— Uma arqueologia da alma contemporânea em Franco "Bifo" Berardi
PRÓLOGO: A VÍRUS QUE REESCREVEU A PSIQUE
O que acontece com a mente humana quando o mundo inteiro para? Quando o toque se torna ameaça, quando o outro vira perigo, quando o abraço vira crime?
Franco "Bifo" Berardi, o filósofo italiano que ajudou a fundar a rádio pirata Radio Alice em 1976 e que trabalhou ao lado de Félix Guattari nos anos 1980, não tem dúvidas: a pandemia não foi apenas um evento biológico. Foi uma mutação psíquica.
Seu livro The Third Unconscious: The Psychosphere in the Viral Age (Verso, 2021) é uma tentativa de mapear essa mutação. Um diagnóstico sombrio, por vezes desesperado, mas também um chamado à imaginação política e poética .
"The Unconscious knows no time, it has no before-and-after, it does not have a history of its own. Yet, it is not always the same."
Berardi parte dessa premissa: o inconsciente não é uma estrutura fixa, uma caverna escura onde os mesmos monstros habitam desde sempre. O inconsciente é histórico. Ele se transforma com as condições materiais, com as tecnologias, com as catástrofes .
E a pandemia, para Berardi, é uma dessas catástrofes que reconfiguram a própria arquitetura do psiquismo coletivo. Não estamos "voltando ao normal". O normal não existe mais. Estamos entrando em uma nova era do inconsciente: a era autista.
PARTE I: AS TRÊS IDADES DO INCONSCIENTE
1. O Primeiro Inconsciente: Freud e a Neurose do Progresso
O primeiro inconsciente é o de Sigmund Freud.
Freud desenvolveu sua teoria no final do século XIX e início do século XX, uma época marcada pela fé no progresso, pela ordem burguesa, pela rigidez moral vitoriana. O inconsciente freudiano é o porão da razão — o lugar escuro onde são depositadas as pulsões inaceitáveis, os desejos recalcados, os traumas que a consciência não consegue integrar .
Para Berardi, esse inconsciente é a sombra do mundo da neurose. O sujeito freudiano é um sujeito dividido, torturado por proibições internas, oscilando entre o desejo e a culpa. A psicanálise, nesse contexto, é uma técnica de escavação: desenterrar os recalcados, trazer à luz o que foi soterrado, reintegrar o estranho ao familiar.
"Freud characterised the Unconscious as the dark side of the well-ordered framework of Progress and Reason" .
O problema, para Berardi, é que esse modelo pressupõe um mundo de fronteiras estáveis — entre o normal e o patológico, entre o permitido e o proibido, entre o eu e o outro. Um mundo que, diz Berardi, já não existe mais.
2. O Segundo Inconsciente: Deleuze e Guattari e a Fábrica Esquizofrênica
O segundo inconsciente é o de Gilles Deleuze e Félix Guattari, formulado em O Anti-Édipo (1972) e Mil Platôs (1980).
Longe do teatro freudiano — com seus personagens fixos (pai, mãe, filho) e seu enredo edípico —, o inconsciente deleuzo-guattariano é uma fábrica. Não produz representações, mas conexões. É uma máquina desejante que não para de ligar coisas entre si, de criar fluxos, de escapar das estruturas .
"Deleuze and Guattari described it as a laboratory: the magmatic force that ceaselessly brings about new possibilities of imagination" .
Esse inconsciente é o correlato psíquico do capitalismo tardio — não o capitalismo disciplinar de Foucault, mas o capitalismo esquizofrênico que dissolve todas as determinações, que acelera até o colapso, que transforma tudo em fluxo (dinheiro, informação, desejo).
Berardi, que trabalhou com Guattari, herda essa visão — mas a radicaliza. Para ele, o inconsciente esquizofrênico não é apenas uma descrição do capitalismo contemporâneo; é também uma promessa não cumprida. O potencial de liberação do desejo, de reinvenção da subjetividade, foi capturado pela própria máquina capitalista.
"The feeling of the dissolution of the self contains the potential for rebuilding. A possibility for new mental configurations and ultimately for liberation, which has not materialized. For capitalism has only strengthened its grip" .
A fábrica esquizofrênica, que poderia ter produzido novos mundos, passou a produzir apenas exaustão.
3. O Terceiro Inconsciente: A Psicoesfera na Era Viral
E agora chegamos ao terceiro inconsciente. O inconsciente do nosso tempo.
