SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.
sábado, 16 de maio de 2026
O Lulismo Maduro
Guilherme Klein Martins e eu acabamos de publicar um novo ensaio na Folha de S.Paulo analisando um paradoxo no Brasil hoje: os indicadores macroeconômicos estão melhorando, mas muitas pessoas ainda se sentem pior.
Durante o terceiro mandato do presidente Lula, o Brasil tem registrado um crescimento sólido, desemprego recorde e uma redução significativa da pobreza. No entanto, pesquisas mostram que uma grande parcela da população acredita que a economia se deteriorou.
Por que essa desconexão?
Argumentamos que isso não é apenas um quebra-cabeça brasileiro, mas também tem raízes estruturais específicas em nosso caso:
• Lula vs Lula: Nos anos 2000, trabalhadores de baixa renda registraram rápido crescimento real da renda e mobilidade ascendente. Hoje, as rendas estão se recuperando, mas em um ritmo muito mais lento. Trabalhadores que se lembram dos primeiros governos Lula ficam desapontados.
• Uma década de perda de renda: Após anos de estagnação (2015–2022), as famílias ainda estão se recuperando. As rendas reais da metade inferior da população ainda estão em 80% da média de 2014. Para muitos, as melhorias atuais parecem um alívio insuficiente, e não um progresso.
• O "efeito do nível de preços": Mesmo com a queda da inflação, os preços não retornaram aos níveis pré-pandemia. As pessoas vivenciam o custo de vida, não a taxa de inflação.
• A ascensão da "economia aspirativa": as redes sociais globalizaram os parâmetros de consumo. As expectativas aumentaram mais rápido que as rendas, ampliando a diferença entre o que as pessoas ganham e o que sentem que deveriam poder pagar.
• Dívida como sintoma, não causa: O elevado endividamento familiar (e até mesmo a disseminação das apostas online) reflete essa diferença entre renda e aspiração, especialmente em um ambiente de juros tão alto. Surge um dilema de política: as mesmas altas taxas de juros que ajudam a manter a inflação baixa, mas que também estão consumindo ganhos salariais reais por meio do serviço da dívida.
• Uma geração frustrada e mais educada: O acesso ampliado ao ensino superior desde os anos 2000 criou expectativas de mobilidade ascendente que o mercado de trabalho não consegue atender totalmente.
O ponto mais amplo:
O crescimento do PIB ainda é relevante — mesmo que possa não ser suficiente. O Brasil precisa reservar espaço em meio a restrições fiscais e externas mais rigorosas para acelerar o crescimento econômico inclusivo, a oferta de serviços públicos e a diversificação estrutural para a criação de empregos de qualidade. Isso pode definir como será uma fase "madura" do projeto político de Lula — e oferece lições muito além do Brasil
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