SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Outro mundo é possível, e ele começa onde o Estado termina. Por Egidio Guerra

 



Acracia é o Nome, a Pólis é Nossa

I. A farsa da "Demo-cracia"

O "demo" mora na lata de lixo do Senado,
seu sufrágio é uma nota de rodapé rasgada.
O povo não vota: é votado, contado, amordaçado
nas comissões de ética que absolvem o fardado.
A urna é um confessionário sem absolvição,
o mandato, um contrato de alienação.
Chamam de "negociada" a podridão do mercado
onde se compra o voto e se vende o estado.
"Democracia" é o nome da jaula
onde os lobos ensinam os cordeiros a votar.

A soberania? Uma anedota contada a portas fechadas.
O poder constituinte? Um fantasma que assombra
os corredores de mármore, mas nunca toma a palavra.
A República é um conselho de acionistas
vestidos de toga e gravata-borboleta.

II. O espetáculo dos partidos e a farsa da representação

Os partidos são vitrines do mesmo espólio:
federação de feudos, legenda de aluguel.
Dançam conforme a emenda, trocam de pele e de discurso
na coreografia da governabilidade.
Oposição e situação são dois polegares
da mesma mão que cerceia o pescoço da rua.
Seus estatutos são folhas de figueira
cobrindo a nudez da barganha.

O mandato não representa, representa-se;
o eleito não fala, é falado pelo lobby;
a assembleia não legisla, limita.
E o povo? O povo é o silêncio que aplaude a própria cova.

III. A "constituição" como campo de batalha (200 anos de disputas)

Duzentos anos de debates para emoldurar
a mesma jaula com diferentes arabescos.
Os juristas brincam de xadrez nos tribunais
enquanto a vida real sangra nos becos.
A cláusula pétrea é o túmulo da mudança;
o controle de constitucionalidade, a sentença
que enterra o futuro no passado.
Federalismo? A arte de gerir o atraso em parcelas.

A constituição não protege o fraco:
ela organiza a fraqueza do forte.
Cada artigo é uma trincheira,
cada emenda, um golpe de classe.
Eles celebram duzentos anos de "teoria autenticamente brasileira"
enquanto o índio é expulso de sua terra,
o preto assassinado no subúrbio,
e o nordestino vira estatística de venda.
A história constitucional não é uma espiral de direitos,
mas um labirinto de exceções.

IV. O Estado como zumbi intelectual e a oligarquia como verdade

O Estado não nasceu da vontade geral:
é um amálgama de colchas de retalhos
costuradas a chicote e bula papal,
pensado nas salas de Lisboa e Paris
para governar a periferia como extensão do jardim.
Sua alma é ibérica, seus membros, ingleses,
sua máscara, francesa – um Frankenstein de dívidas.
Chamam-lhe "construção intelectual", mas é ruína moral.
Da monarquia à oligarquia, o nome muda,
a mão que sufoca é a mesma.

O "pensamento político brasileiro" é uma pilha de eufemismos
para justificar o mandonismo, o compadrio, o "jeitinho".
A elite, que aprendeu com Pombal e Bonifácio
o "estilo periférico" de governar pela astúcia,
nunca desejou ordem, apenas o seu quinhão na desordem.
O Estado é o maior dos monopólios:
o monopólio da coerção legalizada,
das mentiras oficializadas,
das fronteiras armadas.

V. A utopia acrática: a pólis que virá

Não queremos ser representados, queremos decidir.
Não queremos leis, queremos acordos vivos.
Não queremos governantes, queremos nos governar.
Nem partidos, nem senhas, nem juramentos.
Nem cédulas, nem currais, nem cofres.

Que venha a Acracia!
A organização horizontal da vida,
o pacto cotidiano que dispensa escribas.
O território será o afeto, e a fronteira, o braço estendido.
Não haverá ministros, mas mutirões.
Não haverá tributos, mas doações voluntárias.
Não haverá constituição, mas a palavra cumprida
entre iguais, no suor do trabalho e na festa do lazer.

Pois a política não se delega:
se respira, se faz na padaria, no sindicato, na calçada.
A democracia, sem a "cracia" que a poda,
é o povo em pé, nu, sem intérprete.
O estado, quando resta, é o estado de graça.
A constituição é o que escrevemos a giz
no asfalto ainda quente da revolução.
Partido algum: a vida é o único programa.

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