Berardi o descreve como um inconsciente autista — não no sentido clínico, mas como metáfora de uma condição social e psíquica generalizada. O sujeito contemporâneo não é mais o neurótico (que recalca) nem o esquizofrênico (que conecta). O sujeito contemporâneo é o autista: aquele que não consegue mais se relacionar .
A pandemia, para Berardi, não causou essa condição — mas a tornou visível e irreversível. O lockdown, o distanciamento social, a mediação tecnológica de todas as relações — essas medidas de sobrevivência foram internalizadas na própria estrutura da psique.
"Lockdown, shielding and distancing as survival strategies have been internalized in our consciousness and have made us strangers to one another. Even though we have begun to cultivate closeness and attraction again, the gate to the realm of empathy and solidarity has already been slammed shut" .
O terceiro inconsciente é o inconsciente da psicoesfera — um termo que Berardi toma emprestado de Guattari, mas que transforma. A psicoesfera não é apenas a camada mental da subjetividade; é o ambiente no qual a psique respira, um ambiente hoje saturado de informação, estímulos, medos, promessas não cumpridas.
"We are no longer able to process society's ubiquitous noise and relentless acceleration" .
PARTE II: OS CONCEITOS CENTRAIS DO LIVRO
1. O Colapso Psico-Sistêmico
Um dos conceitos mais importantes do livro é o "psycho-systemic collapse" — o colapso psico-sistêmico .
Berardi argumenta que o sistema capitalista não é apenas econômico; é também psíquico. Ele produz não apenas mercadorias, mas subjetividades, afetos, modos de sentir e pensar. Quando o sistema entra em crise (e Berardi acredita que o capitalismo está em crise terminal), a psique entra em crise junto.
A pandemia foi o gatilho: o colapso bio-informacional (vírus + infodemia + isolamento) gerou um colapso psíquico generalizado. Não se trata de "saúde mental" no sentido individual; trata-se de uma patologia social estrutural.
"The seamless transition from Covid into the war in Ukraine reinstates the collapse of the bio-info-psycho circuit under the weight of the 'stack of crises'" .
2. A Autistização do Social
Berardi cunha o termo "autistic mindscape" — paisagem mental autista .
A ideia é que a conectividade digital não produziu mais relação; produziu isolamento conectado. Estamos todos ligados, mas não nos tocamos. Estamos todos informados, mas não nos compreendemos.
O autismo social, para Berardi, tem sintomas claros:
Dificuldade de reconhecer afetos alheios: a empatia se torna uma habilidade atrofiada.
Achatamento do campo relacional: o outro vira estímulo, obstáculo ou ferramenta.
Incapacidade de processar sobrecarga sensorial: o excesso de informação paralisa em vez de informar.
"Even though many of us agree to be on our way back to something that resembles a normal existence, Berardi insists that the pandemic constitutes a turning point. It has definitively reinforced the new imbalances in the collective psyche" .
3. A Exaustão como Forma de Vida
O livro dedica espaço significativo ao conceito de exaustão (exhaustion) .
Berardi já havia desenvolvido esse tema em obras anteriores, como The Soul at Work (2009), onde descrevia a transformação da força de trabalho em "alma" — uma subjetividade explorada em sua dimensão mais íntima . Em The Third Unconscious, a exaustão ganha um sentido existencial: não estamos apenas cansados; estamos esgotados na própria possibilidade de desejar.
O desejo, para Berardi, é a força que move a vida. Quando o desejo se esgota, o que resta é a sobrevivência — e a sobrevivência não é vida, é apenas adiamento da morte.
"Pleasure and Desire — Exhaustion" — são capítulos que formam um diagnóstico: o prazer se separou do desejo; a satisfação imediata mata a potência de projetar o futuro .
4. A Insurreição Americana como Psicoterapia Preventiva
Um dos capítulos mais polêmicos se chama "The American Insurrection as Preventive Psychotherapy" — "A Insurreição Americana como Psicoterapia Preventiva" .
Berardi se refere ao ataque ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021. Sua tese é provocativa: o levante dos apoiadores de Trump foi um sintoma de uma doença psíquica mais profunda — a incapacidade do imaginário político americano de processar a derrota, a perda de hegemonia, o colapso do sonho neoliberal.
