No réveillon de 1977, o presidente Jimmy Carter brindou ao Xá Mohammad Reza Pahlavi no palácio de Niavaran, em Teerã, chamando o Irã de "uma ilha de estabilidade" em um mundo turbulento. O país tinha o quinto maior exército do mundo, a temida polícia secreta SAVAK, bilhões em receitas de petróleo e um aliado incondicional em Washington. O regime parecia eterno. Quatorze meses depois, o Xá fugia em um voo lacrimoso, substituído por um clérigo idoso que emergia do exílio para fundar a primeira teocracia moderna do mundo. Como? A resposta de Scott Anderson em King of Kings: The Iranian Revolution — A Story of Hubris, Delusion and Catastrophic Miscalculation é aterradora: tudo aconteceu porque todos os envolvidos acreditaram em suas próprias mentiras.
Vencedor do Kirkus Prize e finalista do National Book Critics Circle Award, o livro de Anderson — um jornalista experiente na esteira de seu best-seller Lawrence na Arábia — é descrito como uma "obra-prima narrativa" que transforma o fracasso da inteligência americana e a psicose da corte persa em um épico shakespeariano. Baseado no resumo da obra, em citações diretas do contexto histórico e nas críticas de especialistas da CIA e de historiadores, este texto detalha porque a queda do Xá não foi um acidente, mas sim uma fatalidade anunciada pela arrogância.
Resumo da Obra: O Triunfo da Ilusão Sobre a Realidade
A estrutura do livro não é uma cronologia seca. Anderson escreve como um romancista, abrindo com cenas de poder absoluto para, em seguida, desmontá-las tijolo por tijolo. O subtítulo "Hubris, Desilusão e Erro de Cálculo Catastrófico" não é um exagero retórico, mas o esqueleto da tese.
Parte I: O Colosso de Pés de Barro
Anderson nos apresenta o Xá como uma figura trágica. Filho de um militar ambicioso que tomou o poder, Mohammad Reza Pahlavi herdou um trono que nunca pareceu lhe servir. A análise psicológica é cortante: longe do título de Rei dos Reis, "Luz dos Arianos, Sombra de Deus na Terra", o autor o descreve em sua juventude como um "menino tenso, apertado". Na corte, ninguém falava a verdade; a reverência extrema impedia que más notícias subissem. Quando um conselheiro ousava alertar sobre a crescente popularidade de Khomeini, o mensageiro era demitido, não a mensagem.
No campo material, a fachada era deslumbrante. O PIB per capita disparou, universidades brotavam e as mulheres ganhavam direitos. No entanto, Anderson mostra que esse "progresso" era um castelo de cartas. A riqueza do petróleo gerou inflação avassaladora, deslocamento de camponeses para favelas urbanas e uma corrupção sem precedentes. O Xá, obcecado por tecnologia militar ocidental, comprou caças e tanques que seus próprios generais não sabiam operar, enquanto a infraestrutura básica apodrecia.
Parte II: O Erro de Cálculo Final — O Artigo que abalou o Mundo
A genialidade narrativa de Anderson reside em apontar um momento específico de virada. Após o brinde de Carter, o Xá se sentiu invencível. Para silenciar os rumores de que o aiatolá Khomeini, exilado no Iraque, era uma ameaça, o Xá ordenou a publicação de um artigo difamatório anônimo. O texto sugeria que Khomeini era um agente britânico e um poeta safado. O primeiro-ministro advertiu que isso "iria causar problemas". O Xá não ouviu.
A publicação foi a faísca na pólvora. Os seguidores de Khomeini saíram às ruas em Qom. O exército atirou. Pela tradição xiita, quarenta dias depois, um novo enterro gera nova manifestação. A cada ciclo, mais mortes, mais raiva. O que Anderson documenta é como um ato menor de vaidade real desencadeou uma reação em cadeia que nenhum aparato de segurança conseguiu deter. Pior: ao invés de isolar Khomeini no Iraque, o Xá pressionou Saddam Hussein para expulsá-lo. Saddam, inimigo do Xá, obedeceu de bom grado, enviando Khomeini para o subúrbio parisiense de Neauphle-le-Château.
Ali, o velho aiatolá ganhou o que jamais teria no Oriente Médio: acesso irrestrito à imprensa ocidental. De repente, as fitas cassete com seus sermões chegavam ao Irã mais rápido que as notícias da TV estatal. "O mundo", escreve Anderson, "poderia visitá-lo quando quisesse".
Parte III: A Queda e a Traição de Carter
A segunda metade do livro é um thriller burocrático sobre o colapso de Washington. Anderson revela que a embaixada americana em Teerã tinha um dos maiores postos da CIA no mundo, mas a única fonte de informação era o próprio Xá. Apenas um diplomata no local falava farsi fluentemente. Quando os conselheiros da CIA insistiam que o regime estava "seguro", o jovem oficial Michael Metrinko (que se tornaria refém na crise de 1979) viajava pelas províncias e enviava telegramas desesperados alertando que o país pegava fogo.
O presidente Jimmy Carter surge como uma figura trágica paralela: indeciso e atordoado. Carter pregava direitos humanos, mas continuava armando a ditadura do Xá. Quando a revolução se tornou inevitável, sua administração se dividiu: Zbigniew Brzezinski, o falcão, queria um golpe militar sangrento; o Departamento de Estado queria negociar com Khomeini. Nesse vácuo de liderança, a oportunidade para um compromisso — transformar o Irã em uma monarquia constitucional — se perdeu para sempre.
