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domingo, 17 de maio de 2026

A Fórmula do Fogo: Como Seguros, Lucro e Racismo Incendiaram a América



"Senhoras e senhores, o Bronx está pegando fogo!" A frase, supostamente dita por locutores durante a Série Mundial de 1977 enquanto chamas subiam acima do Estádio de Yankee, parecia encapsular uma era inteira na história urbana americana. Ao longo da década de 1970, uma onda de incêndios criminosos varreu as cidades americanas, destruindo bairros inteiros habitados por comunidades pobres de cor. Estima-se que o Bronx tenha perdido cerca de 20% de seu estoque habitacional nesse período, com até 300 nova-iorquinos morrendo anualmente em incêndios relacionados. O mito que prevaleceu por décadas foi o de que os próprios moradores, em um ato de desespero ou disfunção social, teriam ateado fogo em seus próprios lares. 

No explosivo livro de estreia "Born in Flames: The Business of Arson and the Remaking of the American City" (W.W. Norton, 2025), o historiador Bench Ansfield — cujo trabalho já foi publicado na prestigiada revista acadêmica Enterprise & Society — não apenas desmonta esse mito racista como revela uma verdade muito mais perturbadora: os incêndios que consumiram o Bronx e outras cidades americanas não foram acidentes do destino ou fruto da patologia social, mas sim um negócio lucrativo e previsível, orquestrado por senhorios e viabilizado pela indústria de seguros. 

Baseado em uma década de pesquisa, Ansfield apresenta uma "história social da financeirização" contada através do fogo, introduzindo o conceito de "brownlining" (marcação em marrom) para descrever as práticas predatórias que substituíram o racismo explícito do redlining por um novo tipo de extração de riqueza. O resultado é uma obra que Kirkus Reviews descreveu como a "história vital da discriminação racial no mercado de seguros — e os incêndios que se seguiram". 

Abaixo, exploramos as engrenagens desse sistema perverso, a mitologia que o encobriu, a resistência que emergiu das cinzas e o legado inquietante que ainda molda nossas cidades. 

Resumo da Obra: A Perfeita Tempestade de Interesses Perversos 

Ansfield organiza sua narrativa em três atos — Risco, Reverb (Reverberação) e revolta — cada um dissecando uma camada diferente do que ele chama de "triângulo comercial do risco". O fio condutor é a seguinte pergunta: como um incêndio criminoso se torna um empreendimento lucrativo? 

A resposta começa no colapso do seguro tradicional. 

Parte I: Risco — A Invenção do "Brownlining" 

Após os levantes raciais (chamados de "rebeliões" pelo livro, afastando-se do termo "motins") em Detroit, Newark e Los Angeles na década de 1960, as seguradoras tradicionais simplesmente abandonaram as "áreas afetadas por distúrbios", acelerando uma retirada de décadas dos centros urbanos americanos. Para preencher esse vazio, governos estaduais e federais criaram os planos FAIR (Fair Access to Insurance Requirements) — um sistema público-privado que, em teoria, garantiria que comunidades de cor tivessem acesso ao seguro. 

No entanto, como Ansfield documenta meticulosamente, o remédio mostrou-se pior que a doença. Os planos FAIR, na prática, tornaram-se veículos de exploração. Apólices eram concedidas de forma negligente, com valores segurados muito acima do valor real de mercado das propriedades decadentes. E, crucialmente, os prêmios cobrados eram exorbitantes — muitas vezes múltiplos do que se pagava em áreas suburbanas. Ansfield cunha o termo "brownlining" para descrever essa prática: não se tratava mais de negar seguro com base na raça (redlining), mas de concedê-lo em termos tão predatórios que a inadimplência e a busca pelo sinistro se tornavam inevitáveis. 

Conceito Chave: "The birth of homeowner insurancewas thus also the birth of insurance redlining in the cities." (O nascimento do seguro residencial... foi também o nascimento do redlining de seguros nas cidades.) 

Parte II: Reverb — A Máquina do Fogo 

Com prêmios inflacionados e um mercado imobiliário em colapso (onde prédios inteiros valiam menos do que a dívida do seguro contra ele), a equação para o senhorio inescrupuloso tornou-se simples: o prédio vale mais em chamas do que de pé. 

