Ian McEwan tem setenta e sete anos e publicou seu primeiro livro há meio século. Seus romances habitam um território peculiar: a superfície parece inglesa, contida, racional; por baixo, fervem obsessões sombrias, coincidências improváveis e revelações que reconfiguram tudo o que veio antes. Em What We Can Know (2025), seu décimo sétimo romance, McEwan faz algo que poucos autores em sua fase tardia conseguiriam: escreve o que alguns críticos já chamam de sua obra-prima.
O cenário é distópico, mas não da maneira que se espera. Não há paisagens apocalípticas de cinza radioativo. O mundo, em 2119, é apenas menor, mais pobre, mais silencioso — e, de certa forma, mais sábio. A Inglaterra tornou-se um arquipélago após a "Inundação de 2042", um tsunami causado por uma ogiva russa no Atlântico que, combinado ao aumento do nível do mar, submergiu os vales e reduziu a população britânica pela metade. Glasgow está no fundo do "Mar do Cinturão Central". Londres também se foi. Os Estados Unidos são uma colcha de retalhos de senhores da guerra em guerra civil. A Nigéria é a potência hegemônica que controla a internet. A expectativa de vida média ronda os sessenta e dois anos.
É nesse mundo — que McEwan descreve, com ironia fina, como "tão pacífico e enfadonho quanto uma casa paroquial de Hampshire num romance de Jane Austen" — que vive Thomas Metcalfe, professor de humanidades na Universidade do South Downs e especialista no período literário de 1990 a 2030. Ele é, nas próprias palavras, "o biógrafo da reputação de um poema não lido".
O poema em questão chama-se "A Corona for Vivien". Foi escrito em 2014 pelo célebre poeta Francis Blundy — "comparável a Seamus Heaney", segundo a crítica da época — para o aniversário de cinquenta e quatro anos de sua esposa, Vivien. Trata-se de uma corona: uma sequência de quinze sonetos onde o último é composto pelos versos de abertura dos catorze anteriores. Um tour de force técnica que Blundy, em sua soberba, considerava superior a The Waste Land de T.S. Eliot.
Blundy leu o poema em voz alta na festa de aniversário de Vivien — o "Segundo Jantar Imortal", numa referência deliberada ao encontro de 1817 entre Wordsworth, Keats e outros gigantes literários. Depois, entregou a Vivien o único exemplar, escrito à mão em pergaminho. O poema nunca foi publicado, e o manuscrito desapareceu. Sua ausência, ao longo do século seguinte, conferiu-lhe status mítico: tornou-se uma espécie de Santo Graal literário do século XXI, supostamente uma ode à natureza e um alerta ecológico. Metcalfe quer encontrá-lo — não por amor à arte, mas por ambição acadêmica: a descoberta lhe garantiria uma cátedra.
Abaixo, exploramos as engrenagens dessa máquina narrativa, as questões filosóficas que o romance levanta, e o debate crítico sobre se McEwan, aos 77 anos, realmente produziu sua obra-prima — ou apenas mais um romance "muito inglês" e "levemente pateta".
Resumo da Obra: Duas Ilhas de Prosa e uma Ponte Tênue
O romance está dividido em duas metades radicalmente distintas, e a natureza exata dessa divisão é deliberadamente ocultada nas sinopses para preservar um dos "twists" característicos do autor. O que se pode dizer é o seguinte.
Parte I: A Investigação
A primeira metade é narrada por Tom Metcalfe. Acompanhamos seu trabalho de arquivo meticuloso: ele vasculha e-mails, registros de redes sociais, diários e correspondências de Francis e Vivien Blundy e de seus convidados. Ele tem acesso a praticamente toda a comunicação digital do início do século XXI — uma abundância que, ironicamente, se revela mais obstáculo que ajuda. "Se querem manter seus segredos", reflete Tom, "sussurrem-nos no ouvido de seu amigo mais querido e confiável. Porque se os confiarem ao teclado... nós saberemos tudo".
Tom reconstrói a festa de aniversário, as tensões entre os convidados, os flertes e as traições que permeavam o círculo social de Blundy. Ele acredita que seu conhecimento é superior ao de qualquer contemporâneo: "Sei tudo o que eles sabiam — e mais, pois sei alguns de seus segredos e seus futuros, e as datas de suas mortes".
