A Base de Seu Pensamento: Empatia e Vigilância em Tensão
O cerne da filosofia do Rabino Cosgrove, conforme articulado em seu livro de 2024, "For Such a Time as This: On Being Jewish Today", é a necessidade de manter duas ideias aparentemente opostas em equilíbrio: a empatia e a vigilância . Para ele, essa tensão está gravada no próprio DNA judaico.
Por um lado, a experiência histórica judaica de ser o "estranho em uma terra estranha" exige uma profunda empatia pelo outro, incluindo os palestinos que sofrem em Gaza. Cosgrove argumenta que "ser judeu é saber que, por causa de quem somos, por causa da nossa experiência histórica, nos importamos com o outro" . Ele reconhece o "sofrimento real que está acontecendo em Gaza" e insiste que a comunidade judaica precisa encontrar uma maneira de reconhecer tanto a necessidade de autodefesa de Israel quanto o sofrimento palestino .
Por outro lado, a história de perseguição e a realidade de um Estado de Israel sitiado por inimigos como o Irã e seus proxies exigem vigilância constante. Cosgrove cita a Haggadah da Páscoa, que nos lembra que "em todas as gerações, um faraó se levanta para nos destruir" . Essa tensão entre "manter os escudos de autodefesa" e estender "a mão aberta e estendida" é, para ele, o grande desafio do momento .
A Coragem de Falar: O Caso Mamdani e a Defesa da Comunidade
Talvez o exemplo mais marcante da liderança do Rabino Cosgrove tenha sido sua corajosa posição contra o candidato a prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, a quem ele se referiu como um perigo para a segurança da comunidade judaica . Em um sermão de Shabat, ele foi direto: "Para ser claro, inequívoco e registrado, eu acredito que Zohran Mamdani representa um perigo para a segurança da comunidade judaica de Nova York" .
Esta ação foi amplamente elogiada como um momento de clareza moral em um momento em que muitos líderes relutam em rotular o antissionismo como antissemitismo . No entanto, Cosgrove foi além da mera denúncia. Ele usou o episódio para fazer uma autocrítica na comunidade judaica, argumentando que os apoiadores de Israel "não deveriam ficar surpresos" que cerca de 33% dos eleitores judeus tenham votado em Mamdani .
Para ele, o voto em um candidato antissionista por judeus liberais é um sintoma de um mal mais profundo: o distanciamento entre o judaísmo americano, predominantemente liberal, e um governo israelense cada vez mais à direita. Cosgrove criticou abertamente a "expansão de assentamentos", a "deriva à direita" de Israel e os "partidos extremistas" no governo de Benjamin Netanyahu, que ele vê como responsáveis por afastar os judeus americanos .
Um Sionismo de Tendas Amplas, mas com Linhas Vermelhas
O Rabino Cosgrove se autodenomina um "sionista liberal" e, em seu discurso na Convenção do Movimento Sionista Americano (AZM), pediu um "novo capítulo do sionismo americano" que fosse "ousado o suficiente para abraçar as vozes, complexidades, paradoxos e até contradições da nossa era" . Ele critica a "intolerância na comunidade judaica americana em relação a pontos de vista políticos divergentes" e argumenta que tornar o "apoio incondicional ao governo israelense um teste decisivo para a identidade judaica... causou danos ao futuro judaico" .
No entanto, essa defesa da diversidade de opiniões tem limites claros. Cosgrove traça uma linha vermelha entre a dissidência legítima e o antissionismo que beira a cumplicidade com o terror. Ele distingue entre participar de uma manifestação pró-democracia com bandeiras israelenses e "ficar em um acampamento ao lado de alguém que pede uma intifada global" . Para ele, dentro da "tenda sionista" há espaço para críticas às políticas do governo, mas não para aqueles que desejam o mal do povo judeu.
Controvérsias: A Crítica da Direita e a Condição para o Diálogo
A postagem progressista do Rabino Cosgrove não passou sem críticas do espectro político oposto. Figuras como Morton Klein, presidente da Organização Sionista da América (ZOA), o acusaram de hipocrisia, alegando que o rabino só tolera "pontos de vista diversos" da esquerda . Klein relatou que Cosgrove teria exigido que ele escrevesse um artigo de opinião apoiando a criação de um Estado palestino como condição para falar em sua sinagoga, o que Klein recusou .
Este episódio ilustra perfeitamente a posição do rabino. Para Cosgrove, acredita-se que uma solução de dois Estados é uma necessidade para garantir o futuro democrático e judeu de Israel. Para a direita sionista, a criação de um Estado palestino é vista como um perigo existencial. A exigência de Cosgrove, portanto, não foi um capricho, mas sim um teste de alinhamento com sua visão fundamental de um sionismo que busca a paz e a autodeterminação para ambos os povos, um pré-requisito para o diálogo em seu púlpito.
Conclusão
O pensamento e os discursos do Rabino Elliot Cosgrove representam um esforço sincero e, por vezes, desconfortável para definir o que significa ser um judeu sionista em um mundo pós-7 de outubro. Ele se recusa a escolher entre o amor a Israel e a crítica às suas políticas, entre a autodefesa feroz e a empatia pelo sofrimento do outro. Sua liderança é um chamado à complexidade, à maturidade e à responsabilidade, convidando sua comunidade a abandonar o papel de espectadora e a se tornar agente ativa na construção de um futuro judaico que seja ao mesmo tempo seguro, justo e profundamente enraizado nos valores éticos da tradição. Ele pode não agradar a todos, mas, como sua referência bíblica favorita, Rainha Ester, Cosgrove parece ter chegado à sua posição de liderança "para um momento como este"
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