SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Lembra-nos de que o conhecimento emancipatório é artesanal.


 Pedagogia do Oprimido (o manuscrito)


Olhar para a capa de Pedagogia do Oprimido (o manuscrito) é, antes de tudo, um convite a desmistificar o pensamento crítico.

Ao fundo da imagem, sob a imponência de uma caneta de pena, vislumbramos as linhas sinuosas, as palavras riscadas e as anotações marginais escritas pelo próprio Paulo Freire em 1968, durante o seu exílio no Chile.

Esse cenário gráfico é a materialização de um conceito central na obra freiriana, a educação como um processo em permanente construção.

Muitas vezes, ao nos depararmos com as grandes obras da teoria educacional, corremos o risco de fossilizá-las.

Tratamos o texto impresso e acabado como uma verdade estática.

No entanto, o acesso ao manuscrito nos devolve a humanidade do autor.

Freire não psicografou a pedagogia da libertação; ele a gestou na tensão do exílio, no diálogo com as dores da América Latina e no esforço hercúleo de dar forma conceitual à esperança.

Cada rasura naquele papel representa uma escolha teórica, um recuo reflexivo, a busca pela palavra exata que fizesse justiça à dignidade dos esfarrapados do mundo.

Didaticamente, o manuscrito nos ensina que o pensamento crítico não nasce pronto.

Ele exige o exercício da autocrítica, do refazer-se e do dialogar consigo mesmo e com a realidade.

Se o próprio patrono da educação brasileira precisou riscar, reescrever e depurar suas ideias para compreender a fundo os mecanismos da educação bancária e da dialogicidade, por que nós, educadores contemporâneos, haveríamos de exigir de nossos estudantes, ou de nós mesmos, respostas imediatas, padronizadas e sem contornos humanos?

Trazer essa obra para o centro da formação docente e das salas de aula da universidade é um ato político de grande relevância.

Em tempos de imediatismo digital, onde algoritmos ditam respostas velozes e superficiais, a imagem da escrita à mão nos convoca à lentidão necessária da reflexão.

Lembra-nos de que o conhecimento emancipatório é artesanal.

Ele demanda tempo, escuta e a coragem de assumir as nossas próprias "rasuras" pedagógicas no processo de busca pela autonomia.

Portanto, debruçar-se sobre o manuscrito da Pedagogia do Oprimido não é um exercício de nostalgia ou de arqueologia literária.

É compreender que a libertação, tanto a que se busca na alfabetização política quanto a que perseguimos nas salas de aula da educação básica e superior, é, por excelência, um texto que ainda estamos escrevendo, rasurando e reinventando coletivamente.

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