O tema central da juventude ligada às novas direitas, e a aparente contradição de que estes jovens lutam contra os interesses da sua própria geração e suas vidas, é um fenômeno complexo que tem desafiado pesquisadores em todo o mundo. Longe de ser um movimento homogêneo ou irracional, a identificação dos jovens com pautas conservadoras e radicais revela profundas transformações sociais, políticas e subjetivas. Para compreender este paradoxo, é fundamental lançar mão de análises contemporâneas, como as de Beatriz Besen, e de um olhar histórico e crítico, a partir da Escola de Frankfurt, que nos alerta sobre os perigos do autoritarismo e a fragilidade da memória democrática.
O Paradoxo da Participação: A Busca por Pertença em um Mundo Hostil
A pesquisa da psicóloga Beatriz Besen, sintetizada em seu livro Novas Direitas – Juventude além dos extremos, oferece uma chave de leitura fundamental para desmontar os estereótipos que cercam esses jovens. A partir de entrevistas biográficas com ativistas no Brasil e na Alemanha, Besen revela que, para muitos, o ativismo político não é apenas uma escolha ideológica, mas uma busca por reconhecimento, pertencimento e transformação pessoal. Em um contexto de crise das narrativas progressistas e de um futuro cada vez mais incerto, as novas direitas oferecem um sistema de representação do mundo que, para eles, é coerente e cheio de sentido.
Essa identificação se dá, muitas vezes, em um movimento que a pesquisadora chama de “participação liminar”: uma combinação de práticas democráticas (como estudo e militância) com agendas que tensionam a democracia liberal, como ataques a minorias e ao próprio Estado. Este paradoxo ajuda a explicar a pergunta do título: ao lutar contra pautas como a diversidade, a equidade de gênero e os direitos humanos, esses jovens frequentemente atacam conquistas que beneficiariam a todos, incluindo a si mesmos, mas agem movidos por uma sensação de que a “ameaça do Outro” é real e iminente. Eles não se veem como vilões ou alienados, mas como uma contracultura que desafia o status quo, sentimento que foi, por muito tempo, associado à esquerda.
A Lógica da Destruição: Negacionismo e a Recusa do Coletivo
A obra Cloroquination, de Flávio Emeren e Chloé Pinheiro, que analisa a propagação de falsas curas para a COVID-19 no Brasil, ajuda a compreender um dos mecanismos práticos dessa “luta contra si mesmo”. O livro documenta como a desinformação e o negacionismo científico se tornaram armas políticas, adotadas especialmente por setores da direita, e disseminadas por redes sociais que têm grande penetração entre os jovens. Ao abraçar discursos que negam a ciência, atacam a saúde pública e relativizam tragédias humanitárias, esses jovens não apenas colocam em risco suas próprias vidas e as de seus pares, mas também minam a própria ideia de vida em sociedade. A lógica do “cada um por si” e da “auto responsabilidade”, que Besen identifica como uma característica do neoliberalismo internalizado por esses ativistas, transforma o outro em um concorrente ou inimigo, inviabilizando a solidariedade geracional.
A Sombra do Passado: A Memória do Nazismo e o Fascismo Cotidiano
Para completar o quadro, a análise da Escola de Frankfurt sobre a memória do nazismo é mais atual do que nunca. A famosa exigência de Theodor Adorno de que a educação tenha como primeira meta “que Auschwitz não se repita” ganha contornos dramáticos diante do crescimento da extrema direita entre os jovens. Na Alemanha, país com um dos mais robustos sistemas de educação sobre o Holocausto, o partido de extrema direita AfD obtém expressiva votação entre os mais jovens, que se sentem atraídos por um discurso de pertencimento nacional e por uma falsa promessa de ordem. O estudo de Adorno sobre a “personalidade autoritária” — que descreve sujeitos com tendência ao convencionalismo, à submissão à autoridade e à agressividade contra “outgroups” — fornece um arcabouço para entender como certos tipos psicológicos e sociais são mais suscetíveis a discursos de ódio e soluções mágicas e autoritárias para seus medos e frustrações.
A aparente incoerência de os jovens aderirem à discursos que os prejudicam, portanto, deixa de ser um mistério. É a manifestação de um mal-estar profundo, catalisado por redes sociais que amplificam o medo do outro e minam a confiança na democracia. Ao se identificarem com as novas direitas, esses jovens encontram um senso de propósito e identidade que o mundo contemporâneo parece lhes negar. No entanto, fazem isso abraçando ideologias que defendem o individualismo contra o coletivo, a desinformação contra o conhecimento e a autoridade contra a liberdade. Como nos alertaram Adorno e Horkheimer, o perigo do fascismo não reside apenas em grandes líderes, mas na sua capacidade de se insinuar nos anseios cotidianos de pessoas comuns, que podem ver no autoritarismo uma resposta para suas aflições — mesmo que essa resposta as conduza, a si e à sua geração, a um beco sem saída. E pensando em si mesmas, nos seus grupos, independente da ciência, dos números sobre pobreza, mortes e exclusão educacional, em acordos com a máquina que destrói a democracia com a compra de votos, destroem a importância vital de aprender com a luta, de escrever a História, de plantar as sementes da ética e dos sonhos, de profundar a democracia. Fortalecendo a autoritarismo de "esquerda" e a falta de memória. Alguns líderes fakes de esquerda são piores que os jovens de direita, porque mentem, roubam e matam dizendo ser em nome do povo.
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