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segunda-feira, 18 de maio de 2026

Filme de Bolsonaro precisaria superar bilheteria de todos os longas brasileiros de 2025 para pagar investimento atribuído a Vorcaro

 

A imagem mostra um homem de terno escuro usando a faixa presidencial e segurando uma bandeira do Brasil junto ao peito, com a cabeça baixa. Ao fundo, aparecem o Congresso Nacional, em Brasília, além de faixas com as frases “Você não está sozinho, capitão!” e “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Crédito,Reprodução

Legenda da foto,O ator Jim Caviezel em imagem do filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro
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O filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, precisaria arrecadar ao menos R$ 300 milhões nos cinemas para que Daniel Vorcaro, do Banco Master, recuperasse os R$ 134 milhões que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) lhe pediu para custear a produção.

Isso equivaleria a 40% a mais do que todos os longa-metragens brasileiros lançados no ano passado conseguiram arrecadar (aproximadamente R$ 215 milhões) ou o dobro do filme nacional mais bem-sucedido da história, Minha Mãe É uma Peça 3, do comediante Paulo Gustavo, que arrecadou R$ 143,8 milhões.

Flávio Bolsonaro admitiu ter pedido milhões a Vorcaro para a produção de Dark Horse (Azarão, em tradução livre), mas a produtora do filme, a Go Up Entertainment, e o roteirista da obra, o deputado Mario Frias (PL-SP), negam que tenham tido acesso a qualquer verba do banqueiro.

Os pronunciamentos da família Bolsonaro e da equipe do filme têm entrado em conflito. O deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), por exemplo, primeiro disse que não exerceu qualquer posição nos bastidores além de ceder os direitos de uso da própria imagem, mas um dia depois admitiu ter assinado um contrato para gerir financeiramente a produção. Vorcaro, que está preso, não comentou o caso.

Flávio afirmou, em entrevista à emissora GloboNews, que Vorcaro era um investidor do filme e buscava retorno financeiro. Para que isso acontecesse, no entanto, o longa-metragem precisaria ter uma trajetória nas bilheterias completamente fora da curva.

Um homem de expressão séria aparece em primeiro plano usando terno escuro e faixa presidencial verde e amarela, diante de um céu carregado de nuvens escuras.

Crédito,Divulgação

Legenda da foto,Detalhe do cartaz de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro com o ator Jim Caviezel

Isso considerando que só Vorcaro teria investido no filme, o que pode ser improvável, visto que a produtora Go Up afirmou, em nota à imprensa, que houve outros investidores no longa-metragem, apesar de não ter revelado o nome de nenhum deles, acrescentando que, caso o fizesse, quebraria os contratos de confidencialidade envolvendo a produção.

Segundo o site The Intercept Brasil, parte da verba do banqueiro teria sido transferida para um fundo de investimentos no Texas gerido pelo advogado de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que teve seu mandato de deputado federal cassado e hoje vive nos Estados Unidos.

A BBC News Brasil questionou a produtora sobre o financiamento e os bastidores da produção de Dark Horse, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. Não se sabe, até agora, qual foi o orçamento total do longa-metragem nem quem o patrocionou.

Como a bilheteria de um filme é repartida

É uma máxima mundial, na indústria cinematográfica, que metade da arrecadação de um filme fique com os cinemas, enquanto a outra metade vá para a equipe por trás da produção.

Mas, desses 50%, em geral de 20% a 30% vão para a distribuidora, de forma que, no fim das contas, os produtores podem ficar com uma porcentagem até menor do que 25% da arrecadação nos cinemas.

Enquanto os produtores são responsáveis por entregar o filme pronto, a distribuidora tem o papel não só de levar as cópias da obra aos cinemas, mas também de cuidar da divulgação.

Esse trabalho envolve desde cartazes para fixar nas salas e campanhas de marketing nas redes sociais até eventos de lançamento, sessões de imprensa para que críticos e jornalistas assistam ao longa antes da estreia e viagens para que os atores encontrem o público e promovam a produção.

A porcentagem da bilheteria cobrada pela distribuidora varia de acordo com o quanto ela vai investir em marketing. Não é raro que essa verba se iguale ou até supere o valor gasto na produção dos longa-metragens. Ela é essencial, afinal, para que a obra seja vista e o investimento se pague.

Montagem com cenas dos bastidores do filme Dark Horse.

Crédito,Reprodução

Legenda da foto,Montagem com cenas dos bastidores do filme Dark Horse

Esses são padrões da indústria do cinema, mas as porcentagens foram confirmadas à BBC News Brasil por produtores, diretores e empresários ligados a distribuidoras e redes exibidoras brasileiras, muitos dos quais agora estão no Festival de Cannes, na França, justamente para angariar fundos e vender projetos ao mercado ou comprar os direitos de exibição de produções estrangeiras no Brasil.

