Essa é uma pergunta que tenho me feito cada vez mais.
As empresas frequentemente afirmam que precisam inovar, investir em IA, desenvolver vantagens competitivas sustentáveis e tomar decisões baseadas em evidências. Ao mesmo tempo, o Brasil forma um contingente extremamente pequeno de profissionais treinados justamente para produzir conhecimento novo, testar hipóteses complexas e resolver problemas inéditos.
Segundo dados recentes, apenas 18,4% da população brasileira possui ensino superior completo. Quando avançamos para a pós-graduação stricto sensu, o funil se torna dramático: cerca de 0,7% possuem mestrado e apenas 0,3% possuem doutorado.
Em outras palavras, estamos falando de uma parcela extremamente rara da população.
E aqui surge uma contradição interessante.
As empresas reclamam que muitas pesquisas acadêmicas têm pouca aplicabilidade prática. Concordo que isso acontece em alguns casos.
Mas o que acontece quando um pesquisador escolhe uma linha mais técnica, aplicada, voltada para resolver problemas reais de negócio, otimização, IA, precificação, risco, marketing analítico ou produtividade?
Frequentemente ele continua sendo visto como alguém "acadêmico demais".
Ou seja, quando a pesquisa é teórica, dizem que falta aplicação.
Quando ela é aplicada, dizem que falta visão de negócio.
Então a pergunta talvez não seja apenas sobre os pesquisadores.
Será que os departamentos de RH e os entrevistadores estão preparados para entrevistar profissionais cujo conhecimento técnico, analítico e metodológico está muito acima da média?
Será que sabemos diferenciar um especialista que pensa e cria de um especialista que executa o que já sabe?
Será que as empresas estão realmente buscando pessoas capazes de questionar paradigmas e construir novos caminhos, ou continuam priorizando apenas perfis operacionais e executores?
Quero acreditar que não.
Mas confesso que me causa estranheza observar que muitas multinacionais disputam doutores em seus países de origem, especialmente em áreas como tecnologia, IA, analytics, economia, operações e inovação, enquanto no Brasil frequentemente tratam essa mesma formação como algo irrelevante ou até como um problema.
O resultado é um desincentivo silencioso.
Muitos profissionais param no mestrado ou nem chegam lá.
Outros abandonam a pesquisa.
E muitos doutores acabam diante de um dilema:
- Continuar na academia, muitas vezes enfrentando escassez de recursos e reconhecimento.
- Apostar em startups e empreendedorismo.
- Tentar convencer o mercado de que sua formação não o afastou dos negócios, mas o aproximou da capacidade de resolver problemas complexos.
Talvez a discussão seja maior do que doutorado.
Talvez estejamos discutindo como o Brasil enxerga conhecimento, mérito, inovação e pensamento crítico.
Porque, no final, voltamos a pergunta incial:
Doutorado ainda vale a pena no Brasil?
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