Mas Tom está errado. E é precisamente nessa certeza excessiva que reside a armadilha do romance.
Parte II: A Confissão
A segunda metade — que muitos críticos consideram o verdadeiro coração do livro — é narrada em primeira pessoa por Vivien Blundy . É uma memória explosiva que subverte quase tudo o que Tom deduziu. O poema não é o que ele imaginava. O casamento Blundy não é o que parecia. E o evento central que Tom não conseguiu antecipar — um crime monstruoso, uma traição fundamental — está registrado em lugar nenhum, exceto na memória de uma única testemunha.
Como observa um crítico: "O que podemos saber acaba sendo menos do que pensamos que sabemos". A distância entre a reconstrução acadêmica de Tom e os eventos reais é o motor narrativo do livro — e sua lição filosófica mais amarga.
A Engrenagem Conceitual: O Que Podemos Saber Sobre o Passado?
O título do romance não é decorativo. McEwan está engajado em uma investigação sobre os limites do conhecimento histórico, biográfico e até íntimo.
A Ilusão da Onisciência Digital
O século XXI deixou um rastro de dados sem precedentes: e-mails, mensagens, postagens, fotos georreferenciadas, históricos de navegação. A tentação é acreditar que essa abundância equivale a transparência — que o arquivista do futuro saberá mais sobre nós do que qualquer biógrafo contemporâneo jamais soube sobre seus sujeitos.
McEwan mostra que o oposto é verdadeiro. A avalanche de informação trivial — o "minutiae cotidiano" — polui o arquivo. Ela tem "extraordinária amplitude e preciosíssima profundidade". Sabemos o que as pessoas comeram no café da manhã, mas não o que realmente pensavam umas das outras. Os segredos mais importantes — as humilhações privadas, as traições silenciosas, as decisões tomadas em momentos de desespero — nunca foram digitados. Foram sussurrados, ou nunca foram ditos.
O "Derangement" como Condição Humana
O romance introduz um termo que entrou em uso geral nos anos 2030: "Derangement" (algo como "Desarranjo"). É a "abreviatura para a lista usual das consequências do aquecimento global", mas também uma "sugestão de loucura e da fúria vingativa dos sistemas climáticos". Mais importante, o termo carrega "uma sugestão de responsabilidade coletiva por nosso viés cognitivo inato em favor do conforto de curto prazo em detrimento dos benefícios de longo prazo".
Citação Chave: "A humanidade em si estava desarranjada."
Tom, em sua obsessão pelo passado, é um caso particular dessa condição universal. Ele se recusa a ver o presente; sua nostalgia pelo "caos barulhento" do século XXI é, nas palavras de um crítico do Guardian, uma "nostalgia pelas coisas erradas".
A Incomensurabilidade entre Passado e Presente
O passado, escreve Tom em um dos momentos mais belos do livro, "desgasta-se contra o presente como oceanos, vento e chuva contra falésias de calcário". A afirmação é poética, mas também uma advertência metodológica. Não podemos simplesmente projetar nossas categorias contemporâneas sobre os mortos. O que parecia óbvio para eles é opaco para nós — e vice-versa.
Tom idealiza o início do século XXI: "Eram brilhantes em sua avareza, beligerantes além da imaginação, prontos para morrer por boas e más ideias... Eram grandes e corajosos, estudiosos e cientistas soberbos, músicos, atores e atletas, e eram idiotas que estavam jogando tudo fora". Seus alunos, em contraste, veem os ancestrais como "loucos ignorantes, sórdidos e destrutivos". Quem está certo? Talvez nenhum dos dois. Ou ambos.
A Estrutura como Argumento: Por que o Romance é uma "Obra-Prima"
Vários críticos — incluindo Allan Massie no Scotsman — não hesitaram em classificar What We Can Know como a obra-prima tardia de McEwan. O argumento merece exame.
