SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

O EVANGELHO SEGUNDO A VERGONHA: COMO TRUMP E NETANYAHU ENCOLHERAM DOIS IMPÉRIOS ATÉ A IRRELEVÂNCIA RIDÍCULA. Por Egidio Guerra

 


Uma profanação necessária contra os altares do poder sangrento


I. O DELÍRIO DOS ANÕES TOCANDO TROMBETAS

Há algo de profundamente patético em assistir dois homens de terno tentando representar o papel de Júlio César quando mal conseguem interpretar gerentes de condomínio em crise de meia-idade.

Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Nomes que um dia ecoaram como trovões. Hoje soam como chocalhos de brinquedo quebrado.

Eles queriam ser lembrados como os arquitetos de uma nova ordem mundial. Serão lembrados como os decoradores de um manicômio — arrumando as cadeiras enquanto o prédio pega fogo.

Porque o que esses dois senhores da guerra de salão fizeram não foi construir poder. Foi diminuir tudo que tocaram. Tornaram os Estados Unidos pequenos. Tornaram Israel pequeno. Reduziram duas democracias — uma moribunda, outra em coma induzido — a vitrines de mesquinhez, brutalidade e corrupção tão ordinária que daria vergonha a um ditador de segunda linha.

Vamos aos fatos. Porque a raiva sem dados é histeria. E a histeria, convenhamos, é um luxo que não podemos mais pagar.


II. O MASSACRE DOS INOCENTES: UMA CONTAGEM QUE O INFERNO REGISTRA

Gaza: O Laboratório de Monstros

Até outubro de 2024, o número de mortos em Gaza ultrapassava 42.000 pessoas.

Destes, mais de 16.000 eram crianças.

Crianças. Seres humanos que não sabiam o que era uma linha de fronteira, uma facção política, um míssil ou um direito de veto na ONU. Foram mortas em bombardeios "cirúrgicos" que acertaram escolas, hospitais, campos de refugiados, filas de pão. Mortas por bombas fabricadas nos Estados Unidos — pagas com impostos americanos — e lançadas por aviões israelenses sob o comando de um primeiro-ministro que faz pose de Churchill enquanto seu país enterra crianças em sacos plásticos.

10.000 mulheres foram mortas. Mães. Irmãs. Estudantes. Enfermeiras. Mortas em abrigos da ONU marcados com coordenadas GPS para "evitar" bombardeios — e bombardeadas mesmo assim.

Mais de 70% das vítimas em Gaza eram mulheres e crianças quando a contagem ultrapassou 25 mil mortos. O número só piorou depois.

O que Netanyahu chama de "guerra existencial" é, pelos números, uma operação sistemática de extermínio de civis — justificada pelo horror do 7 de outubro, que matou 1.139 israelenses, a maioria civis. Um horror real. Um horror condenável. Um horror que Netanyahu, pasmem, ignorou por meses antes de acontecer porque acreditava que manter o Hamas "no limite, mas no poder" servia aos seus interesses políticos de dividir os palestinos.

Ele deixou o monstro crescer para justificar o monstro que queria ser.

E o resultado? Mais de 100 jornalistas mortos em Gaza. Mais de 200 profissionais de saúde assassinados no cumprimento do dever. O maior número de trabalhadores humanitários mortos em qualquer conflito em décadas.

A Anistia Internacional documentou atos que constituem crimes de guerra e possivelmente crimes contra a humanidade. A Corte Internacional de Justiça considerou "plausível" a alegação de genocídio.

Mas Netanyahu, de peito estufado, chama isso de "vitória".

Que vitória? Sobre quem? Sobre crianças mortas? Sobre hospitais destruídos? Sobre uma população inteira sendo empurrada para o Egito como gado?

Israel nunca foi tão odiado no mundo. E esse ódio não vem de antissemitas. Vem de pessoas que viram com seus próprios olhos — pelo TikTok, pelo Instagram, por jornalistas palestinos que se tornaram as únicas testemunhas vivas — o que significa "limpeza étnica" transmitida ao vivo.

