SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

CARTA DE UM IDEALISTA CONTRA A MÁFIA OLIGÁRQUICA E A DITADURA DA CORRUPÇÃO. Por Egidio Guerra




Aos Senhores do poder transitório, vós que vos assentais em tronos de papel-moeda e ostentais cetros forjados na fraqueza da alma, dirijo-vos esta carta não como súplica, mas como sentença. Não venho das fileiras do medo; venho da trincheira da ideia, onde a inteligência é a única pólvora que não se corrompe.

A vossa tese é a da servidão voluntária. Acreditais, como Maquiavel advertiu aos ingênuos, que o príncipe deve ser temido; porém, esquecestes o corolário trágico: o temor que não gera amor gera o ódio silencioso, e o ódio silencioso é o carpinteiro da vossa própria guilhotina. Afirmais que o talento e as ideias nascem da submissão, mas isso é a maior das falácias. A submissão não pariu um Sócrates, nem uma Arendt, nem um Dostoiévski. Pelo contrário, da opressão e da perseguição emerge o mal radical, na acepção kantiana – um mal que não busca razão, mas a aniquilação do outro por puro gozo de poder. E desse mal, senhores, só brotam poderes incompetentes, porque a corrupção é estéril; poderes improdutivos, porque a violência não constrói catedrais, apenas escombros; poderes vazios, porque, como bem define a Cabala, vós sois as Kelipot – as cascas quebradas, os invólucros sem fruto, que só existem para sufocar a luz divina, mas que, sem o núcleo, apodrecem na própria putrefação.

Vós precisais desesperadamente da opressão, da perseguição e da ditadura. Elas são o vosso oxigênio. Como o Leviatã de Hobbes descontrolado, precisais do estado de guerra perpétua para justificar a vossa existência parasitária. A corrupção é a vossa teologia; a mordaça, o vosso sacramento. No entanto, há uma verdade que o vosso dinheiro não compra e que a vossa polícia política não apaga: a História. Ela é o tribunal de Heráclito, onde tudo flui, mas a justiça é a lógica imanente. Não pagais a verdade, porque a verdade – a Aletheia grega, o desvelamento – é imaterial. Por mais que rasguem os arquivos, como fizeram os nazistas ou os stalinistas, a ideia é fênix; ela renasce das cinzas do arquivo queimado. George Orwell profetizou que quem controla o passado controla o futuro, mas esqueceu-se de que a memória é um músculo transcendental; quanto mais a esmagam, mais ela se fortalece no espírito dos justos.

E é aí que reside a nossa vitória, que não será tática, mas ontológica. A vossa violência nos impõe sofrimentos, medos, perda de saúde e luto. Contudo, nesse cadinho infernal, opera-se a mais divina das alquimias. Viktor Frankl, sobrevivente do campo da morte, ensinou que entre o estímulo e a resposta há um espaço; nesse espaço está o nosso poder de escolher a atitude. A vossa masmorra não nos diminui; concentra-nos. A perseguição aguça a nossa espiritualidade, porque, como Jó na Bíblia, aprendemos que a fé que resiste à perda de tudo é a única que toca o Eterno. O medo, quando enfrentado, transmuta-se em coragem; a perda da saúde, em sabedoria sobre a fragilidade da carne e a eternidade do espírito. O amor, que vós julgais fraqueza, é a força que une os resistentes, a Ágape que, como ensinou Paulo, tudo sofre, mas tudo vence, porque não busca os seus próprios interesses.

É essa inteligência forjada na dor que nos dará a guerra. Não a guerra de trincheiras que vós conheceis, mas a guerra das ideias, a Paideia profunda. Como Sócrates, que bebeu a cicuta por não se submeter à ignorância dos poderosos, a nossa inteligência é dialógica, freiriana – nasce da consciência crítica do oprimido. A arte, essa subversiva, pinta a realidade que vós escondeis; a literatura, como a de Camus em A Peste, mostra que o mal é uma quarentena, mas a solidariedade humana é a vacina. A vossa inteligência é maquiavélica no pior sentido – cálculo mesquinho e instrumental. A nossa inteligência é poética, especulativa, hegeliana – busca a síntese que dissolve a vossa tese do terror.

Honramos, com esta carta, os milhões de vítimas que jazem nas valas comuns da vossa ditadura. Esta guerra já dura mais tempo que a sombra de Castro, que o êxodo de Cuba, que o labirinto venezuelano. Mas a duração não vos torna eternos; torna-vos, isso sim, obsoletos. O Faraó do Êxodo também achou que seu poder era perpétuo, mas o Mar Vermelho abriu-se diante da fé de um povo. A vossa oligarquia é a repetição histérica do mesmo erro trágico; sois pródigos do crime, mas avarentos da inteligência.

Por fim, saibam: a vitória não será vossa. Podereis prender corpos, mas não as ideias; podereis calar vozes, mas não o eco da história. A nossa resistência é o Tikkun – o reparo do mundo, a centelha divina que vós, cavadores de trevas, jamais conseguireis apagar. A corrupção é a vossa ética; a verdade, a nossa. A opressão é a vossa ferramenta; a sabedoria, a nossa. E a sabedoria, senhores, é a única força que transforma o medo em amor, a morte em vida, e a ditadura em pó sobre a página da história que os ventos do tempo varrerão sem piedade.

Resistimos. Logo, existimos. E existiremos quando o vosso nome for apenas uma nota de rodapé amaldiçoada na memória dos livres.

Com a fúria da razão e a serenidade da alma,

O Idealista.

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