São profissionais com currículos extensos de sucessos não só nacionais, mas também internacionais, que já trabalharam com talentos do primeiro escalão de Hollywood e que conquistaram indicações e premiações no Oscar. Eles pediram anonimato para fugir de conflitos com parte do empresariado do setor que tem alguma simpatia com Bolsonaro e evitar processos judiciais.

Em um cálculo que esses profissionais consideram generoso, no qual Dark Horse se venderia mais no boca a boca do que em marketing pago, de forma que a distribuidora fique com apenas 15% da bilheteria — um custo apenas operacional —, o filme precisaria arrecadar mais de R$ 300 milhões apenas para que Vorcaro recupere seu investimento, caso tenha desembolsado os R$ 134 milhões pedidos por Flávio.

Mas essa conta ainda não leva em consideração o custo de produção da película, que envolve o pagamento dos atores, roteiristas, diretor, editores e das centenas de figurantes envolvidos nos bastidores.

Caso isso seja adicionado à conta, dizem os especialistas, o filme de Bolsonaro precisaria arrecadar até mais do que a produção que mais vendeu ingressos na história do Brasil, Divertida Mente 2, que conquistou mais de R$ 400 milhões ao transformar as emoções humanas em personagens de uma animação.

Imagem das emoções de Riley de dentro para fora

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Executiva da Disney apresenta Divertida Mente 2 em evento corporativo

Por que o Dark Horse é considerado um negócio fracassado

Para os profissionais do setor consultados pela BBC News Brasil, Dark Horse, caso tenha custado mais de R$ 100 milhões, é um negócio falho do ponto de vista comercial.

Este, aliás, não é um cenário incomum no cinema. Muitas vezes, empresários e magnatas investem em um longa-metragem não porque visam lucro.

Seus objetivos podem ser inúmeros, indo desde a vaidade — o universo do cinema e os tapetes vermelhos regados a champanhe, afinal, são glamourosos — até o apoio a causas específicas — neste caso, a Jair Bolsonaro e, em última análise, à candidatura de seu filho, Flávio, à Presidência da República.

Embora o filme tenha sido gravado em inglês e seja protagonizado por um americano — Jim Caviezel, que interpretou Jesus em A Paixão de Cristo —, um lançamento no exterior, que poderia render uma bilheteria significativa devido à conversão de moedas mais fortes para o real, é descartado pela indústria.

Ainda que reconheçam que Dark Horse possa ter alguma exibição internacional, principalmente nos Estados Unidos, os profissionais ouvidos pela BBC afirmam que a projeção não deve ser ampla o suficiente para ter impacto significativo nas contas finais e que, a julgar por um suposto roteiro da produção vazado na última semana, a obra não se encaixa no perfil buscado por festivais e mostras internacionais.

Flávio Bolsonaro com uma camiseta com a inscrição "O PIX é do Bolsonaro; o Master é do Lula".

Crédito,AFP via Getty Images

Legenda da foto,Durante um evento da pré-campanha em Santa Catarina, Flávio Bolsonaro usou uma camiseta com a inscrição "O Pix é do Bolsonaro; o Master é do Lula".

Por isso, o cálculo de bilheteria leva em consideração apenas o Brasil, onde o preço médio por ingresso pago por filmes nacionais é de R$ 19,88, segundo o Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual, um painel interativo atualizado semanalmente e gerido pela Ancine, a Agência Nacional do Cinema.

Pensando nisso, para gerar R$ 300 milhões, Dark Horse precisaria levar 15,1 milhões de pessoas aos cinemas. É possível: para efeito de comparação, Divertida Mente 2 levou 22 milhões de pessoas às salas de exibição.

Mas é um número improvável de ser atingido, segundo os produtores ouvidos pela BBC. Somente cinco filmes conseguiram esse feito na história do cinema no Brasil: Vingadores: UltimatoTitanicHomem-Aranha: Sem Volta para Casa e o remake de O Rei Leão.

Isso porque, para alcançar esses números, um filme precisa ter uma campanha de divulgação agressiva, não apenas com comerciais na televisão, no rádio e anúncios nas redes sociais, mas também parcerias com marcas para que produtos vendidos em massa se transformem em meios de propaganda.

No caso de Divertida Mente 2, a Disney, o estúdio de cinema mais poderoso do mundo, conseguiu estampar o filme em perfumes d'O Boticário, esmaltes da Colorama, chinelos da Havaianas e até em máquinas de lava e seca da Samsung, além de peças da C&A, da Riachuelo e da Pernambucanas, algumas das maiores lojas de roupa do país.

Em outras palavras, era como se, meses antes da estreia, durante todo o período em cartaz e até algumas semanas após sair dos cinemas, fosse impossível para boa parte dos brasileiros entrar em uma loja popular sem se deparar com alguma propaganda de Divertida Mente 2.