O Gênero como Disfarce
McEwan descreveu o livro como "ficção científica sem a ciência". O cenário pós-apocalíptico é quase uma piada interna: ele permite ao autor olhar para o presente com o distanciamento necessário, mas não exige que ele se comprometa com as convenções do gênero. Não há naves espaciais, aliens, ou mesmo explicações técnicas plausíveis para a Inundação. O que importa não é o como o mundo acabou, mas o que os sobreviventes fazem com a memória do que foi perdido.
O "Twist" como Necessidade Filosófica
O ponto de virada do romance — a transição da narrativa de Tom para a de Vivien — é estruturalmente análogo aos grandes movimentos de Atonement (2001), onde a revelação final reconfigura tudo o que veio antes. Mas aqui o artifício não é mero truque narrativo. Ele é a tese do livro corporificada.
Se a primeira metade é a demonstração da arrogância do arquivista — a falsa certeza de que os dados contam toda a história —, a segunda é a prova de que algumas verdades só podem ser acessadas pela testemunha viva. O problema, é claro, é que testemunhas morrem. E quando morrem, seus segredos morrem com elas. A memória de Vivien é o último exemplar de um manuscrito que queimou.
A "Goofy Prophet" e a Esperança Teimosa
Nem todos os críticos estão convencidos da grandeza do livro. Zak Black, escrevendo para The Spec, nota que McEwan é um "profeta levemente pateta". Há algo inerentemente cômico em um romancista inglês de 77 anos, criatura dos Home Counties e do racionalismo iluminista, tentando imaginar um mundo pós-colapso. As tartarugas marinhas nas águas tropicais do arquipélago inglês? Os "funiculares movidos a água e gravidade" da Biblioteca Bodleiana em Snowdonia? Funcionam como cenário, mas não como previsão séria.
No entanto, o mesmo crítico concede que a força de McEwan não está no mundo que ele constrói, mas nas perguntas que ele faz sobre o nosso. O romance não é sobre 2119; é sobre 2024. É sobre "nós, agachados sob o alpino da extinção", parafraseando Philip Larkin . E, como lembra o crítico do Scotsman, este é "surpreendentemente, um romance feliz". As pessoas sobrevivem. A cultura persiste. A vida, mesmo diminuída, recomeça. Em um gênero dominado pelo desespero (The Road, Blindness, The Handmaid's Tale), a aposta de McEwan na adaptabilidade humana é quase subversiva.
Críticas e Controvérsias: O Liberalismo Inglês em Xeque
A Crítica da Insularidade
O revisor do Guardian — um irlandês — oferece a leitura mais mordaz do livro. A "inglesidade" de McEwan, argumenta, é tanto sua maior virtude quanto sua cegueira mais profunda. A Inundação de 2042 submerge a Grã-Bretanha, mas a Irlanda — com suas poucas montanhas altas — simplesmente desaparece do mapa. "Presumivelmente, a Irlanda se saiu mal quando a Europa se afogou. Mas, pela história futura de McEwan, você nunca saberia disso".
A crítica é mais do que uma queixa nacionalista. Ela aponta para uma falha estrutural no liberalismo inglês que McEwan, talvez sem querer, expõe. O romance é sobre o fato de que estamos todos ilhados — no tempo, no espaço, na vida. Mas a resposta de McEwan a essa condição é tipicamente inglesa: recuar para o jardim murado da cultura, para a biblioteca na montanha, para o poema não lido. O que falta é a dimensão política da ilha — a percepção de que os arquipélagos são formados não apenas pela água, mas por muros, cercas, fronteiras. O Brexit, nota o crítico, "ensinou algo aos liberais ingleses?".
A Mecânica do Prazer e o Preço da Coincidência
Outra linha de crítica recorre em várias resenhas: a "mecânica suíça" dos romances de McEwan — o prazer confiável e previsível de sua prosa — pode ser também sua limitação. Um revisor nota que o romance é "absurdamente envolvente e finalmente não convincente daquela maneira familiar de McEwan: você vira as páginas faminto, e então, no final, você pensa: 'espera aí'".