Netanyahu tornou Israel pequeno. Reduziu o sonho sionista de um refúgio seguro a um parque de diversões de bombardeios. Transformou a memória do Holocausto — "Nunca Mais" — em "Nunca Mais para nós; para os outros, pode".


Ucrânia, Iêmen, Sudão: O Banquete dos Abutres

Enquanto Trump e Netanyahu monopolizavam as manchetes com seus delírios, o mundo queimava em silêncio.

Ucrânia: Mais de 500 mil mortos entre soldados e civis até 2024. Cidades inteiras apagadas do mapa. Crianças enterradas em pátios de escolas. Trump, que se gaba de "resolver a guerra em 24 horas", ofereceu um plano que basicamente dizia à Ucrânia: "Entreguem seu território e aceitem a humilhação". Por trás? Negócios. Sempre negócios. Conversas com Putin. Acordos secretos. A política externa americana reduzida a uma planilha de Excel de um empresário de Atlantic City.

Iêmen: 377 mil mortos desde 2015. A maioria, crianças menores de cinco anos — não de bombas, mas de fome. Fome causada por um bloqueio militar que os EUA e Israel apoiaram taticamente. O maior desastre humanitário do século, tratado pela mídia como nota de rodapé.

Sudão: 15 mil mortos em um ano de guerra civil, com 8,5 milhões de deslocados — a maior crise de refugiados do planeta. Ninguém liga. Não há petróleo. Não há "interesse estratégico". Há apenas corpos negros sendo moídos em conflitos que ninguém tem coragem de nomear como genocídios.

E onde estava Trump, o "presidente da paz" que "não começou novas guerras"? Negociando a retirada do Afeganistão que deixou bilhões em equipamentos para o Talibã. Fazendo acordos com os talibãs sem incluir o governo afegão. Vendendo armas para a Arábia Saudita para bombardear o Iêmen. Matando o general iraniano Soleimani num ataque que quase iniciou a Terceira Guerra Mundial — e depois chamando isso de "vitória".

Onde estava Netanyahu? Bombardeando a Síria sistematicamente. Anexando territórios na Cisjordânia. Expandindo assentamentos que a comunidade internacional considera ilegais. Construindo um apartheid que a Human Rights Watch, a Anistia e até o ex-procurador-geral de Israel já confirmaram existir.

Dois homens. Dois países. Milhares de mortos. Centenas de milhares de órfãos.

E eles ainda têm coragem de se chamar de "líderes".


III. A FOME NO PARAÍSO: DESIGUALDADE E PODREZA NO IMPÉRIO AMERICANO

Enquanto Trump pregava "Make America Great Again" de seu resort em Mar-a-Lago — um clube particular onde uma cadeira custa US$ 200 mil de entrada — os Estados Unidos viviam seus anos de maior vergonha social.

Pobreza infantil nos EUA: Mais de 11 milhões de crianças americanas vivem abaixo da linha da pobreza durante o governo Trump. A taxa de pobreza infantil entre negros e hispânicos era o dobro da de brancos. Uma vergonha para o país mais rico da história da humanidade.

Fome nos EUA: Em 2020, um em cada quatro lares americanos com crianças passava por insegurança alimentar. Filas de carros para receber doações de comida em cidades como Houston, Cleveland, Pittsburgh — cenas de país em guerra, mas sem guerra. Apenas a guerra de classe que Trump transformou em esporte nacional.

Desigualdade de renda: O 1% mais rico dos americanos capturou 82% de toda a riqueza gerada durante os primeiros anos do governo Trump. A fortuna pessoal de Trump — que ele jurava ter cortado para "servir o povo" — cresceu US$ 700 milhões durante seu mandato. Ele ganhou dinheiro sendo presidente. Alguém ainda duvida que ele usou o cargo como caixa eletrônico?