Ao chamar o evento de "psicoterapia preventiva", Berardi não está elogiando os insurretos. Está diagnosticando: a violência política emergiu porque não havia outras vias de elaboração simbólica. A psique coletiva, sobrecarregada, explodiu.
A crítica que se pode fazer a essa leitura é que ela parece psicologizar um fenômeno político. Reduzir a insurreição a um sintoma psíquico é, talvez, negligenciar as causas materiais, econômicas e ideológicas que a produziram.
PARTE III: ESTRUTURA E CONTEÚDO DO LIVRO
O livro está dividido em três partes, com um total de quinze capítulos .
Parte I: On the Threshold (No Limiar)
Threshold/Poetry — A poesia como modo de acesso ao inconsciente
Beyond the Breakdown — Para além do colapso
Semiotics of the Virus — O vírus como signo
The Spectrum and the Horizon — O espectro e o horizonte
Psycho-systemic Collapse — O colapso psico-sistêmico
Freedom and Potency — Liberdade e potência
Esta primeira parte estabelece o diagnóstico: o mundo entrou em uma crise que não é apenas econômica ou sanitária, mas semiótica e psíquica. O vírus é um signo — um significante que paralisou as cadeias de significação habituais.
Parte II: The Imminent Psycho-Sphere (A Psicoesfera Iminente)
Unconscious/Verdrängung — Inconsciente e recalque
Autistic Mindscape — Paisagem mental autista
XXX — Um capítulo enigmático, talvez sobre pornografia ou sobre o que não pode ser nomeado
Sad Is Eros — A tristeza de Eros
A segunda parte é o núcleo teórico. Berardi descreve a configuração do terceiro inconsciente: uma psicoesfera saturada, um sujeito autistizado, um Eros entristecido. O título "Sad Is Eros" é uma inversão deliberada da máxima platônica — o amor não é mais a busca da beleza; é a constatação da perda.
Parte III: Becoming Nothing (Tornar-se Nada)
Mythology of the End — Mitologia do fim
Questioning Senility — Questionando a senilidade
Making Friends with Death — Fazendo amizade com a morte
Pleasure and Desire — Prazer e desejo
Exhaustion — Exaustão
The American Insurrection as Preventive Psychotherapy — A insurreição americana como psicoterapia preventiva
Nothingness — the Alzheimer's of God — O nada — o Alzheimer de Deus
A terceira parte é a mais sombria e também a mais poética. Berardi confronta o leitor com a possibilidade do fim — não apenas do capitalismo, mas da própria capacidade humana de produzir futuro. O título "Nothingness — the Alzheimer's of God" é devastador: se Deus existe, ele esqueceu de si mesmo; o transcendente se dissolveu na imanência vazia.
PARTE IV: CITAÇÕES FUNDAMENTAIS
Aqui estão algumas das passagens mais significativas do livro, extraídas das descrições da editora e das resenhas acadêmicas:
"The Unconscious knows no time, it has no before-and-after, it does not have a history of its own. Yet, it is not always the same. As it emerges in the life of people and societies, the Unconscious is shaped by ever-changing historical conditions: its form depends on the unique 'psychosphere' of each historical age" .
"Today, at a time of viral pandemics and in the midst of the catastrophic collapse of capitalism, the Unconscious has begun to emerge in yet another form" .
"Berardi vividly illustrates the form in which the Unconscious will make itself manifest for decades to come, and the challenges that it will pose to our possibilities of political action, poetic imagination, and therapy" .
"We must practice 'riding the dynamic of disaster,' which he calls an accurate description of 'our mental condition during the current earthquake, which is also a heart-quake and a mind-quake'" .
"The denial of human exceptionalism serves, first and foremost, to attenuate a particular destructive passion: hatred, directed at oneself and others" (citado por Sharp, mas ecoa em Berardi).
PARTE V: CRÍTICAS E DEBATES
1. O Estilo e a Estrutura
A crítica mais frequente a The Third Unconscious diz respeito à sua forma. O crítico Bjarne Toft Sørensen, escrevendo para o jornal dinamarquês Information, descreve o livro como "por vezes um conhecido ansiogênico" — repetitivo, pouco editado, com "conclusões enigmáticas" .
"The Third Unconscious is an occasionally trying acquaintance. Repetitive and unedited and with tiresome brash outbursts such as: 'I see no third way between communism and extinction' or enigmatic conclusions like 'the problem is not the market, the problem is the soul'" .
