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sexta-feira, 10 de julho de 2026

O Senhor dos Anéis é mais que literatura porque é uma dessas liturgias. Por Egidio Guerra

O Senhor dos Anéis": saiba qual a ordem cronológica dos ...


Vivemos numa era de profunda miopia espiritual. A cultura contemporânea, seduzida pelo que pode ser medido, pesado e comprovado, reduziu a realidade ao meramente material, deixando-nos órfãos de narrativas que dão sentido à existência. É essa constatação que une os autores aqui reunidos — Martin Shaw e Malcolm Guite — num esforço comum para restaurar a imaginação e a capacidade de ver o que está além do véu da aparência.

A pobreza mítica do nosso tempo

Martin Shaw, mythographer, contador de histórias e pensador cristão ortodoxo, argumenta em Liturgies of the Wild: Myths That Make Us que vivemos numa "era empobrecida de mitos". Essa pobreza, adverte ele, "deixou-nos vulneráveis a histórias que podem não nos desejar bem". Sem os antigos relatos que orientavam nossos antepassados — aquilo que Shaw chama de "tecnologias antigas" — permanecemos imaturos, "adolescentes numa cultura que vale o seu sal e exige que nos tornemos adultos de verdade".

A metáfora é poderosa: o mito não é escapismo, mas nutriente. "Os mitos são o solo em que as crianças — como plantas — devem crescer". Eles nos orientam em relação aos deuses, à terra, aos animais, aos elementos e aos outros humanos. Quando esse solo se esgota, crescemos tortos, desorientados, vulneráveis a narrativas que nos diminuem em vez de nos engrandecer.

Shaw nos ensina a "ler um mito do modo como ele quer ser lido", oferecendo contos vívidos de histórias "poderosas o suficiente para nos conduzir através das provações da vida". Mais do que isso, ele nos mostra como "recolher e remodelar nossas próprias histórias descartadas" — um convite a reconhecer que cada vida é, ela mesma, uma narrativa mítica à espera de ser descoberta.

A imaginação como faculdade de verdade.

Se Shaw diagnostica a doença da pobreza mítica, Malcolm Guite oferece o remédio: a imaginação. Em Lifting the VeilImagination and the Kingdom of GodGuite, poeta e sacerdote anglicano, defende a imaginação como uma "faculdade portadora de verdade". O livro parte de uma visão central: "há uma realidade radiante no coração das coisas que nossa visão embotada não percebe". A imaginação, argumenta Guite, é um aspecto da imagem de Deus em nós que pode "despertar-nos para a presença e verdade de Deus que cintila através de toda a criação".

Guite deplora o reducionismo que afirma que "nada pode ser conhecido além do que pode ser comprovado cientificamente". Insiste que a imaginação tem a capacidade de apreender — embora nunca de compreender totalmente — "as coisas ocultas para além do véu da aparência ou do alcance da razão". É papel do artista imaginativo "corporificar", como diz Shakespeare, essa verdade transcendente.

O livro se desdobra em três capítulos centrais: "Cristo e a Imaginação Artística", "Cristo e a Imaginação Moral" e "Cristo e a Imaginação Profética". Guite argumenta que "renovar nossa imaginação artística fortalece nossa imaginação moral e profética" — uma afirmação que transforma a arte em algo muito mais que entretenimento, tornando-a um ato de resistência contra a miopia moderna.

O Graal e o reencantamento do mundo.

Em Galahad and the GrailMerlin's IsleGuite aplica na prática o que teoriza em Lifting the Veil. Esta é uma "obra-prima" poética, "uma vida inteira em construção", que "re-encanta a lenda do Rei Artur para uma nova geração, restaurando seu poder e mistério originais".

O que torna esta obra tão significativa é sua recuperação do substrato cristão das histórias arturianas, que "foi removido" nas últimas décadas, "perdendo seus temas fundamentais, motivações mais profundas dos personagens e a própria potência das narrativas". Guite entrega "um conto de aventura em forma de balada que sonda as profundezas da alma humana, conduz os leitores através da Terra Devastada e os coloca nas margens numinosas de Faerie em todo seu mistério e significado".

Esta é uma literatura que não se furta ao sagrado, que reconhece que as grandes histórias sempre apontaram para algo além de si mesmas.

Por que O Senhor dos Anéis é mais que literatura.

É aqui que todos esses fios se entrelaçam. J.R.R. Tolkien, mencionado tanto por Shaw quanto por Guite como uma influência fundamental, compreendeu intuitivamente o que estes autores articulam teoricamente.

O Senhor dos Anéis é mais que literatura porque é um mito feito para a era moderna — uma "re-encantação do mundo" contra "as forças destrutivas da modernidade desenfreada". Tolkien não criou um mero conto de fantasia; ele construiu uma mitologia coesa, com sua própria cosmologia, história e geografia, que funciona como um antídoto para o que Shaw chama de "pobreza mítica".

A obra de Tolkien "incorpora muitas tradições literárias diferentes num plano simultâneo", mas, crucialmente, não recorre à ironia niilista que caracteriza tanto da literatura moderna. Em vez disso, oferece narrativas que exigem algo do leitor: coragem, lealdade, sacrifício, esperança. Como observa Patrick Curry, a "re-encantação do mundo" é "o remédio de Tolkien e o projeto implícito em sua mitologia literária".

O que Shaw chama de "histórias poderosas o suficiente para nos conduzir através das provações da vida" encontra em O Senhor dos Anéis sua expressão mais completa no século XX. O que Guite descreve como a capacidade da imaginação de "levantar o véu" e nos despertar "para a presença e verdade de Deus" está vividamente presente na Terra-média, onde o sagrado não é nomeado explicitamente, mas se faz sentir em cada nascer do sol em Valfenda, em cada momento de graça inesperada, em cada ato de bondade que parece pequeno mas move montanhas.

Conclusão: a liturgia do selvagem 

Shaw nos lembra que "o cristianismo muitas vezes esqueceu que é um sonho, para sua própria perdição". A fé que perde sua dimensão poética, que se torna prosaica e "arrumada demais", deixa de ser capaz de transformar vidas. O mesmo vale para a cultura como um todo. 

O convite que emerge desses livros é claro: precisamos recuperar as "liturgias do selvagem" — aquelas práticas e histórias que nos conectam com o mistério, que nos tiram do jardim domesticado da modernidade e nos devolvem à floresta onde podemos, finalmente, aprender a ser humanos. 

O Senhor dos Anéis é mais que literatura porque é uma dessas liturgias. Não é um manual teológico nem um tratado filosófico, mas uma história que, ao ser contada e recontada, nos transforma. Como toda grande mitologia, ela não nos diz o que pensar — nos ensina a ver. E num mundo que parece ter perdido a capacidade de enxergar o que está além do imediato, essa é talvez a mais urgente das habilidades.

 

 

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