Saúde: Mais de 30 milhões de americanos não tinham plano de saúde antes da pandemia. Trump passou quatro anos tentando destruir o Obamacare sem oferecer alternativa. Seu maior legado na saúde foi dizer às pessoas que bebessem água sanitária para combater a covid.

Pandemia: 1,2 milhão de americanos mortos pela covid até 2024. O maior número do mundo. Um sistema de saúde colapsado. Uma resposta federal que foi um exemplo global de incompetência criminosa. Trump minimizou o vírus, atacou cientistas, promoveu cloroquina, e quando finalmente foi infectado, recebeu tratamento experimental que 99% dos americanos não teriam acesso.

E ele ainda diz que "fez um ótimo trabalho".

Onde está a grandeza? Nos moradores de rua da Skid Row? Nos apagões no Texas enquanto cidadãos congelavam? Nos professores comprando material escolar com o próprio salário? Nos estudantes condenados a uma vida de dívidas impagáveis?

Trump não tornou a América grande. Ele a tornou ridícula. Um país que se gaba de ser a "cidade na colina" enquanto suas crianças passam fome e seus velhos escolhem entre remédios e comida.


IV. O DELÍRIO CONTRA O IRÃ: A GUERRA QUE NUNCA ACABOU

O Irã é o vício de Trump e Netanyahu. O inimigo perfeito. A assombração que justifica qualquer atrocidade.

Trump retirou os EUA do acordo nuclear com o Irã em 2018 — um acordo que funcionava, verificado pela AIEA, aplaudido pelo mundo — simplesmente porque Obama o havia assinado. Era pessoal. Como tudo em Trump.

O resultado?

A economia iraniana colapsou. O rial perdeu 90% de seu valor. A inflação chegou a 40%. A classe média iraniana, uma das mais educadas do Oriente Médio, foi empurrada para a pobreza. Remédios importados desapareceram. Pacientes com doenças crônicas morreram à espera de tratamentos que não podiam mais ser comprados devido às sanções.

Quem sofreu? Crianças iranianas. Mulheres iranianas. Jovens iranianos que nunca fizeram mal a um americano ou israelense, mas pagaram o preço do delírio de dois homens de terno.

E em resposta? O Irã acelerou seu programa nuclear. Passou de enriquecer urânio a 3,67% (limite do acordo) para 60% — a um passo do nível para bomba. A "política de máxima pressão" de Trump não conteve o Irã; empurrou-o para a bomba. Genial.

Netanyahu, por sua vez, transformou o Irã em sua muleta política. Toda vez que era acusado de corrupção — e ele foi, três vezes, enquanto primeiro-ministro —, aparecia uma "ameaça nuclear iraniana". Toda vez que a opinião pública se voltava contra seus assentamentos ilegais, surgia um "ataque terrorista com apoio iraniano".

O Irã virou o Coringa de Netanyahu. O caos que ele invocava para justificar sua própria permanência no poder.

E os iranianos? Pagaram. Pagaram com sangue, com fome, com sonhos destruídos. Porque no grande tabuleiro geopolítico, eles não são pessoas. São peões. E Trump e Netanyahu nunca se importaram com peões — apenas com o xeque-mate imaginário que nunca chega.


V. A CAÇA AOS INVISÍVEIS: O NAZISMO RECICLADO NA FRONTEIRA

A política de imigração de Trump foi a mais cruel desde os campos de internamento de japoneses na Segunda Guerra Mundial.

Crianças separadas dos pais na fronteira. Mais de 5 mil crianças foram arrancadas de suas famílias entre 2017 e 2018. Bebês. Crianças pequenas. Adolescentes. Colocadas em gaiolas — sim, gaiolas, porque as imagens mostraram gaiolas de aço — em instalações superlotadas, sem assistência médica adequada, sem acesso a advogados.

Centenas de crianças nunca foram reencontradas com seus pais. Desapareceram. No sistema de imigração americano. No século XXI. Sob o olhar de uma administração que dizia representar "família e valores cristãos".

