Em 2026, o Brasil segue sendo um laboratório complexo e dramático dos desafios de uma nação de industrialização tardia. Nossa modernidade econômica, construída a fogo lento ao longo do século XX, não foi acompanhada por uma revolução social equivalente. Vivemos, assim, uma contradição permanente: somos uma das maiores economias do mundo, assentada sobre um dos alicerces mais desiguais do planeta. Para entender os impasses atuais – a crise fiscal, a insegurança alimentar, a violência urbana e rural, a desindustrialização precoce e a polarização política – é preciso mergulhar nas camadas geológicas de nossa história, e contrastar nosso percurso com os das grandes transformações globais.
As Marcas Fundadoras: Escravidão e Desigualdade
Enquanto a Revolução Industrial inglesa (século XVIII) e as independências americana e francesa forjavam, com todas suas contradições, ideais de direitos universais e cidadania burguesa, o Brasil consolidava sua economia como um arquipélago de plantations escravistas. A abolição de 1888, tardia e sem reparação, não foi uma revolução social como a Haitiana ou a russa (1917), que buscaram demolir estruturas de classe. Pelo contrário, transformou a mão de obra negra em uma massa de despossuídos, lançada à marginalidade. Zumbi dos Palmares, hoje um símbolo de resistência, representa justamente a luta contra essa ordem excludente que se reconfigurou, mas nunca foi superada.
A Resistência Popular e a Violência das Elites: De Canudos aos Golpes
A repressão brutal a Canudos (1896-97) é um marco dessa violência oligárquica. A “Guerra” contra uma comunidade autônoma de camponeses pobres revelou o pânico das elites a qualquer projeto de organização popular que desafiasse seu domínio. Esse padrão se repetiu ao longo do século XX e XXI: os golpes militares de 1964 e os impeachments com características de golpe parlamentar contra presidentes eleitos, como Dilma Rousseff (2016) e a intensa campanha contra Lula, refletem o mesmo mecanismo. São, na essência, reações violentas das elites e de setores das classes médias tradicionais a avanços – ainda que limitados – de democratização política, econômica e social. A eleição e tentativa de desestabilização de Jair Bolsonaro (2018-2022) inserem-se nessa dinâmica, acionando o autoritarismo como ferramenta para preservar privilégios.
Projetos de Desenvolvimento e Cidadania: Vargas e Lula
Nesse terreno movediço, tentativas de construir um capitalismo com cidadania foram protagonizadas por Getúlio Vargas e, mais tarde, por Lula. Vargas, nos anos 1930-50, impulsionou a industrialização por substituição de importações e criou as bases da legislação trabalhista, uma “revolução passiva” à brasileira, que concedeu direitos de cima para baixo, sem uma ruptura revolucionária como a Chinesa (1949). Lula, no século XXI, em um contexto democrático, combinou estabilidade macroeconômica com distribuição de renda (Bolsa Família, valorização do salário mínimo) e ampliação do acesso ao ensino superior. Seu governo representou o mais bem-sucedido projeto de inclusão social sem reformas estruturais radicais. Ambos, porém, esbarraram nos limites do pacto de poder: a herança colonial e a resistência feroz das elites à tributação progressiva e a reformas (agrária, urbana, política) que democratizassem de fato o poder.
O Contraste com Outras Trajetórias: Revoluções e Guerras
Aqui reside uma diferença crucial com outras nações. Países como França, EUA ou Rússia passaram por revoluções burguesas ou socialistas que, de formas violentas e traumáticas, quebraram – ao menos temporariamente – o poder das aristocracias antigas. As guerras mundiais, por sua vez, forçaram rearranjos profundos e, na Europa Ocidental, abriram caminho para estados de bem-estar social. Na África, os processos de descolonização foram lutas anticoloniais que buscaram refundar Estados. O Brasil nunca passou por uma ruptura dessas. Nossa transição da colônia para o império, e depois para a república, foi feita pelas mãos das próprias elites, que preservaram seus privilégios. A “conciliação” foi sempre nossa palavra de ordem, e a violência, uma ferramenta reservada para quando a conciliação falhava.
Os Desafios de 2026: Democratizar em Tempos de Crise
Em 2026, portanto, nossos desafios são os mesmos, agravados pela crise climática, pela desglobalização e pela revolução tecnológica:
Democratizar a Renda: Exige uma reforma tributária profunda e verdadeiramente progressiva. Taxar grandes fortunas, heranças e lucros e dividendos não é “vingança”, mas um imperativo histórico de justiça e uma necessidade econômica para financiar serviços públicos. É o caminho oposto ao da perpetuação dos privilégios históricos.
Democratizar as Políticas Públicas: Significa garantir saúde, educação e transporte de qualidade como direitos universais, não como mercadorias ou favores. É enfrentar o lobby poderoso do setor privado que se alimenta da degradação do público.
Democratizar as Oportunidades: Passa por um projeto nacional de educação, ciência e tecnologia, e por políticas afirmativas robustas para negros, indígenas e pobres, reparando séculos de exclusão.
Confrontar as Oligarquias e a Violência: Requer fortalecimento das instituições democráticas, justiça independente, reforma política que enfraqueça o poder do dinheiro e controle efetivo sobre as milícias e o agronegócio predatório. É defender a memória de Canudos e a luta de Zumbi não como folclore, mas como inspiração para a organização popular não-violenta e para a resistência legal.
O caminho brasileiro para um desenvolvimento com cidadania plena não será uma réplica das revoluções sangrentas do passado global. Mas também não poderá ser a eterna “conciliação” que só beneficia os de sempre. Será, necessariamente, uma luta política intensa, dentro das instituições e nas ruas, para realizar, por meio da democracia radical e da justiça social, a revolução que nunca tivemos: a de transformar crescimento econômico em civilização, e riqueza nacional em bem-estar para todo o seu povo. A história nos mostra os obstáculos. Cabe a nós, em 2026, mostrar que aprendemos com ela.
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