Essa crítica aponta para um problema real: Berardi escreve como fala — em fluxo, com repetições, com frases de efeito que às vezes substituem a argumentação. O livro tem 164 páginas, mas poderia ter sido mais conciso. A força do diagnóstico às vezes se perde na fragilidade da forma.
2. A Psicologização da Política
Outra linha de crítica, implícita na resenha de Sørensen, diz respeito à tendência de Berardi de psicologizar fenômenos políticos. Ao interpretar o ataque ao Capitólio como "psicoterapia preventiva", Berardi corre o risco de reduzir a política à patologia — e, ao fazê-lo, de desmobilizar a análise política propriamente dita.
O comentário de um leitor na mesma resenha capta bem essa tensão:
"In my view, lockdowns etc. have had the opposite effect; that we have become more attentive to each other, having come together in shared suffering. Whether it lasts is of course doubtful..." .
Esse leitor oferece uma interpretação alternativa: a pandemia pode ter aumentado a solidariedade, não a autistização. Quem está certo? Berardi ou o leitor? A resposta provavelmente depende de onde se olha — e de que classe, que país, que condição material.
3. O Pessimismo como Autocumprimento
A terceira crítica, talvez a mais grave, é que o pessimismo radical de Berardi pode se tornar profecia autocumprida. Se a porta da empatia já está "escancarada", como ele diz, então por que lutar? Por que tentar reconstruir laços se eles já estão irremediavelmente rompidos? .
Berardi responderia que seu pessimismo não é derrotismo — é realismo. Ele não está dizendo que devemos desistir; está dizendo que precisamos de novas categorias para entender o presente. E talvez de novas formas de ação, que não dependam da velha política de solidariedade face a face.
Mas a pergunta permanece: se o diagnóstico é tão sombrio, o que resta fazer? Berardi aponta para a "imaginação poética" e a "terapia" como respostas . Para alguns, isso é insuficiente. Para outros, é tudo o que resta.
PARTE VI: AUTORES CONTEMPORÂNEOS RELACIONADOS
1. Byung-Chul Han: A Sociedade do Cansaço
O filósofo coreano-alemão Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço (2010), diagnóstica uma condição similar à de Berardi, mas por outras vias.
Para Han, a sociedade contemporânea não é mais disciplinar (como em Foucault), mas de desempenho. O sujeito não é mais reprimido por forças externas; ele se autoexplora voluntariamente, na crença de que está sendo livre. O resultado é o burnout, a depressão, o esgotamento — exatamente o que Berardi chama de "exaustão".
A diferença entre Han e Berardi é que Han ainda mantém uma certa esperança na contemplação e no ócio como formas de resistência, enquanto Berardi é mais radicalmente pessimista quanto às possibilidades de escape.
2. Mark Fisher: Realismo Capitalista
Mark Fisher, em Realismo Capitalista (2009), cunhou uma frase que poderia servir de epígrafe para o livro de Berardi: "É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo" .
Fisher argumenta que o capitalismo criou um horizonte tão total que não conseguimos mais imaginar alternativas. Essa "paralisia da imaginação" é o correlato político do terceiro inconsciente de Berardi. A diferença é que Fisher ainda acreditava em fendas no realismo capitalista — nas "estranhezas" da cultura popular que escapavam ao controle do sistema. Berardi parece mais cético.
3. Hartmut Rosa: Aceleração e Ressonância
Hartmut Rosa, em Aceleração (2005) e Ressonância (2016), oferece uma teoria social do tempo que dialoga com Berardi. Para Rosa, a sociedade moderna é marcada por um imperativo de aceleração — produzir mais, consumir mais, viver mais, em menos tempo. O resultado é uma falta de ressonância: não conseguimos mais nos conectar com o mundo, com os outros, conosco mesmos.
O "autistic mindscape" de Berardi é uma descrição desse colapso da ressonância. A diferença é que Rosa ainda vê na ressonância — na experiência de ser afetado e responder — uma possibilidade de saída. Berardi parece acreditar que a ressonância se tornou impossível na psicoesfera viral.
4. Paulo Sérgio Tumolo e o Trabalho como Ontologia
No Brasil, autores como Paulo Sérgio Tumolo (UFSC) têm explorado a relação entre trabalho, subjetividade e adoecimento psíquico — um diálogo possível com Berardi, embora por outras tradições (marxismo crítico, saúde do trabalhador).