Ansfield demonstra como isso não era um fenômeno de criminosos isolados, mas uma indústria caseira. Senhorios contratavam "tochas" (torches) — jovens negros e latinos, frequentemente moradores dos próprios prédios — para atear fogo por algumas centenas de dólares. Em um caso chocante, um esquema de incêndio criminoso operava abertamente a partir de uma loja no Bronx, tendo queimado 250 edifícios e coletado milhões em pagamentos antes de ser descoberto. 

O livro revela o mecanismo financeiro por trás disso: o "insurance lag" (atraso do seguro). As seguradoras recebiam grandes depósitos iniciais (prêmios inflacionados) e, no intervalo entre o recebimento e o pagamento do sinistro, investiam esse dinheiro em mercados financeiros globais. Em uma era de juros altos (12 a 20% ao ano), o lucro vinha do fluxo de caixa, não da prudência. Perdas eram simplesmente repassadas para todos os segurados no pool no próximo ano. Ansfield compara o sistema a um "esquema Ponzi": enquanto novos clientes entrassem (novos prédios para segurar), o sistema se sustentava. 

O impacto humano foi devastador. O livro cita a experiência dos inquilinos que "iam dormir com os sapatos todas as noites", com malas prontas ao lado da cama, rastreando o progresso do fogo "quarteirão por quarteirão". 

Citação Chave: Os espólios do incêndio criminoso eram manifestos — um senhorio criminoso circulava pelo South Bronx em um Cadillac rosa. 

Parte III: Revolta — A Resistência das Cinzas 

Contra a narrativa dominante de passividade, Ansfield dedica a terceira parte do livro à ascensão de movimentos de resistência liderados por inquilinos. Em colaboração com alguns políticos locais e até mesmo com algumas das próprias seguradoras (que finalmente perceberam que o sistema era insustentável), os moradores do Bronx começaram a se organizar, documentar os incêndios e pressionar por mudanças. 

Essa seção também explora a explosão cultural em torno dos incêndios — de filmes icônicos como The Towering Inferno (1974) a sucessos musicais como "Disco Inferno" (1976), que transformaram a ansiedade urbana em arte e catarse. 

As Engrenagens Ocultas: Como as Seguradoras Lucravam com o Caos 

Um dos aspectos mais originais do livro de Ansfield é sua análise das transformações macroeconômicas que viabilizaram a epidemia de incêndios. Ele mostra como, na década de 1970, as indústrias FIRE (Finanças, Seguros e Imóveis) estavam eclipsando o setor manufatureiro como motor da economia americana. As seguradoras deixaram de ser guardiãs cautelosas do risco para se tornarem investidoras agressivas. 

O mecanismo de lucro era triplo: 

  1. Prêmios Inflacionados: As apólices FAIR cobravam valores abusivos, extraindo riqueza diretamente de comunidades empobrecidas. 

  1. Investimento dos Prêmios (Insurance Lag): O dinheiro dos prêmios era investido em mercados de ações, títulos e moedas durante o período entre o pagamento e o eventual sinistro. Quanto mais tempo o seguro demorasse a pagar, maior o lucro. 

  1. Resseguro: Grandes grupos, como o Sasse Group operando através da Lloyd's de Londres, participavam de esquemas de resseguro que difundiam o risco globalmente, permitindo que seguradoras locais assumissem riscos irresponsáveis sem arcar com a totalidade das consequências. 

Como observa um revisor crítico do livro, essa dinâmica prefigurou a crise das hipotecas subprime de 2008. Em ambos os casos, "o capitalismo predatório" criou uma situação em que os lucros eram privatizados e as perdas socializadas, enquanto os mais vulneráveis arcavam com o custo final. 

Críticas e Controvérsias: O Debate sobre os "Porquês" 

Apesar do amplo endosso da crítica especializada — incluindo resenhas estreladas da Publishers Weekly e da Kirkus — o livro gerou debates sutis entre revisores, particularmente sobre as motivações por trás dos incêndios e da desordem civil. 

Elogios: O Fim de um Mito Racista 

O consenso entre historiadores e críticos é que Ansfield realiza uma proeza notável. Ele "substancialmente atualiza nossa compreensão de crimes notórios que desnervaram cidades americanas meio século atrás". Ao deslocar a culpa dos inquilinos para os senhorios e seguradoras, o livro oferece não apenas uma correção factual, mas uma reorientação moral do debate sobre a decadência urbana. 