Campos de detenção onde denúncias de abuso sexual, negligência médica e violência psicológica eram rotina. Uma criança de 10 anos com síndrome de Down que ficou 140 dias detida — porque era "muito complexa" para ser colocada em família adotiva. Um menino de 8 anos que morreu de gripe porque não recebeu atendimento médico.

Trump chamava isso de "política de tolerância zero". A história chamará de crime contra a humanidade.

E Netanyahu, o "líder do povo judeu" — um povo que conhece a dor do exílio, do refúgio negado, das crianças separadas de pais em campos — aplaudiu Trump. Aprendeu com ele. Construiu seu próprio muro. Criou sua própria lei de nacionalidade que declara abertamente que Israel é "apenas para judeus". Deportou requerentes de asilo africanos para Ruanda — um país instável — em troca de dinheiro.

A ironia é tão brutal que dói: um judeu israelense tratando refugiados africanos como a Europa tratou judeus na década de 1930. Não há desculpa para isso. Não há contexto que justifique. É traição da memória. É cuspir nos seis milhões.

Netanyahu tornou Israel pequeno. Reduziu a lição do Holocausto a um manual de como oprimir outros. "Nunca Mais" virou "Nunca Mais conosco; com os outros, tudo pode".


VI. EPSTEIN, O ESPELHO QUEBRADO DA DECADÊNCIA

O caso Jeffrey Epstein é o símbolo perfeito de tudo que Trump e Netanyahu representam: poder absoluto, impunidade sexual, corrupção moral e a capacidade de transformar o horror em anedota de coquetel.

Epstein, um bilionário pedófilo que operava uma rede de tráfico sexual de menores por décadas, era amigo íntimo de Trump. Documentos judiciais mostram que Trump voou no jatinho de Epstein várias vezes. Trump participou de jantares na casa de Epstein. Trump disse, em entrevista de 2002: "Conheço Jeff Epstein há quinze anos. Cara fantástico. É muito divertido estar com ele. Dizem que ele gosta de mulheres bonitas assim como eu, e muitas delas são mais jovens."

Mais jovens. Menores de idade. Trump sabia. Todos sabiam. E ninguém fez nada.

Epstein "cometeu suicídio" em uma prisão federal de segurança máxima, com câmeras de segurança "acidentalmente" desligadas, enquanto os guardas "dormiam". Uma morte tão conveniente que qualquer estudante de direito penal ri ao ouvir.

E Trump? Perdoou aliados de Epstein? Nomeou um secretário do trabalho que defendia trabalho infantil? Manteve relações próximas com figuras ligadas a Epstein por anos?

Netanyahu, por sua vez, tem sua própria dança com a podridão. Indiciado três vezes por corrupção — caso 4000 (negociação de favores com a gigante de telecomunicações Bezeq), caso 1000 (presentes de bilionários, incluindo charutos e champanhe no valor de centenas de milhares de dólares), caso 2000 (negociação de acordos com donos de jornais para obter cobertura favorável).

Ele tentou destruir o sistema de justiça israelense em 2023 com uma "reforma judicial" que lhe permitiria anular condenações — sua própria condenação. O país parou. Protestos maciços semanais. Reservistas se recusando a servir. Empresas fechando. E Netanyahu, em vez de recuar, chamou os manifestantes de "anarquistas".

Ele colocou Israel em crise constitucional para salvar a própria pele.

Trump tentou um golpe de Estado em 6 de janeiro de 2021. Incitou uma multidão a invadir o Capitólio. Assistiu pela TV enquanto seus apoiadores agrediam policiais e tentavam enforcar o próprio vice-presidente. Horas depois, tuitou que eles o amavam.

Dois líderes. Duas democracias. Dois homens dispostos a queimar tudo para não perder o poder.

Isso não é liderança. É terrorismo doméstico com gravata.


