SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 4 de abril de 2026

Negação da Realidade, Rumores e a Filosofia na América: Uma Tríade Sintomática. Por Egidio Guerra




A América do século XXI — entendida aqui não apenas como território geopolítico, mas como potência simbólica global — tornou-se o laboratório privilegiado de um fenômeno que Alenka Zupančič, em Disavowal, identifica como a estrutura psíquica fundamental da nossa época: a recusa (disavowal). Diferente da repressão (que expulsa um conteúdo do consciente) ou da negação (que rejeita um fato), a recusa opera de modo mais perverso e sutil: "Eu sei muito bem, mas mesmo assim..." — eu sei que as eleições não foram fraudadas, mas mesmo assim acredito que foram; eu sei que as vacinas funcionam, mas mesmo assim recuso-me a tomá-las. A recusa não é ignorância, é uma cisão do saber que permite conviver confortavelmente com a contradição. E nenhum lugar encena esse paradoxo com tanta dramaticidade quanto os Estados Unidos contemporâneos, onde fatos objetivos e crenças subjetivas coexistem em universos paralelos comunicantes.

É nesse solo fértil da recusa que germinam os rumores — objeto da análise magistral de Mladen Dolar em Rumors. Para Dolar, o boato não é um desvio patológico da comunicação verdadeira, mas sua verdadeira matriz antropológica. O rumor é anônimo, incontrolável, performativo: ele não descreve o real, ele produz um real alternativo. Na América pós-verdade, os rumores adquirem uma eficácia política inédita: QAnon, Pizzagate, a "teoria da substituição populacional" — todas são máquinas rumorosas que prescindem de autoria, evidência ou refutabilidade. O rumor, diz Dolar, é a forma que a linguagem assume quando o poder simbólico das instituições (imprensa, ciência, judiciário) entra em colapso. Ninguém "inventa" um rumor; ele emerge como um sintoma coletivo, um sonho acordado partilhado. E a América, com sua desconfiança estrutural em relação à mediação estatal e sua celebração da "opinião pessoal" como equivalente ao conhecimento, é o ecossistema ideal para que os rumores floresçam como fungos após a chuva.

O que fazer, então, da filosofia nesse cenário? Avital Ronell, em America: The Troubled Continent of Thought, oferece uma resposta desconfortável. A filosofia — ao menos em sua tradição europeia, canônica, respeitável — sempre buscou ser o antídoto contra a ilusão, a ferramenta crítica de desmistificação do rumor e a restauração da realidade mediada pela razão. Mas Ronell nos adverte: essa imagem da filosofia é exatamente o que a América não conseguiu (e talvez nunca tenha tentado) incorporar. O pensamento americano é "turbulento" precisamente porque recusa a separação hierárquica entre verdade filosófica e rumor popular, entre saber acadêmico e crença de rua. A filosofia na América, argumenta Ronell, não é uma disciplina de cátedra que ilumina as massas a partir de cima; ela acontece na paranóia dos romances de Thomas Pynchon, na histeria dos talk shows, nas teorias da conspiração que funcionam como filosofias populares (ainda que delirantes). Em vez de diagnosticar a recusa e o rumor como patologias a serem curadas pela filosofia, Ronell nos força a perguntar: e se a própria filosofia sempre já operou com uma dose de recusa? E se o rumor for a forma plebeia daquilo que a filosofia chama de "opinião" ou "doxa"?

A articulação entre as três obras é brutalmente simples: a recusa (Zupančič) é a estrutura psíquica que torna o rumor (Dolar) irresistível; e a filosofia (Ronell) é o campo de batalha onde essa aliança é ou negada ou assumida. Na América contemporânea, a recusa não é um acidente cognitivo, mas um modo de vida: sabe-se que as mudanças climáticas são reais, mas continua-se dirigindo SUVs; sabe-se que os imigrantes não são responsáveis pelo desemprego, mas vota-se em muros. O rumor é o veículo que transporta essa recusa do plano individual ao coletivo: "Dizem que...", "Há quem diga que..." — o rumor não precisa de verdade, precisa apenas de circulação. E a filosofia, se quiser ser mais que um exercício irrelevante de torre de marfim, precisa reconhecer que não está fora desse circuito. Como Ronell sugere, talvez o gesto filosófico mais radical na América de hoje não seja denunciar a recusa e o rumor, mas habitar sua contradição produtivamente — pensar com e contra eles, como quem aprende a nadar na turbulência em vez de sonhar com águas calmas.

Conclusão provisória: a América não é o continente da irracionalidade em contraste com uma Europa racional; ela é o espelho côncavo onde toda a modernidade tardia pode se ver deformada. Negação, rumor e filosofia formam ali um triângulo cujo nome verdadeiro é política do sintoma — onde o que recusamos saber retorna como boato, e o boato, ao circular, torna-se o único real possível. A tarefa, talvez impossível, é aprender a ler os rumores como sintomas, a recusa como estrutura, e a filosofia como prática de perturbação — não para "restaurar a verdade", mas para tornar a vida no falso um pouco mais lúcida.

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