SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 4 de abril de 2026

Sobre a filosofia não escrita e o despertar humano. Por Egidio Guerra

 



A tradição filosófica ocidental sempre privilegiou o escrito. Desde os diálogos de Platão, passando pelos tratados de Aristóteles, até os sistemas fechados da modernidade, acredita-se que o pensamento genuíno exige o suporte do texto, a fixação conceitual, a arquitetura lógica que resiste ao tempo. No entanto, antes da letra, houve a voz. Antes do logos escrito, houve o epos cantado. A filosofia, como despertar da vida humana, não nasceu no silêncio dos escribas, mas no ruído vibrante da performance, na repetição criativa da tradição oral, na farmácia perigosa de um remédio que também é veneno.

A obra de Milman Parry, magistralmente resgatada por Robert Kanigel em Hearing Homer's Song, nos oferece a chave para compreender essa virada fundamental. Antes de Parry, como bem descreve Kanigel, acreditava-se que a Ilíada e a Odisseia eram "textos escritos" da mesma forma que concebemos a literatura moderna. Com sua teoria da "fórmula oral", Parry demonstrou que os poemas homéricos eram "nascidos na canção e na fala", fruto de uma longa tradição que não prezava pela invenção ou originalidade, mas pela improvisação controlada dentro de padrões estabelecidos .

Esta descoberta não é meramente técnica; é profundamente filosófica. Se Parry está correto, a base da "alma grega" não é um texto fundador, mas um processo vivo. Como aponta Maria Michela Sassi em Os inícios da filosofia na Grécia, o pensamento grego arcaico operava em um regime de oralidade. As noções de verdade (aletheia), glória (kleos) e honra (time) não eram abstrações solitárias, mas forças performáticas, renegociadas a cada execução pública do rapsodo. O despertar da vida humana ali não estava no isolamento contemplativo, mas no reconhecimento comunitário da palavra cantada. O poeta não era um autor no sentido moderno; ele era a memória viva da tribo, e sua "filosofia" era um conjunto de ferramentas para a ação heroica, não um sistema para a especulação ociosa.

No entanto, se a oralidade é o berço, a escrita é a cela. É neste ponto que a crítica de Jacques Derrida em A Farmácia de Platão se torna essencial. Derrida nos lembra que Platão condenava a escrita exatamente porque ela é um falso remédio (pharmakon): ela promete memória, mas entrega esquecimento; promete verdade, mas entrega apenas a casca vazia do sentido, um órfão sem seu pai (o autor) para defendê-lo. A "filosofia não escrita" a que Derrida se refere é exatamente esse saber oral, vivo, dialético que Platão, segundo a tradição indireta (as agrapha dogmata), reservava apenas para os iniciados.

Há uma ironia trágica nisso. Parry usou a tecnologia da escrita — seus diagramas, suas anotações e, mais tarde, os discos de alumínio gravados na Iugoslávia — para provar que a maior obra literária do Ocidente era, na verdade, um produto do ouvido, não do olho. Ele tentou aprisionar o som em evidências materiais. Da mesma forma, Platão precisou escrever diálogos inteiros para condenar a escrita e louvar o diálogo vivo. A filosofia que "desperta" a vida humana parece estar sempre escapando do próprio veículo que a transporta.

Friedrich Nietzsche, em suas Lições sobre os pré-platônicos, oferece o golpe de misericórdia na vaidade do sistema escrito. Para Nietzsche, o que chamamos de "filosofia grega" é um erro de catalogação. Heráclito não escreveu um tratado; ele lançou aforismos como flechas. Pitágoras não deixou uma linha escrita, pois acreditava que a palavra oral tinha um poder mágico que a letra morta não podia reproduzir. Nietzsche invejava essa saúde pré-platônica, onde o pensamento era ainda um gesto, um ritmo, uma dança de guerra — exatamente como as canções homéricas analisadas por Parry. A filosofia "não escrita" é, portanto, aquela que recusa o dogma. É aquela que vive na tensão entre o que se diz e o que se cala, entre o que se lembra e o que se improvisa.

A crítica final, porém, é que não podemos mais voltar. Assim como os cantores iugoslavos estudados por Parry viram sua tradição morrer com o advento do rádio e da modernidade, a "vida humana" não pode mais despertar na inocência da oralidade pura. Somos herdeiros da pharmakon platônica: intoxicados pela escrita, mas incapazes de viver sem ela.

A grande lição dessas quatro obras é que a filosofia só desperta a vida quando se lembra de sua origem oral, mas só se torna duradoura quando aceita sua prisão textual. A "filosofia não escrita" é o fantasma que assombra cada página de um livro. Ela é a canção de Homero que Parry tentou ouvir por trás das letras, o pensamento vivo que Sassi identifica na oralidade arcaica, o remédio perigoso que Derrida descreve, e o instinto vital que Nietzsche exaltou. Despertar para a filosofia é, portanto, desconfiar da palavra final, pois a verdadeira vida do espírito nunca está inteiramente escrita — ela se esconde na garganta do poeta, no eco da memória e na tensão eterna entre o que se fixa e o que se transforma.

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