No século XXI, a tríade clássica que organizava o pensamento ocidental — pessoas (sujeitos), palavras (linguagem) e coisas (objetos) — entrou em colapso e se recombina em novas constelações perturbadoras. Se Michel Foucault, em As palavras e as coisas, diagnosticou o nascimento do homem como uma invenção recente fadada ao desaparecimento, vivemos hoje o crepúsculo desse humanismo sob a pressão de um regime onde as palavras já não representam as coisas, mas as produzem, e onde as próprias pessoas tornam-se coisas — não por violência explícita, mas por uma lógica financeira e afetiva que as esvazia por dentro.
Comecemos pelas coisas. Graham Harman, no Immaterialism, nos lembra que a modernidade filosófica tentou reduzir os objetos a meros veículos de relações humanas ou linguísticas. No entanto, o século XXI é a era da objetividade exasperada: coisas técnicas, algoritmos, infraestruturas digitais e objetos financeiros (como derivativos) possuem uma autonomia que escapa tanto à ação humana quanto à representação linguística. Fabian Muniesa, em Paranoid Finance, mostra como os mercados financeiros não são espelhos de informações, mas máquinas paranoicas que geram realidades: o preço de uma ação não representa o valor de uma empresa; ele é a coisa que faz outros preços se moverem. As “coisas” do século XXI são híbridos instáveis: derivativos, perfis de redes sociais, dados pessoais — objetos que são, ao mesmo tempo, substâncias econômicas e ficções jurídicas.
Já as palavras, outrora mediadoras privilegiadas entre sujeitos e mundo, perderam sua função referencial sem ganhar uma pureza poética. Pelo contrário: como argumenta Alfie Bown em The PlayStation Dreamworld, a linguagem no capitalismo digital tornou-se um dispositivo de captura libidinal. Não falamos para descrever o real, mas para alimentar motores de recomendação, gerar engajamento, produzir afetos modulados. Grafton Tanner, em Foreverism, descreve a cultura contemporânea como obcecada pelo “presente eterno”: palavras que não narram transformações, mas repetem nostalgia infinita (remakes, reboots, arquivos sem fim). A palavra no século XXI é um loop: comentários, tweets, respostas — todas performáticas e não representacionais. Zupančič, em Disavowal, diria que operamos sob uma recusa estrutural: “Eu sei muito bem que estas palavras não significam nada, mas ainda assim as uso para gerar likes.”
E as pessoas? Aqui o diagnóstico se torna mais agudo. Roberto Esposito, em Persons and Things, traça a longa história da separação entre pessoa (dotada de dignidade) e coisa (mero objeto). No século XXI, essa fronteira não é abolida, mas tornada flutuante e administrável. Somos pessoas quando consumimos, coisas quando trabalhamos para plataformas; somos sujeitos de direito nos contratos de adesão, mas objetos de extração de dados nas cláusulas que ninguém lê. A pessoa tornou-se um feixe de funções computacionais: score de crédito, histórico de navegação, perfil comportamental. Oxana Timofeeva, em Solar Politics, sugere uma saída ao propor um pensamento não antropocêntrico: se a Terra é um corpo vivo (Gaia), então a pessoa não está acima das coisas, mas em composição com elas — em vez de propriedade, encontramos coexistência cósmica.
Srećko Horvat, em The Radicality of Love, acrescenta que o amor — essa potência de desidentificação — pode nos salvar do duplo aprisionamento: nem pessoa proprietária de si, nem coisa fungível do mercado. O amor radical não é um sentimento entre indivíduos, mas uma força que desfaz as posições fixas de “pessoa” (como identidade) e “coisa” (como mercadoria), abrindo um espaço de encontro imprevisto.
Em suma: o século XXI dissolve as fronteiras modernas entre pessoas, palavras e coisas sem nos devolver um mundo pré-moderno de unidade orgânica. Pelo contrário, instaura um realismo especulativo invertido: as coisas são mais instáveis que palavras (um NFT pode desaparecer), as palavras são mais materiais que pessoas (algoritmos de linguagem moldam comportamentos), e as pessoas são mais ficcionais que coisas (a identidade pessoal é um contrato renovável a cada clique). Resta-nos, como sugerem Tanner, Zupančič e Horvat, praticar uma recusa ativa do “foreverismo” digital, uma desobediência libidinal aos dispositivos que capturam nossa fala e nossos desejos, e uma redescoberta — talvez anacrônica, talvez urgente — de que, antes de serem palavras ou coisas, somos encontros contingentes em um planeta finito.
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