Citação da Crítica: "Dispelling the racist myth that residents set the fires themselvesthe author traces the confluence of financial factors..." (Desfazendo o mito racista de que os moradores atearam os incêndios, o autor traça a confluência de fatores financeiros...). 

Críticas e Nuances: A Complexidade da Conduta Humana 

No entanto, uma longa resenha publicada no site Community Civics — escrita por alguém que viveu no South Bronx durante o período dos incêndios — levanta pontos importantes de contraponto, sem desmerecer a tese central. 

  1. A Motivação para os Saques de 1977: Ansfield interpreta os saques que se seguiram ao apagão de Nova York em 1977 como "uma expressão de frustração dos nova-iorquinos pobres no rescaldo da austeridade". O revisor concorda em parte, mas sugere uma motivação mais primitiva e niilista: "As pessoas não são estúpidas... eles sabiam que ninguém se importava. Nenhuma ajuda estava chegando... Os encarregados da autoridade... os moradores do South Bronx não significavam nada, absolutamente nada, e os residentes sabiam disso.". 

  1. A Relação com a Liderança Comunitária: O revisor oferece uma visão interna sobre as tensões dentro de organizações comunitárias como a Peoples Development Corporation (PDC) e a Banana Kelly, sugerindo que o caminho do "capitalismo corretivo" nem sempre foi tão virtuoso quanto a narrativa às vezes sugere. Ele relata casos de má gestão de fundos e abuso de programas federais dentro das próprias organizações de resistência, adicionando uma camada de complexidade à história da "revolta". 

O Legado: Das Cinzas do Bronx às Chamas do Clima 

O poder verdadeiro de "Born in Flames" está em sua conclusão urgente. Ansfield argumenta que os mecanismos predatórios que queimaram o Bronx não desapareceram — eles apenas se transformaram. A "triangular trade in risk" (comércio triangular de risco) que ele descreve é a mesma lógica por trás das hipotecas subprime que causaram o colapso financeiro de 2008. 

E agora, o autor aponta, as mesmas dinâmicas estão sendo aplicadas à crise climática. Seguradoras estão abandonando regiões propensas a incêndios florestais na Califórnia e furacões na Flórida, reproduzindo o padrão de "retirada" dos anos 1960. Quando oferecem cobertura, os prêmios são muitas vezes impagáveis, e a promessa de indenização, duvidosa. 

Paralelo Contemporâneo: Assim como os planos FAIR foram uma "solução" racialmente codificada que piorou o problema, as soluções atuais para o risco climático frequentemente empurram o fardo para os mais pobres, enquanto os lucros são garantidos para os mais ricos. 

Conclusão: Uma História Queimando no Presente 

"Born in Flames" é muito mais do que uma história do Bronx nos anos 1970. É uma genealogia do capitalismo predatório moderno, contada através do elemento mais destrutivo e visceral: o fogo. Bench Ansfield consegue a proeza de transformar tópicos áridos — resseguros, prêmios de apólices, spreads de juros — em uma narrativa de suspense moral, repleta de personagens sinistros (senhorios de Cadillac rosa, gangues de "tochas", executivos de seguros) e heróis esquecidos (inquilinos que dormiam de sapato). 

O livro deixa o leitor com uma sensação desconfortável de reconhecimento. Os mitos que permitiram a devastação do Bronx — a ideia de que os pobres destroem suas próprias comunidades, que o mercado se autorregula, que os desastres são "acidentes" — ainda circulam hoje. Ao desenterrar a verdade sobre "os anos em chamas", Ansfield não apenas presta justiça histórica às vítimas, mas fornece um manual para reconhecer o mesmo padrão de incêndio criminoso corporativo sempre que vemos chamas no horizonte. 

No final, a frase "o Bronx está pegando fogo" não era uma declaração de caos. Era, como Ansfield demonstra, a consequência inevitável de um sistema financeiro que aprendeu a lucrar com a destruição. E enquanto esse sistema permanecer intacto, em algum lugar, alguém ainda irá dormir com os sapatos nos pés. 

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