Há trinta anos, o economista Paul Romer (ganhador do Nobel de Economia em 2018) subverteu o senso comum sobre crescimento econômico. Em vez de tratar ideias como recursos escassos, ele mostrou que o conhecimento é um bem não rival: uma vez descoberto, pode ser replicado indefinidamente por diferentes pessoas ou empresas sem se esgotar. Esse insight deu origem à Teoria do Crescimento Endógeno, na qual os motores do desenvolvimento são construídos dentro da economia – capital humano, ciência, instituições e incentivos – e não impostos de fora.
Hoje, ao observar o esforço brasileiro para ingressar na chamada economia do conhecimento, a pergunta que se impõe é simples: por que ainda não conseguimos organizar as nossas ideias para gerar crescimento duradouro?
1. O argumento romeriano
Segundo Romer, países ricos constroem a sua vantagem a partir de três elementos interligados:
- Capital humano – cientistas, engenheiros, técnicos e gestores com formação de excelência.
- Infra‑estrutura científica – universidades, laboratórios e institutos capazes de produzir e absorver conhecimento.
- Incentivos à inovação – marcos legais, proteção de propriedade intelectual e mecanismos de financiamento que recompensam o risco.
Quando esses componentes convergem, multiplicam‑se os spillovers: descobertas feitas num laboratório universitário se revertem em patentes, produtos e empresas, que por sua vez criam ecossistemas de excelência. Foi assim que regiões como o Vale do Silício ou Cambridge se tornaram epicentros de crescimento exponencial.
2. Um diagnóstico do Brasil
O Brasil reúne muitos dos ingredientes necessários: cerca de 160 mil pesquisadores, universidades públicas entre as melhores da América Latina e instituições centenárias como o Butantan, a Fiocruz e a Embrapa. Contudo, esses recursos não se transformam automaticamente em crescimento endógeno. Alguns dados ajudam a entender o quadro:
- Investimento em P&D: em 2023, a despesa brasileira com pesquisa e desenvolvimento equivalia a 1,19 % do PIB. Para comparação, a União Europeia investiu 2,24 % do PIB em 2024 e a Coreia do Sul gasta cerca de 4,93 % do PIB em pesquisa avançada.
- Instituições fragmentadas: agências como FINEP, BNDES, FAPESP e CNPq operam com mandatos distintos e pouco coordenados entre si.
- Fuga de talentos: cortes orçamentários levaram ao aumento da emigração de jovens pesquisadores, embora um estudo recente do IPEA mostre que apenas 1,2 % dos doutores formados entre 2013 e 2024 residem no exterior.
- Desconexão universidade‑empresa: há mecanismos de parceria, mas eles geram spillovers limitados.
Além disso, os rankings de ensino superior mostram que a USP caiu para a 108ª posição no QS World University Rankings de 2026, o que indica que nossos centros de excelência não figuram mais entre as cem melhores universidades do mundo. Apesar disso, o Brasil ocupa o 50º lugar no Índice Global de Inovação de 2024 – acima de outros países latino‑americanos, mas ainda distante das potências tecnológicas. Aqui, deve-se considerar que o país ocupa a 14.ª posição na publicação de artigos científicos, o que evidencia a barreira existente entre as universidades e o sistema produtivo brasileiro, ou a falta de foco em problemas reais da sociedade brasileira nas pesquisas realizadas aqui.
3. O que já fizemos – e o que falta
Nos últimos 20 anos, algumas políticas inspiradas por Romer foram adotadas:
- A Lei de Inovação (2004) permitiu a criação de parcerias entre universidades e empresas.
- A Lei do Bem (2005) concedeu incentivos fiscais à P&D privada.
- Programas de agências, como a FINEP e a FAPESP, passaram a financiar projetos em cadeia.
- Parcerias de Desenvolvimento Produtivo (PDPs) em vacinas e fármacos promoveram cooperação público‑privada.
No entanto, iniciativas estruturantes ficaram pelo caminho. O Brasil não desenvolveu uma estratégia nacional de clusters de inovação; o investimento em pesquisa básica continua baixo, apesar de ser o tipo de pesquisa com maior potencial de spillover; e não existe um gabinete unificado de ciência, tecnologia e inovação capaz de planejar políticas de longo prazo. A coordenação entre ministérios e agências ainda é fragmentada e vulnerável a ciclos eleitorais.