O mesmo revisor aponta o hábito do autor de introduzir "surpresas emocionalmente pungentes em momentos improváveis": uma gravidez quando toda a esperança parece perdida, um casamento destruído na manhã exata em que o casal decidiu ter um filho. Essas coincidências, argumenta, "acontecem com frequência excessiva aos personagens de McEwan". Elas são o preço de se escrever romances que funcionam como máquinas de suspense: o mecanismo exige engrenagens que giram no momento exato, ainda que a vida real seja mais desordenada.
O Desconforto do Novo Ateísmo
Uma observação final, mais política do que estética, vem do crítico que identifica em McEwan a "sensibilidade política do Novo Ateísmo: bem-informada, mas intransigente, e condescendente no tópico da religião". Em uma cena, uma personagem ouve as "palavras improváveis" de um serviço fúnebre e pensa: "Como gostaríamos que fosse verdade". A frase resume a posição de McEwan diante da fé: com respeito educado, mas com a certeza inabalável de que é um consolo para os fracos. Para alguns leitores, isso soará como honestidade intelectual. Para outros, como a estreiteza de um humanismo que não consegue imaginar formas de significado fora do laboratório e da biblioteca.
O Legado: Por que Este Romance Importa Agora
What We Can Know chega em um momento peculiar da história cultural. Estamos, como observou Amitav Ghosh, vivendo em um "Grande Desarranjo" — uma época em que as formas tradicionais do realismo literário se mostram inadequadas para capturar a escala da crise climática. McEwan aborda esse problema de frente, fazendo sua personagem Rose argumentar que, entre 2015 e 2030, houve "uma crise do realismo na ficção", e que "novas formas eram necessárias para enquadrar as consequências físicas e morais de uma catástrofe global".
O romance que temos em mãos é a tentativa de McEwan de inventar uma dessas novas formas. Ela opera em duas escalas simultaneamente: a arquipelágica (o mundo submerso de 2119) e a microscópica (a sala de jantar onde Blundy lê seu poema para amigos bêbados e distraídos). O que conecta as duas escalas é a pergunta sobre o que vale a pena preservar.
A resposta de McEwan é, previsivelmente, humanista. O poema de Blundy — mesmo que não seja o que Tom pensava, mesmo que seu autor fosse um negacionista climático, mesmo que sua mensagem não fosse sobre a natureza, mas sobre algo mais sombrio — ainda assim importa. A beleza técnica, a ambição formal, o gesto de oferecer algo feito à mão a alguém que se ama: essas coisas sobrevivem à ruína dos mundos.
Conclusão: Uma Obra-Prima Tardia e Desigual
What We Can Know não é um romance para todos os gostos. A primeira metade é deliberadamente lenta, quase claustrofóbica em sua adesão à perspectiva limitada de Tom. O cenário distópico, por mais bem desenhado que seja, serve principalmente como pano de fundo para um melodrama doméstico que, nas mãos de um autor menos habilidoso, poderia soar como fofoca de alto nível.
No entanto, quando o livro funciona — e na segunda metade ele funciona com força devastadora —, McEwan realiza algo que poucos romancistas em sua fase tardia conseguem. Ele nos faz sentir a fragilidade do conhecimento, a arrogância da certeza, e a solidão essencial de quem tenta compreender o passado sem ter estado lá.
O crítico do Scotsman talvez exagere ao chamar o livro de "obra-prima" em meio a uma carreira que já produziu Atonement, Black Dogs e Enduring Love. Mas há algo inegavelmente comovente em ver McEwan, aos 77 anos, ainda experimentando, ainda se recusando a repetir a fórmula que lhe rendeu o Booker, ainda acreditando que o romance pode nos ensinar algo sobre os limites do saber.
O que podemos saber, afinal? Menos do que pensamos, mais do que tememos, e apenas se estivermos dispostos a ouvir a testemunha que ainda vive — antes que ela também se cale.
"O poderoso passado desgasta-se contra o presente, como oceanos, vento e chuva contra falésias de calcário." O verso é de Tom Metcalfe, o arquivista que errou tudo. Mas talvez, no fim das contas, ele tenha errado menos do que seus críticos imaginam. Porque o desgaste de que ele fala não é apenas destruição. É também a única forma que temos de moldar o que vem depois.
Nenhum comentário:
Postar um comentário