas de cobre 
que nunca alimentaram ninguém, 
mas sempre compraram a fome alheia.

São essas moedas, sim, 
que perpetuam a pobreza, 
que esfaimam crianças para engordar cofres, 
que tornam a democracia um teatro de fantoches onde o povo só assiste, 
quando não é empurrado para a vala comum da violência extrema. 

Mas há algo que dói mais em vocês do que a derrota: 
a descoberta de que os capitães do mato — 
esses que vocês treinaram para odiar a própria cor, 
para bater no irmão de senzala em troca de um prato de feijão — 
esses mesmos, um dia, se rebelam. 
E se unem à resistência. 
E derrubam ditaduras com as mãos que vocês amarraram. 

E vocês choram. 
Choram como choram os deuses antigos quando o último templo cai: 
sem fé, sem rebanho, sem futuro. 
O choro da oligarquia na casa-grande não é tragédia — 
é biografia. 
É o som do próprio veneno escorrendo pela goela abaixo. 
É o eco de uma história que, finalmente, 
virou do avesso. 

Durmam com o choro, senhores. 
Ou paguem psiquiatras. 
Mas não peçam lágrimas nossas. 
Nossas lágrimas, há muito, secaram — 
e viraram facas. 

 

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