4. A promessa (e a lacuna) do programa Nova Indústria Brasil
Lançado em 2024, o Nova Indústria Brasil (NIB) sinaliza um compromisso com a reindustrialização, baseada em biotecnologia, inteligência artificial (IA) e transição energética. O programa destaca “conhecimento” e “inovação” e prevê incentivos fiscais e financeiros. Entretanto, falta ao NIB uma estrutura de governança que unifique as diversas agências de financiamento e garanta a continuidade intergovernamental. Em termos romerianos, o NIB acerta no diagnóstico, mas trata apenas parte dos sintomas.
5. Três cenários para 2050
Como gestor e pesquisador, enxergo três trajetórias possíveis para o Brasil:
Cenário 1 – Continuidade melhorada
O investimento em P&D sobe para cerca de 2 % do PIB, e o NIB entrega avanços incrementais. Ainda assim, a ausência de coordenação institucional e de pesquisa básica robusta mantém o país atrás de nações como Coreia do Sul e China. Resultado: divergência relativa.
Cenário 2 – Salto romeriano
O governo institui um Gabinete Único de Inovação, blindado contra os ciclos políticos; o investimento atinge 3 % do PIB; e são criados polos globais de bioeconomia, IA, semicondutores e energia. Nesse cenário, o Brasil converge com os países da OCDE em duas gerações e conquista autonomia em tecnologias críticas. O estudo do IPEA sobre a emigração de doutores mostra que a maioria deseja permanecer no país quando há oportunidades – ou seja, políticas consistentes poderiam reter o talento.
Cenário 3 – Fragmentação
Cortes no orçamento de CT&I, descontinuação de programas e aumento da emigração levam a um declínio acelerado. O país torna‑se importador crônico de tecnologia e perde capital humano para sempre.
6. Três ações concretas
Para aproximar o Brasil do “salto romeriano”, proponho três medidas:
- Criar um Gabinete Único de Inovação que integre FINEP, BNDES, CAPES, CNPq, FAPESP e ABDI, com metas compartilhadas, financiamento plurianual e indicadores de spillover (não apenas de produção de artigos ou patentes, mas também de impacto econômico e social).
- Blindar a pesquisa básica, destinando ao menos 40 % do orçamento de P&D à ciência fundamental focada em problemas reais do país. As evidências mostram que esse tipo de pesquisa gera os maiores spillovers e sustenta a inovação de longo prazo.
- Estabelecer pelo menos cinco centros globais de excelência ( a exemplo do que fazem rotineiramente países avançados como a China) em áreas onde o Brasil possui vantagens comparativas – bioeconomia amazônica, biotecnologia de precisão, IA aplicada à saúde e à agricultura, semicondutores verdes e síntese química avançada – com autonomia de gestão e métricas de desempenho internacionais.
7. Conclusão: soberania científica é estratégia de Estado
Romer lembra que “ideias têm um poder que a política subestima”. O debate econômico brasileiro continua preso a temas como juros e impostos, enquanto o poder multiplicador da ciência permanece invisível. A lição central da teoria do crescimento endógeno é que investir em conhecimento organizado – pessoas, instituições, incentivos e cultura de cooperação – gera retornos crescentes. Não se trata de romantismo, mas de realismo estratégico: as nações que dominam IA, biotecnologia e energia avançada moldarão o século XXI. Países que ficam para trás nesse campo dificilmente recuperam terreno.
O Brasil tem capital humano, biodiversidade ímpar e um ecossistema científico respeitável. Falta coordenar esses elementos e assumir a soberania científica como um projeto de Estado. Romer ofereceu o mapa; cabe a nós tecer a teia que multiplicará nossas ideias.
Pergunta para reflexão
Se pudéssemos garantir 3 % do PIB para P&D e uma governança integrada por 20 anos, em quais tecnologias você apostaria para que o Brasil se tornasse soberano e competitivo globalmente? Bioeconomia, IA, energias verdes ou outra fronteira ainda inesperada? Deixe seu comentário e participe do debate.
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