A campanha também precisa levar em conta quais são os concorrentes em cartaz: lançar uma produção dessas ao mesmo tempo que um sucesso de grandes estúdios de Hollywood significaria concorrer com empresas que já são parceiras de longa data dos cinemas e têm contratos para que seus títulos ocupem a maior parte das salas.

Também há outros fatores que os estúdios levam em conta ao definir suas estreias. Não costuma ser uma boa alternativa, por exemplo, lançar um grande investimento durante eventos como a Copa do Mundo, já que boa parte do público estará em casa ou nos bares assistindo às partidas de futebol.

É por isso que, em geral, produções do porte do investimento que Vorcaro teria feito no filme de Bolsonaro têm suas datas de estreia definidas com anos de antecedência.

Mas Dark Horse, até agora, nem sequer tem previsão de lançamento ou registro na Ancine, responsável por autorizar a exibição, nem no Ministério da Justiça, encarregado de avaliar e atribuir a classificação indicativa da obra.

Mesmo interessado, público pode não ter onde assistir ao filme

Diferentemente do que acontece na televisão ou no streaming, para ser exibido no cinema, um filme precisa disputar espaço. Hoje, o Brasil tem cerca de 890 cinemas, com 3.553 salas de exibição.

A maioria delas, no entanto, está concentrada no Sul e no Sudeste, de modo que, mesmo que haja interesse do público pelo filme de Bolsonaro em várias regiões do país, sobretudo entre seus eleitores, uma parcela considerável da população talvez nem consiga assistir à produção, haja vista que somente 419 das 5.570 cidades brasileiras têm uma sala de cinema.

Para se ter ideia, não há sequer uma sala de cinema em nenhuma das dez cidades onde Bolsonaro obteve proporcionalmente seu melhor desempenho no segundo turno da eleição de 2022, em uma análise feita a partir do cruzamento de dados da Justiça Eleitoral e da Ancine.

Na avaliação dos Estados em que o ex-presidente teve maior porcentagem de votos, a situação é ainda mais desfavorável. Em Roraima, unidade da federação que mais votou nele, há apenas três cinemas em funcionamento; em Rondônia, o segundo Estado mais bolsonarista, há nove complexos; e no Acre, o terceiro ente federativo em que ele teve melhor desempenho, há apenas duas salas.

Essa comparação é importante, na visão dos diretores e produtores ouvidos pela BBC, para mostrar que não basta Bolsonaro ser uma figura capaz de atrair multidões para que o filme tenha sucesso, já que, na indústria cinematográfica, isso depende de fatores externos que vão além da popularidade do tema e do interesse do público em assisti-lo.

Uma bancada de cinema exibe baldes de pipoca e produtos promocionais diante de um pôster iluminado do filme A Paixão de Cristo. A imagem tem tons quentes e escuros, criando uma atmosfera dramática que remete ao clima intenso e religioso do longa-metragem.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Jim Caviezel, que agora interpreta Jair Bolsonaro em Dark Horse, fez Cristo em A Paixão de Cristo, filme dirigido por Mel Gibson lançado em 2004

Streaming pode ser alternativa, mas ainda é difícil de fechar a conta

A alternativa seria um lançamento em plataformas de streaming ou na internet. Mas, segundo os filhos de Bolsonaro e o roteirista Mario Frias, em entrevistas e notas à imprensa, Dark Horse é uma produção de grande porte, feita aos moldes de Hollywood e pensada para ser vista na tela grande.

Mesmo assim, é difícil que o investimento se pague, na visão dos produtores ouvidos pela BBC. Caso opte por um lançamento em uma plataforma gratuita, como o YouTube, a receita gerada por anúncios exibidos antes e durante o filme é muito menor do que o valor cobrado por um ingresso — cada visualização rende centavos.

Já em plataformas pagas, as empresas pagam um valor fixo pelos direitos de exibição, e não uma quantia por visualização, já que seu negócio, diferentemente do cinema, é baseado em assinaturas que dão acesso ao catálogo completo, e não a uma obra específica. Ainda assim, os valores pagos por esses direitos costumam ficar bem abaixo do que é praticado no circuito cinematográfico.

Para fechar a conta, seria preciso contar com o streaming mais como uma segunda janela de exibição do que como plataforma de estreia, assim como com o eventual lançamento em DVDs — que se tornaram mais objetos de colecionador e de fãs do que um formato prático — e com licenciamentos para exibições em telas menores, de canais de TV a sistemas de entretenimento de bordo de aviões.

Nas palavras dos produtores consultados pela reportagem, o conflito se resume ao fato de que fazer um filme ser visto por tantos milhões de pessoas não é tão simples quanto fazer um vídeo curto viralizar nas redes sociais — nem mesmo para quem consegue levar milhões de eleitores às urnas.

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