VII. OS MONSTROS QUE CRIAMOS (E O QUE FAZEMOS COM ELES)

A tentação, diante de tudo isso, é ser monstro de volta.

É fácil odiar Trump e Netanyahu. Fácil e justo. Eles merecem o desprezo da história, o desgosto de seus povos, a vergonha de suas famílias.

Mas cuidado.

Não vamos ser monstros para combater monstros.

Porque a armadilha que Trump e Netanyahu montaram é exatamente essa: transformar a política em guerra civil. Polarizar tanto que qualquer oposição vira "inimigo". Normalizar a violência como linguagem. Fazer com que nos acostumemos com o horror.

Se respondermos com o ódio que eles pregam, eles vencem. Se imitarmos seus métodos, eles vencem. Se desistirmos da democracia, da lei, da compaixão, da justiça social — se jogarmos tudo isso no lixo porque "eles são piores" — então, no fim, não haverá diferença entre nós e eles.

Eles querem isso. Eles precisam disso. Porque sem o medo do monstro, sem o inimigo externo ou interno, eles são apenas dois velhos patéticos em ternos caros, falando sozinhos em palácios vazios.


VIII. A LATA DO LIXO DA HISTÓRIA: ONDE ELES PERTENCEM

Stalin. Hitler. Mussolini. Franco. Pinochet. Idi Amin. Pol Pot. Bolsonaro. Medici

A história tem um depósito de lixo específico para tiranos fracassados, líderes que confundiram poder com grandeza, homens que trocaram vidas humanas por estátuas.

Trump e Netanyahu serão jogados nesse mesmo aterro.

Não por nós. Pela própria História, que tem uma memória melhor do que a nossa. A História se lembra de quem matou crianças. A História se lembra de quem prendeu inocentes. A História se lembra de quem roubou o futuro de nações inteiras por vaidade pessoal.

Os livros didáticos de 2100 terão uma página sobre Trump e Netanyahu. Uma página. No capítulo "Demagogos do Início do Século XXI". E ao lado, fotos pequenas. Notas de rodapé. Nada mais.

Porque o que eles construíram não resiste. Não tem profundidade. Não tem legítima grandeza. Não tem amor.

Construíram sobre areia. Sobre medo. Sobre ossos de crianças.

E a areia sempre cede.


IX. A RESISTÊNCIA QUE JÁ COMEÇOU: BERNIE SANDERS, A OPOSIÇÃO ISRAELENSE, LULA, SENADORA LUIZIANNE CONTRA AS OLIGARQUIAS E A POLÍTICA DA ESPERANÇA

Aqui está a verdade que eles não querem que você saiba: já estamos vencendo.

Nos Estados Unidos, um velho judeu de 83 anos de Vermont, de sobretudo desgrenhado e discurso repetitivo, construiu o movimento político mais importante do século. Bernie Sanders não é um herói. É um homem. Mas ele representa algo que Trump jamais entenderá: a política como serviço, não como espetáculo.

Sanders passou décadas falando sobre desigualdade, saúde universal, fim das guerras, justiça econômica. Chamaram-no de louco. Irrealista. Radical. Agora, cada proposta sua é mainstream. Cada ideia que ele plantou floresceu. O movimento que ele inspirou — jovens, trabalhadores, imigrantes, negros, latinos, mulheres — é a maior ameaça ao trumpismo.

Por quê? Porque Bernie não oferece ódio. Oferece dignidade. Não promete tornar a América "grande novamente". Promete torná-la habitável para todos.

E em Israel, há uma oposição que a mídia americana insiste em ignorar. Centenas de milhares de israelenses nas ruas semanais contra Netanyahu. Reservistas se recusando a servir num governo corrupto. Juízes resistindo ao golpe judicial. Rabinos denunciando a ocupação. Famílias de refugiados dizendo: "Nós, judeus, sabemos o que é ser refugiado — não podemos fazer isso com outros."