A Engrenagem da Catástrofe: A Incompetência como Sistema
Anderson argumenta que a surpresa da revolução não foi falha de inteligência, mas falha de imaginação. Os americanos e o Xá olhavam para o Irã e viam números: PIB, mísseis, tonelagem naval. Eles não conseguiam ver o que os mulás viam: a humilhação cultural, a brutalidade da SAVAK (que matou menos de 1000 dissidentes em uma década, mas torturou milhares), e a sede de martírio.
A ironia amarga do livro é que o maior erro de cálculo foi acreditar que o poder militar impedia a revolução. Como nota o crítico do Guardian, o Xá agia "constantemente interferindo em coisas das quais deveria ter se mantido distante". Ao insistir em controlar tudo — da imprensa aos preços do trigo — ele não criou ordem, mas um descontentamento homogêneo que uniu comunistas, liberais e clérigos.
Críticas e Controvérsias: A Objeção dos Especialistas
Apesar do amplo endosso da crítica leiga — que celebrou a "urgência narrativa" e o "ritmo de suspense" do livro — a academia e os órgãos de inteligência levantaram objeções significativas ao trabalho de Anderson.
Elogios: A Força da Narrativa
A crítica unânime é que Anderson faz história acessível sem ser simplório. A Publishers Weekly chamou a obra de "iluminadora e operativa". O Kirkus Prize elogiou a capacidade do autor de transformar a revolução em um "conto de advertência sobre poder e percepção". Para o leigo, o livro destrói o mito de que o Oriente Médio é inerentemente caótico, mostrando que o caos foi causado por decisões racionais (porém estúpidas) de homens em ternos.
Críticas (A Visão Estreita e o Viés Pró-Ocidente)
A crítica mais contundente vem de especialistas da região.
O Foco Excessivo nos EUA: O revisor da CIA, Dr. William Samii, e o acadêmico Patrick Clawson apontam que, embora o livro seja vendido como uma história do Irã, ele é essencialmente uma história de "como os EUA erraram". Anderson ignora em grande parte as fontes persas, os arquivos da SAVAK e a vasta literatura acadêmica iraniana para se concentrar nas fofocas da Casa Branca e nos telegramas da Embaixada.
A "Condescendência" com o Xá: Ao retratar o Xá como um "garoto tenso" e um "esteta eurocêntrico", Anderson é acusado de psicologizar demais a história. A revista Radio Free Asia argumenta que, ao focar na personalidade do Xá, o autor minimiza o papel da política externa americana estrutural — décadas de suporte incondicional a uma ditadura que sufocou a democracia secular.
A Comparação Moral Incômoda: Um dos pontos mais provocativos do livro, e que gerou críticas de ambos os lados, é a comparação estatística da violência. Anderson cita fontes que indicam que a SAVAK matou menos de 1.000 pessoas nos anos finais do Xá, enquanto o regime de Khomeini executou mais de 8.000 em apenas quatro anos. Críticos afirmam que isso é uma "distração moral", pois a SAVAK usava tortura sistemática, enquanto o tribunal islâmico usava fuzilamento em massa — ambos são atrocidades, e comparar números é frio. Contudo, para Anderson, essa é a tragédia final da revolução: o remédio foi infinitamente pior que a doença.
O Legado: O Nascimento do Nosso Mundo
King of Kings não termina em 1979. Anderson traça uma linha direta entre a ilha de estabilidade de Carter e o mundo contemporâneo. A crise dos reféns de 444 dias humilhou a América e deu início à era do nacionalismo religioso como força geopolítica global.
A grande lição do livro, ecoada nas conclusões do autor, é um alerta para os dias atuais. Anderson mostra que impérios não caem apenas por ataques externos, mas pela podridão interna da arrogância. Tanto Washington quanto Teerã sofreram de "viés de confirmação": eles só viam o que queriam ver.
A Profecia do Autor: Ao comparar a revolução iraniana com as revoluções francesa e russa, Anderson argumenta que "o ódio das massas economicamente marginalizadas e religiosamente fervorosas por uma elite secular rica" é o modelo de conflito do século XXI — e o Irã foi o laboratório.
Conclusão: Uma Tragédia de Dois Atores
Ler King of Kings é assistir a um acidente de trem em câmera lenta. No comando do maquinário está um Rei dos Reis que chorava como uma criança e um presidente americano que prometeu moralidade, mas financiou a opressão. Scott Anderson escreveu um livro que incomoda a esquerda (ao lembrar que a revolução popular produziu um regime mais sanguinário) e a direita (ao mostrar que o "aliado forte" era um incompetente delirante).
No final, quando o Aiatolá Khomeini pisa no Irã e diz sentir "hichi" — nada — pelo retorno, entendemos a tese de Anderson. A Revolução Iraniana não foi um levante do povo contra o tirano. Foi um casamento catastrófico entre a arrogância de um monarca e a frieza de um clérigo, com os pobres e a liberdade pagando a conta. Para entender o Oriente Médio de hoje — do Hamas ao Hezbollah, da bomba atômica ao véu obrigatório —, não há ponto de partida mais dramático e preciso do que este livro.
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