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terça-feira, 14 de julho de 2026

A democracia sitiada: violência política e captura do Estado.




A violência política no Brasil atingiu níveis recordes. Entre novembro de 2022 e outubro de 2024, foram registrados 714 casos de violência contra candidatos e políticos em exercício — o maior número desde o início da série histórica, em 2016. Só em 2024, foram 558 ocorrências: 27 assassinatos, 129 atentados, 224 ameaças, 71 agressões físicas. A pesquisa da Justiça Global e da Terra de Direitos alerta que a naturalização da violência política e a omissão do Estado são parte do problema. Há ainda a proliferação de desinformação e a atuação do crime organizado no financiamento de campanhas e na intimidação de agentes políticos. Não se trata, portanto, de um problema localizado: a violência política é uma "chaga da democracia" que atinge partidos de todos os espectros em todas as regiões.

Paralelamente, a corrupção no Brasil atingiu sua pior posição histórica. Em 2024, o país ficou em 107º lugar entre 180 países no Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional, com 34 pontos — a pior nota e a pior colocação da série histórica iniciada em 2012. Há dez anos, o Brasil estava empatado com Grécia e Itália; hoje, com Argélia, Nepal e Tailândia. A Transparência Internacional alerta que o país está em um "estágio avançado" de captura do Estado pela corrupção, com o crime organizado ocupando espaço crescente nas instituições. Não é coincidência que 45% da população brasileira aponte a corrupção como o maior problema do país.

O jogo do voto: compra, fome e desigualdade

A compra de votos não é uma relíquia do passado. Nas eleições de 2024, a Polícia Federal investigou indícios de fraude em mais de 700 municípios. Em cidades pequenas e médias, candidatos ofereceram dinheiro, cargos públicos e benefícios para convencer eleitores a transferir o título eleitoral. Em Davinópolis (GO), o número de eleitores registrados (4.405) era mais que o dobro da população total do município. A fraude, que já ocorreu em eleições anteriores, pode ter sido decisiva na definição de resultados. Como observou a presidenta nacional do PT, "democracia se constrói, acima de tudo, com transparência e honestidade" — mas o sistema eleitoral brasileiro ainda é permeável a essas práticas.

E por que a compra de votos persiste? A resposta está na pobreza. Como aponta o Nexo Jornal, "é por causa da pobreza que a prática existe em certas partes do país". A fome e a vulnerabilidade transformam o voto em moeda de troca por sobrevivência. O dado é estarrecedor: entre 2023 e 2024, 26,5 milhões de pessoas deixaram a situação de fome no Brasil, e o país voltou a sair do Mapa da Fome da ONU em 2025. Isso significa que, até pouco tempo atrás, dezenas de milhões de brasileiros viviam em insegurança alimentar grave — e muitos ainda vivem.

A desigualdade que define quem vive ou morre

O Brasil é o segundo país com a maior diferença de renda entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres entre quarenta países da OCDE, atrás apenas da Costa Rica. Em 2025, o 1% mais rico do país recebeu, em média, 30,5 vezes mais do que os 50% mais pobres. Nas metrópoles, o coeficiente de Gini atingiu 0,511 em 2025 — um nível "muito alto" de concentração de renda. Os 10% mais ricos receberam 16,1 vezes mais que os 40% mais pobres. E o crescimento da renda, embora tenha ocorrido para todos os grupos, foi proporcionalmente maior entre os estratos mais elevados.

Essa desigualdade não é apenas econômica — é existencial. Ela define quem tem acesso à saúde, à educação, à segurança e à alimentação. Ela determina quem vive e quem morre. Como sempre digo, a justiça social "tem mais poder que a política porque ela define quem vive ou morre". A fome, a violência e a exclusão são as faces mais cruéis de uma democracia que ainda não conseguiu distribuir dignidade.

O que explica essa persistência?

Acadêmicos e pesquisadores têm se debruçado sobre essa questão. O livro "O desenho constitucional da desigualdade" (Antônio Moreira Maués, 2023) investiga como a ordem constitucional de 1988 lidou — e falhou em lidar — com as desigualdades estruturais do país. A obra "Desigualdade e Democracia no Brasil" (Gabriel Antônio Nassif Marx) analisa como a desigualdade é resultado de "complexas relações econômicas, políticas e sociais" que se reproduzem na modernidade. O Relatório da Democracia 2025, do V-Dem (Variedades de Democracia), alerta para 25 anos de autocratização global — e o Brasil não está imune a essa tendência. O relatório do PNUD sobre "Estado, Democracia e Desigualdades na América Latina e no Caribe" aponta que a insegurança, a corrupção e as "limitações persistentes" na cobertura de políticas públicas são desafios centrais.

Conclusão: para além do jogo 

A democracia brasileira não é uma farsa — mas é uma democracia incompleta, sitiada e profundamente desigual. Ela funciona para alguns e falha para muitos. O jogo da política, muitas vezes, se reduz a voto comprado, oligarquias e elites criminosas. Mas o potencial de cada um de nós — não se esgota nesse jogo. 

A saída não está em negar a política, mas em reinventá-la: em construir uma democracia que não seja apenas formal, mas substantiva; que não se limite ao voto, mas se estenda à participação, à transparência e à justiça social. Enquanto a fome depender do voto, e não do direito, enquanto a violência política for naturalizada e a corrupção for capturar o Estado, a democracia brasileira continuará sendo, para milhões, apenas uma promessa não cumprida. 

Holland é "apenas uma criança que deu certo na Noruega" — e nossos craques são "o que conseguiram se salvar". O desafio é fazer com que todos possam se salvar, não por sorte ou privilégio, mas por justiça. E isso exige muito mais do que eleições: exige um projeto de país que coloque a vida, a dignidade e a igualdade no centro da política. 

 

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