Os livros “Vozes do Bolsa Família” (2013) e “Vidas Roubadas” (2025), da dupla de filósofos e cientistas políticos Alessandro Pinzani e Walquiria Leão Rego, constituem trabalhos fundamentais para compreender a realidade social brasileira a partir das narrativas dos mais pobres. Através de entrevistas e uma escuta atenta, os autores dão rosto e voz aos beneficiários do maior programa de transferência de renda do mundo, expondo não apenas a luta pela sobrevivência, mas também a busca por dignidade, reconhecimento e cidadania.
Em “Vozes do Bolsa Família”, fica claro que o programa foi uma âncora de sobrevivência, evitando a fome extrema e permitindo um mínimo de planejamento doméstico. Já em “Vidas Roubadas”, o foco se aprofunda na ideia de que a pobreza no Brasil é um processo ativo de espoliação de capacidades e futuros. Não se trata apenas da falta de recursos, mas da negação sistemática de oportunidades, confinando gerações a uma existência reduzida à mera subsistência ou à vulnerabilidade frente a violências de todo tipo.
Para dimensionar o “roubo” de vidas descrito por Pinzani e Rego, é essencial contrastar os indicadores brasileiros com os de países desenvolvidos ou com elevado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), onde políticas públicas robustas garantem patamares mínimos de existência digna:
Renda e Pobreza: Após o desmonte de políticas sociais e a pandemia, a fome retornou ao Brasil. Em 2023, o IBGE apontava que 62 milhões de brasileiros (29% da população) viviam na pobreza, e 18 milhões na extrema pobreza. Enquanto isso, em países como Dinamarca, Finlândia ou Alemanha, a extrema pobreza é praticamente inexistente, graças a redes de proteção social universais e salários mínimos que realmente garantem condições de vida. A renda básica, tema caro a Pinzani, é uma realidade experimental ou debatida nesses países; no Brasil, o Bolsa Família (agora Auxílio Brasil), mesmo vital, é uma política focalizada e de valor insuficiente para superar a pobreza.
Escolaridade: O Brasil possui uma das piores médias de anos de estudo e desempenho no PISA entre os países da OCDE. A evasão escolar, especialmente no ensino médio, está frequentemente atrelada à necessidade de trabalho precoce ou à falta de perspectivas. Em nações como Coreia do Sul ou Canadá, a educação pública de qualidade é um pilar incontestável, um verdadeiro equalizador social. No Brasil, a educação ainda reproduz desigualdades.
Saúde: O SUS, apesar de ser uma conquista civilizatória, sofre com subfinanciamento crônico. A mortalidade infantil (11,9 por mil nascidos vivos em 2022, segundo a OPAS) é mais que o dobro da média da União Europeia (3,8). A expectativa de vida no Brasil (cerca de 76 anos) está estagnada e é inferior em mais de 5 anos à de países como Japão, Suíça ou Itália. O acesso a especialistas e a tratamentos complexos é um abismo separando ricos e pobres.
Condições de Moradia: O déficit habitacional brasileiro é de milhões de lares, com quase 6 milhões de famílias vivendo em aglomerados subnormais (favelas), sem acesso adequado a saneamento. Em 2022, cerca de 40% da população não tinha coleta de esgoto, e o índice de tratamento era ainda pior. Em contraste, países como Holanda ou Singapura praticamente erradicaram a moradia indigna e garantem saneamento universal como direito básico.
Violência e Segurança: Este é o ponto onde a metáfora das “vidas roubadas” se torna mais literal. O Atlas da Violência (IPEA/FBSP) revela anualmente o caráter epidêmico e seletivo da violência no Brasil. Homens, jovens, negros e pobres são as principais vítimas de homicídios. A taxa de homicídios brasileira (cerca de 22 por 100 mil hab.) é um múltiplo assustador da observada na Europa (em média abaixo de 1,5). Jovens são “entregues para morrer” no crime ou nas mãos do Estado, num ciclo perverso que ceifa futuros.
É nesta encruzilhada de privações e violências que a análise de Walter Maierovitch em “O Mercado da Morte: As Milícias, o PCC e a Guerra no Brasil” (2022) se torna a peça final e conclusiva deste quadro terrível. Maierovitch, ex-secretário nacional de Justiça, demonstra como a corrupção sistêmica, a inoperância do Estado e a brutal desigualdade criaram o ecossistema perfeito para o florescimento de um verdadeiro “mercado da morte”. Neste mercado, transaciona-se com vidas, territórios, armas, drogas e influência política. A violência não é um acidente, mas um negócio, alimentado pela exclusão social descrita por Pinzani e Rego.
Conclusão:
A obra de Pinzani e Rego nos mostra o rosto humano da desigualdade: vidas cujos potenciais são roubados pela privação. Os dados sociais comparativos com outros países evidenciam o abismo civilizatório que separa o Brasil de nações onde a dignidade humana é um pilar da sociedade. E a análise de Maierovitch e o Atlas da Violência expõem a máquina mortal que opera neste vácuo de direitos: um complexo mercado onde a corrupção, a ganância e a negligência do Estado convertem a desigualdade em lucro e a exclusão em morte.
O Brasil, portanto, não é apenas um país de desigualdades. É, nas palavras de Maierovitch e na síntese dos dados aqui apresentados, o “Mercado da Morte”. Um mercado onde a vida dos pobres é a principal commodity, seja pela lenta morte da fome, da doença tratável ou da falta de futuro, seja pela morte rápida e violenta do homicídio. As “vidas roubadas” são o insumo deste mercado. A brutal desigualdade é sua condição de existência. A corrupção é seu lubrificante. Até que esse circuito perverso seja rompido por um projeto nacional de inclusão, justiça e efetivo Estado de Direito, continuaremos a assistir passivamente ao maior e mais cruel dos roubos: o do direito básico de existir com dignidade.
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