SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 5 de maio de 2026

"O que significa estar presente?"



¡Presente! The Politics of Presence é um livro da acadêmica Diana Taylor, publicado em 2020 pela Duke University Press, integrando a série Dissident Acts. Taylor é University Professor e Professora de Performance Studies e Espanhol na New York University (NYU), além de ter sido diretora fundadora do Hemispheric Institute of Performance and Politics . 

A obra parte de uma pergunta aparentemente simples – "O que significa estar presente?" – para desenvolver uma teoria complexa que conecta performance, ética, ativismo político e produção de conhecimento . 

 Estrutura e Organização 

O livro está organizado em nove capítulos, além de prólogo e epílogo: 

  1. ¡Presente! 

  1. Enacting Refusal: Political Animatives 

  1. Camino Largo: The Zapatistas' Long Road Toward Autonomy 

  1. Making Presence 

  1. Traumatic Memes 

  1. We Have Always Been Queer 

  1. Tortuous Routes: Four Walks Through Villa Grimaldi 

  1. Dead Capital 

  1. The Decision Dilemma  

 

Conceitos Fundamentais 

1. A Dupla Natureza de "Presente" 

Taylor explora a riqueza semântica da palavra "presente", observando que em inglês e espanhol ela opera simultaneamente como singular e plural. Inspirada na formulação de Jean-Luc Nancy sobre o being singular plural (ser singular plural), a autora investiga como a presença está imbricada nas questões de formação do sujeito e da coletividade . 

2. Presença como Comando Ético e Produção de Conhecimento 

Diferentemente de uma noção abstrata de presença, Taylor a define como: 

  • Um comando ético: a obrigação de se posicionar ao lado daqueles que sofreram violências históricas e contínuas 

  • Produção performativa de conhecimento: saber que está intrinsecamente ligado ao fazer, à ação  

3. Epistemicídio e a Colonialidade do Saber 

Um dos pilares da argumentação de Taylor é o conceito de epistemicídio – o aniquilamento sistemático dos modos de conhecimento indígenas, nativos e africanos promovido pelo projeto colonial. Para ela, este processo está no centro da dinâmica presença/ausência que constituiu as Américas. Os povos colonizados não emergem como sujeitos, mas como objetos subjugados, racializados e destituídos de agência epistemológica . 

4. ¡Presente! como Modo Decolonial 

Como resposta ao epistemicídio, Taylor situa o ¡Presente! como: 

  • Um modo performativo e decolonial de produção de conhecimento que descentra as tradições do Iluminismo europeu 

  • Uma prática que leva a sério as temporalidades e epistemologias indígenas, nativas e africanas  

5. A "Estratégia Peripatética" 

Taylor cunha o termo "estratégia peripatética" para descrever sua metodologia – um conhecimento que vincula saber à ação, enfatizando o movimento no aprendizado. Não se trata de "colher" conhecimento como um objeto pronto, mas de um processo de ser, conhecer e agir com outros . 

 

Estudos de Caso e Cenários Analisados 

Taylor aplica sua teoria do ¡Presente! a diversos contextos históricos e geográficos : 

Cenário 

Foco da Análise 

Conquista colonial (Colombo e Espanha) 

O "vir à presença" dos latino-americanos como objetos subjugados pela racialização colonial 

Protestos estudantis de Maio de 1968 

A performance da presença coletiva como ato de recusa política 

Autonomia Zapatista 

O "caminho longo" (camino largo) dos Zapatistas como modelo de construção de presença política autônoma 

43 estudantes desaparecidos de Ayotzinapa 

A presença da ausência e as lutas por justiça no México contemporâneo 

Histórias queer do México 

A reivindicação de "sempre termos sido queer" como presença histórica dissidente 

Centros de tortura da ditadura de Pinochet (Villa Grimaldi) 

"Quatro caminhadas" pela memória e a performance do testemunho traumático 

 

Temas Transversais 

  • Trauma e Memória: Taylor examina como memes traumáticos (no sentido de unidades de transmissão cultural) perpetuam ou contestam narrativas hegemônicas  

  • Recusa (Refusal): A ação política negativa – recusar-se a desaparecer, recusar o confinamento, recusar a morte civil – como forma potente de presença  

  • Capital Morto (Dead Capital): Análise das vidas que foram transformadas em capital morto pelos sistemas de extração capitalista e violência estatal  

  • Coletividade: O ¡Presente! não é um ato individualista, mas uma "caminhada e conversa com outros", fundada no reconhecimento mútuo  

 

Conclusão e Contribuições da Obra 

Taylor conclui que o ¡Presente! é mais do que uma palavra de chamada ou um grito de protesto – é uma teoria, uma metodologia e uma prática que exige: 

  1. Repensar e desaprender as epistemologias coloniais que moldaram nossa compreensão de presença, sujeito e conhecimento  

  1. Reconhecer que estar presente é um compromisso ético, corporal e performativo com aqueles que foram sistematicamente tornados ausentes pela história 

  1. Modelar uma nova forma de fazer academia: o trabalho intelectual não pode permanecer distante das lutas políticas; a própria pesquisa deve estar presente nos conflitos de seu tempo  

O livro interessa a estudiosos e estudantes de performance studies, estudos latino-americanos, estudos étnicos críticos, teoria decolonial, estudos queer e epistemologia social . 

 

Sobre a Autora 

Diana Taylor é uma figura central nos estudos de performance das Américas. Suas obras anteriores incluem The Archive and the Repertoire: Performing Cultural Memory in the Americas e Disappearing Acts: Spectacles of Gender and Nationalism in Argentina's "Dirty War". Em 2018, foi eleita para a Academia Americana de Artes e Ciências . 

 

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