A contribuição de Tumolo está em materializar o diagnóstico de Berardi: a exaustão não é apenas um fenômeno cultural; é produzida por relações de trabalho concretas, por jornadas exaustivas, por plataformas digitais que transformam cada interação em dado extraível.
5. A Conversa com Berardi: "Mental Long Covid"
Uma entrevista com Berardi, publicada pela Publinova em 2022 sob o título "Mental long Covid and the techno-social unconsciousness", aprofunda os temas do livro. Berardi fala sobre seus próprios colagens produzidas durante a pandemia — uma forma de "arteterapia" para combater a depressão — e sobre a necessidade de desenvolver novos conceitos críticos .
"Berardi calls for the development of new critical concepts that can help us to understand today's spectrum of emotional attention. We must practice 'riding the dynamic of disaster'" .
A expressão "mental long Covid" é particularmente sugestiva: assim como o coronavírus deixa sequelas físicas de longo prazo, a pandemia deixou sequelas psíquicas — uma fadiga, uma dificuldade de concentração, uma incapacidade de projetar o futuro que não se resolve com o fim do isolamento.
EPÍLOGO: A PSICOESFERA COMO CAMPO DE BATALHA
O livro de Berardi é desconfortável. É repetitivo. É pessimista. É, às vezes, exasperante.
Mas talvez essa seja a sua força.
Porque o terceiro inconsciente não é uma teoria elegante. Não é um sistema filosófico bem-acabado. É um grito — um grito de quem viu o mundo se despedaçar e não consegue encontrar as palavras para descrever o que viu, mas tenta mesmo assim.
A contribuição de Berardi está em nos forçar a perguntar: e se a pandemia tiver mudado não apenas nossos hábitos, mas nossa própria estrutura psíquica? E se o cansaço que sentimos não for passageiro, mas constitutivo? E se a dificuldade de nos conectarmos não for preguiça, mas uma reconfiguração profunda da nossa capacidade relacional?
Essas perguntas não têm resposta fácil. Talvez não tenham resposta alguma. Mas fazê-las já é um ato de resistência — contra a indústria do "bem-estar" que quer nos vender soluções rápidas para problemas estruturais, contra o otimismo forçado que nega a gravidade da crise, contra a ideia de que podemos "voltar ao normal" porque o normal era aceitável.
O problema, para Berardi, é que a alma contemporânea foi colonizada — pela tecnologia, pela aceleração, pelo medo, pela solidão. E essa colonização não será revertida com um aplicativo de meditação ou um fim de semana de desintoxicação digital.
O que será necessário? Berardi não tem certeza. Ele aponta para a "imaginação poética" e para a "terapia" — mas sem ilusões. A poesia não vai derrubar o capitalismo. A terapia não vai curar a psicoesfera. Mas talvez, apenas talvez, possam nos ajudar a sobreviver — e a sobreviver não é pouco, quando o mundo está em chamas.
NOTAS FINAIS: OBRAS E AUTORES CITADOS
Livro principal:
Berardi, Franco "Bifo". The Third Unconscious: The Psychosphere in the Viral Age. London; Brooklyn, NY: Verso, 2021 .
Outras obras de Berardi:
The Soul at Work: From Alienation to Autonomy (Semiotext(e), 2009)
Futurability: The Age of Impotence and the Horizon of Possibility (Verso, 2017)
Autores contemporâneos relacionados:
Byung-Chul Han — Sociedade do Cansaço (2010), Psicopolítica (2014)
Mark Fisher — Realismo Capitalista (2009), Os Fantasmas da Minha Vida (2014)
Hartmut Rosa — Aceleração (2005), Ressonância (2016)
Paulo Sérgio Tumolo — diversos artigos sobre trabalho e subjetividade no contexto brasileiro
Resenhas críticas:
Sørensen, Bjarne Toft. "Italiensk filosof stiller dyster diagnose over vores kollektive psyke efter pandemien." Information, 12 de março de 2022 .
Entrevista:
"Mental long Covid and the techno-social unconsciousness: a conversation with Franco 'Bifo' Berardi". Publinova, 2022 .
FIM
"O terceiro inconsciente não é uma teoria. É um sintoma. Ele não nos explica o mundo — ele nos mostra o que o mundo fez conosco. E talvez, apenas talvez, ao vermos o estrago, possamos começar a imaginar um reparo."
Nenhum comentário:
Postar um comentário