A sala não tinha janelas. No centro, uma mesa de mogno polido refletia os rostos pálidos dos operadores da Máfia. Não a Máfia das capas e punhais, mas a das planilhas de construtoras, dos contratos de publicidade e outros esquemas. Ali, não se elegiam líderes; fabricavam-se.
O processo era cirúrgico, distribuído por cidades e instituições. Primeiro, a compra de votos não era mais feita com dinheiro em espécie, mas com a moeda da esperança falseada: emendas em PIX, promessas de empregos que nunca chegavam e cestas básicas entregues por caminhões com adesivos do "lavador de dinheiro " da vez. Enquanto isso, o algoritmo da pesquisa eleitoral registrava cada preferência, cada medo, fabricando o perfil perfeito do "salvador da pátria".
Enquanto os novos e velhos líderes de sempre discursavam na tevê sobre "moralidade", os operadores ajustavam o aparelhamento das instituições vendidas ao crime organizado; como espetáculos da política dos acordos. O Ministério Público recebia uma lista de "inimigos" a serem investigados, enquanto os próprios operadores tinham seus dossiês trancados a sete chaves. A troca de moedas entre os Poderes era constante: o Executivo dava contratos; o Legislativo devolvia silêncio sem cumprir sua função de fiscalizar; o Judiciário, por sua vez, concedia liminares que paralisavam investigações. Era um cassino onde a casa sempre vencia.
Gastavam-se bilhões em publicidade. O "falso case" do dia era sempre uma cortina de fumaça: um político salvando um pet, bilhões liberados, enquanto o bairro inteiro afundava na lama da exclusão. Câmeras mostravam o abraço em uma criança órfã, mas cortavam o enquadramento para não mostrar a fila do osso ou o tiroteio do morro ao fundo.
A verdade histórica, porém, estava a um clique de pesquisa no Google. Bastava digitar "índice de pobreza extrema", "homicídios na periferia" ou "desigualdade racial no acesso à saúde". Os números gritavam. A fome, a criminalidade e a exclusão eram a espinha dorsal do Estado, uma verdade que se escondia à vista de todos, soterrada sob o tsunami de fakes e cortinas de fumaça. Essa ditadura da corrupção não usava tanques de guerra; usava a fome silenciosa, que matava mais que qualquer conflito armado, ceifando milhares anualmente nos porões da miséria.
E ali estava o grande silêncio da esquerda. Antes barulhentos, os outrora críticos agora ocupavam apartamentos funcionais no "Condomínio do Poder". Tinham cadeiras nas comissões, carros com motorista e verbas de gabinete. Em troca, calavam-se. Quando o líder da Máfia assinava um decreto que beneficiava os grandes bancos, a esquerda pedia "moderação nos ataques". Quando a verdade sobre a compra de votos vinha à tona, pedia-se "pautas unificadas". O medo de perder o privilégio do contracheque e da visibilidade os tornava capangas de terno, guardiões do mesmo sistema que diziam combater.
Vivíamos o pior dos dois mundos diatópicos. Como em *1984*, de Orwell, o Ministério da Verdade reescrevia os fatos diariamente; o líder que pregava a paz era o mesmo que financiava a milícia, e a população era treinada para amar o Grande Irmão que a vigiava. Mas também vivíamos Admirável Mundo Novo, de Huxley, onde a massa não precisava ser oprimida pela dor, e sim anestesiada pelo prazer raso do "soma" digital — o entretenimento fútil, o auxílio que nunca chega, e a ilusão de que o voto importa.
A verdade já não importava. O que importava era a narrativa. O abismo entre o discurso e a realidade era tão vasto que a própria palavra "mentira" perdeu o sentido; tornou-se apenas "versão". As manchetes fabricadas eram engolidas com a mesma passividade com que se engolia o ar poluído da periferia.
Ao final da reunião, o novo líder foi apresentado. Sorria com os dentes clareados, aperfeiçoado por uma equipe de marketing. Os operadores ergueram os copos.
— À democracia — brindaram, rindo.Lá fora, nos becos sem asfalto, mães procuravam os filhos desaparecido na boca ou na lista de corpos não identificados. Lá fora, o Google mostrava a verdade em letras garrafais. Mas ninguém mais clicava. O condomínio do poder tinha muros altos, a fábrica de líderes convidava velhos e novos ladrões, na produção do roubo em série, cuspindo os pobres enquanto a humanidade se dissolvia na publicidade indiferente do próxima campanha eleitoral.
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