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sábado, 4 de abril de 2026

Por Que Guerreamos? A resposta está em como nos tornamos humanos.




O Retorno da Guerra

Às vésperas da invasão russa na Ucrânia, o historiador Yuval Noah Harari ecoava uma tese popular: na era nuclear, o custo da guerra entre grandes potências seria impensável. Seu prognóstico, no entanto, colidiu com a realidade. Hoje, não só o conflito no leste europeu persiste com um saldo desolador, como o mundo enfrenta o maior número de guerras desde a Segunda Guerra Mundial, segundo o Instituto de Pesquisas de Paz de Oslo. De Mianmar ao Sudão, e a nova escalada do conflito no Oriente Médio com os ataques norte-americanos e israelenses ao Irã e vizinhos, a violência organizada parece ter retornado como uma ferramenta legítima de poder, enterrando o idealismo do Direito Internacional sob a máxima do “manda quem pode”. Diante deste cenário, uma pergunta se torna inevitável: por que guerreamos? Se o Homo Sapiens é capaz de uma cooperação e empatia sem paralelos, como visto, por exemplo, nas maciças doações às vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul, como podemos ser, ao mesmo tempo, a única espécie que assassina seus pares em escala industrial? A resposta, segundo novas teses da antropologia, reside em um paradoxo surpreendente: a mesma habilidade que nos tornou mais dóceis e cooperativos é a que nos tornou mestres da guerra.

O Paradoxo da Bondade

Nesta aparentemente conflituosa dualidade, o professor de antropologia biológica da Universidade de Harvard, Richard Wrangham, em sua obra “O Paradoxo da Bondade” (The Goodness Paradox), elucida este descolamento da nossa espécie, seja para o “bem” ou para o “mal”.

Ele distingue dois tipos de agressão: a reativa, aquele impulso de “cabeça quente” que temos em comum com outros primatas; e a proativa, sendo aquela violência fria, calculada e planejada. Wrangham argumenta que nossa espécie passou por um processo de autodomesticação. Ao longo de milênios, nossos ancestrais usaram a linguagem para formar coalizões e eliminar sistematicamente os indivíduos mais agressivos e antissociais do grupo (agressão proativa em coalizão). Essa “pena de morte” ancestral selecionou os mais dóceis e cooperativos, reduzindo drasticamente nossa agressão reativa. Como consequência, isso levou ao surgimento de características típicas de espécies domesticadas - como rostos, ossos, mandíbulas e dentes menores, além de menor disparidade física entre homens e mulheres - fenômeno conhecido como Síndrome da Domesticação.

É por isso que conseguimos viver em cidades densas sem que o metrô ou escolas se transformem em literais campos de batalha. Contudo, essa mesma habilidade para a agressão proativa em coalizão - o ato de se unir para eliminar um alvo - não desapareceu. Pelo contrário, ela foi aperfeiçoada e escalonada, tornando-se a base para o exército, a milícia e, em última instância, a guerra.

Líderes no Comando, Soldados no Front (Aplicação da teoria)

Como proposto inicialmente por Charles Darwin, em sua obra A Origem das Espécies (1859), a violência é um traço adaptativo do ser humano. Nossa capacidade de montar coalizões para ataques furtivos extremamente eficientes foi, sem dúvida, beneficiada pela evolução. Todavia, os seres humanos, assim como qualquer outro animal, tendem a dispersar e a evitar o conflito quando percebem um alto risco de morte ou lesão. Neste sentido, a predisposição de soldados para se engajarem em grandes guerras, seja em fronts de batalha ou em trincheiras, revela-se um comportamento totalmente contraintuitivo do ponto de vista da psicologia evolutiva. O esperado seria a fuga, uma resposta individual e instintiva ao medo avassalador.

É precisamente neste ponto que a teoria da agressão proativa em coalizão oferece o elo perdido, explicando como a obediência militar se sobrepõe ao instinto de sobrevivência. O historiador John Keegan acertadamente aponta que a principal missão de um comandante é manter suas tropas em luta, principalmente por meio de intimidação. Essa "intimidação", contudo, não é apenas a ameaça de um superior; ela é a própria manifestação da força da coalizão voltada para dentro. O soldado no front não teme apenas o inimigo à sua frente; ele teme, também, a punição, a exclusão ou a execução por parte do seu próprio grupo. A mesma dinâmica que, por milênios, eliminou transgressores para forjar a cooperação, agora é usada para garantir a obediência no campo de batalha. O soldado luta não porque sua natureza individual o impele, mas porque a pressão da sua coalizão o compele, tornando o risco de deserdar maior do que o de enfrentar o inimigo. Sim, a narrativa em torno do conceito de nação e do inimigo podem ser motivadores preliminares, mas, geralmente evaporam quando a ebulição do combate se aproxima.

Essa dinâmica é reforçada por mecanismos que anulam a autonomia psíquica do indivíduo. A agressividade da conhecida blitzkrieg alemã na Segunda Guerra, por exemplo, não se devia apenas à ousadia tática, mas ao fornecimento de milhões de comprimidos de Pervitin, uma metanfetamina que afastava o soldado do seu estado mental comum, suprimindo o medo.

Por outro lado, o comportamento dos comandantes está em perfeita sintonia com nossa evolução. Para líderes de vastas coalizões - sejam chefes de Estado ou generais -, o cálculo custo-benefício de ordenar um ataque é estruturalmente favorável. Ludibriados pela confiança e pelo distanciamento físico e psicológico do conflito, eles praticam a agressão proativa em sua forma mais pura: uma deliberação abstrata, de baixo risco pessoal e alta recompensa potencial. A violência se torna um ato burocrático, dissociado da responsabilização, ecoando o padrão evolutivo de coalizões poderosas que, de seus espaços seguros, decidem sobre a vida alheia. Não por acaso que o “poder corrompe, e poder absoluto corrompe absolutamente”. Dinâmica esta que revela o verdadeiro significado de soberania: sendo o uso legítimo da força impunemente. Grosso modo, nas palavras de Mao Tsé-Tung: “o poder político nasce da ponta de um fuzil”.

Um Destino a Ser Evitado

Em suma, a guerra não é um destino inevitável gravado em nosso DNA, mas uma potencialidade terrível que evoluiu de mãos dadas com nossa capacidade de cooperação. O mesmo impulso que permitiu a nossos ancestrais garantirem a ordem social é hoje explorado por líderes que, seguros em seus gabinetes, calculam o custo-benefício de enviar outros para morrer. Somos os herdeiros daquela agressão proativa em coalizão, agora praticada em escala global. Entender essa dinâmica evolutiva não é um exercício de pessimismo, mas um chamado à vigilância. Se a cultura pode moderar nossos impulsos, como de fato o faz, então é crucial que as instituições, a mídia e a sociedade civil atuem como um contrapeso constante, expondo a retórica bélica e desnudando a perigosa assimetria entre quem declara a guerra e quem sofre suas consequências. A paz, portanto, não é a ausência de nossos instintos, mas o esforço consciente e coletivo para canalizá-los para a cooperação, em vez da destruição.

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