Existe uma Israel que não aparece no noticiário. Uma Israel que ainda acredita no sonho sionista original: um lar seguro para todos os judeus, mas não às custas de outro povo. Uma Israel que chora pelas crianças de Gaza tanto quanto pelas crianças de Sderot.

Essa Israel está acordando. Lentamente. Dolorosamente. Mas está acordando.


X. O BEM VENCE. SEMPRE VENCEU. SEMPRE VENCERÁ.

Parece frase de filme infantil. Parece ingênuo. Parece fraco.

Mas é verdade.

Não porque o universo tenha moral. O universo não liga. Mas porque sociedades construídas sobre mentiras e ossos desmoronam, e sociedades construídas sobre justiça e verdade — por mais devagar que avancem — se sustentam.

Trump está processado em quatro jurisdições diferentes. Enfrenta 91 acusações criminais. Seu império imobiliário foi declarado fraudulento. Sua própria família testemunhou contra ele. Ele terminará seus dias — se a Justiça funcionar — onde sempre pertenceu: num tribunal ou na irrelevância.

Netanyahu enfrenta julgamento. Sua coalizão está desmoronando. O exército israelense está exausto. A economia está em frangalhos. Até seus aliados mais próximos nos EUA estão cansados dele. Ele será lembrado — se for lembrado — como o homem que quase destruiu Israel para não ir para a cadeia.

E nós? Nós seguimos.

Seguimos construindo alternativas. Seguimos votando. Seguimos protestando. Seguimos acolhendo refugiados quando o governo os rejeita. Seguimos ensinando nossos filhos que a violência não é resposta. Seguimos lembrando que o nazismo, o fascismo, o stalinismo, o trumpismo, o netanyahusmo, o bolsonarismo — tudo isso são doenças. E doenças têm cura. Demora. Dói. Mata gente no caminho. Mas cura.

A democracia não é frágil. Ela é resistente. Não porque seus edifícios sejam fortes — são frágeis — mas porque as pessoas que acreditam nela são teimosas.

E nós somos muito, muito teimosos.


EPÍLOGO: A PROFECIA DO VENTRE ABERTO

Quando o último bunker de Trump estiver vazio e o último processo de Netanyahu tiver sido julgado, quando as crianças de Gaza e da Ucrânia e do Iêmen e do Sudão estiverem enterradas em paz ou — quem sabe? — vivas, quando os muros caírem e as famílias separadas se reencontrarem, quando a história finalmente escrever seu veredito, haverá uma linha clara:

Dois homens tornaram duas nações pequenas. Mas milhões de pessoas as tornaram grandes novamente.

A grandeza não está nos líderes. Está nas mães que criam filhos mesmo na guerra. Está nos médicos que operam sob bombardeio. Está nos professores que ensinam em abrigos. Está nos juízes que resistem. Está nos jovens que vão às ruas. Está nos imigrantes que atravessam desertos. Está nos pobres que dividem o pouco que têm.

Essa é a verdadeira América. Essa é a verdadeira Israel. Essa é a verdadeira humanidade.

Trump e Netanyahu só viram o que há de pior em nós. Nós, o povo, vemos o que há de melhor.

E o melhor sempre vence. Não porque é mais forte. Porque é mais real.

A mentira cansa. A verdade, não.


"A justiça pode ser adiada, mas nunca extinta. E aqueles que pensam que podem assassiná-la com bombas, decretos ou conchavos corruptos estão apenas cavando suas próprias covas — covas que a História, implacável, já está fechando sobre eles."

— Adaptado de discursos reais de Bernie Sanders e líderes da oposição israelense


FIM

Este texto é um ato de revolta documentada. Cada dado citado — mortes em Gaza, pobreza infantil nos EUA, acusações criminais contra Trump e Netanyahu, corrupção documentada — pode ser verificado em fontes públicas: ONU, Anistia Internacional, Human Rights Watch, Tribunais de Justiça dos EUA e de Israel, relatórios do Banco Mundial e da OMS. A raiva é minha; os fatos são de todos.




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