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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Elas começam a ser construídas muito antes, nas experiências iniciais das crianças com números, quantidades, linguagem, atenção e interação com os adultos.


 Esta não é uma pergunta simples de responder, mas recentemente li um artigo que me ajudou a pensar melhor sobre ela e a olhar para a aprendizagem matemática sob um ponto que, muitas vezes, fica fora do debate público: a primeira infância.


O artigo é de autoria do professor Naercio Menezes Filho e foi publicado no dia 22/5/26 no jornal Valor Econômico.
O artigo usa dados recentes de uma pesquisa da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) para mostrar que as dificuldades em matemática não surgem de forma repentina. Elas começam a ser construídas muito antes, nas experiências iniciais das crianças com números, quantidades, linguagem, atenção e interação com os adultos.

Por que a matemática é tão difícil para os alunos?Ademar Celedônio G. Jr


Por que a matemática é tão difícil para os alunos?

Esta não é uma pergunta simples de responder, mas recentemente li um artigo que me ajudou a pensar melhor sobre ela e a olhar para a aprendizagem matemática sob um ponto que, muitas vezes, fica fora do debate público: a primeira infância. O artigo é de autoria do professor Naercio Menezes Filho e foi publicado no dia 22/5/26 no jornal Valor Econômico.

O artigo usa dados recentes de uma pesquisa da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) para mostrar que as dificuldades em matemática não surgem de forma repentina. Elas começam a ser construídas muito antes, nas experiências iniciais das crianças com números, quantidades, linguagem, atenção e interação com os adultos.

Se aos 15 anos os alunos ainda demonstram dificuldade para resolver problemas, interpretar situações quantitativas e aplicar conhecimentos matemáticos a contextos reais, é provável que parte dessa dificuldade tenha origem nas experiências iniciais de aprendizagem: observar padrões, comparar grandezas, organizar sequências, lidar com quantidades e sustentar atenção diante de uma tarefa.

Quando essa base não se consolida cedo, a criança tende a avançar na escolarização carregando lacunas que se tornam cada vez mais difíceis de superar - e os problemas vão além de “dificuldade com números”, chegando a funções executivas, como atenção, memória de trabalho, controle de impulsos, planejamento e persistência.

Uma criança que chega aos anos finais da escolarização sem essas habilidades bem desenvolvidas têm dificuldades que vão além do conteúdo. São também de raciocínio, foco, autonomia e transferência do que aprendeu para situações novas.

A lacuna e a desigualdade no Brasil

Os dados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) reforçam essa leitura. Em 2022, os estudantes brasileiros de 15 anos ficaram abaixo da média da OCDE em matemática, leitura e ciências. No caso específico da matemática, o resultado brasileiro permaneceu em patamar baixo e praticamente estável em relação a 2018, repetindo um quadro de dificuldade persistente ao longo dos anos.

Ou seja: o problema brasileiro não parece ser apenas uma oscilação pontual, mas um padrão estrutural, uma dificuldade que atravessa etapas, redes, territórios e gerações de estudantes.

A desigualdade também aparece forte. O artigo mostra diferenças de aprendizagem entre crianças mais ricas e mais pobres já na primeira infância - e o Pisa confirma esses dados.

No Brasil, uma proporção menor de estudantes alcança níveis mínimos de proficiência nas áreas avaliadas quando comparada à média dos países da OCDE, e também há menos estudantes nos níveis mais altos de desempenho.

Isso revela que as oportunidades de aprendizagem são muito desiguais desde cedo e que essas diferenças tendem a se acumular ao longo da trajetória escolar.

Participação das famílias

Um ponto especialmente sensível do texto é a participação das famílias no desenvolvimento das crianças. O artigo lembra que apenas 14% dos pais brasileiros leem livros para seus filhos pelo menos três dias na semana, enquanto a média nos demais países é de 54%.

Esse dado é muito relevante, porque a leitura na primeira infância não desenvolve apenas vocabulário ou imaginação. Ela amplia repertório, fortalece vínculos, melhora atenção,

estimula a escuta, organiza a linguagem e favorece a construção de raciocínios mais complexos. Tudo isso também importa para a matemática.

Uso do celular

O uso cotidiano de celular, citado no artigo, também interfere. A questão não é tratar a tecnologia como vilã, mas perceber que tempo excessivo de tela pode substituir experiências essenciais para o desenvolvimento infantil: conversa, leitura compartilhada, brincadeiras simbólicas, manipulação de objetos, jogos, exploração do espaço e interação com adultos.

São experiências simples, mas decisivas para formar linguagem, atenção, memória, curiosidade e pensamento lógico.

O que fazer?

As análises indicam que melhorar o desempenho brasileiro em matemática não depende apenas de intervenções no fim da trajetória escolar. É preciso começar antes.

A matemática da primeira infância não deve ser entendida como antecipação de conteúdos formais, mas como criação de experiências que ajudem a criança a perceber relações, quantidades, regularidades, formas, sequências e problemas do cotidiano.

Em síntese, o Pisa mostra o resultado final de uma trajetória; o artigo do professor Naercio Menezes Filho ajuda a iluminar o começo dela. Quando o Brasil aparece com baixo desempenho em matemática aos 15 anos, parte da explicação pode estar em oportunidades insuficientes de desenvolvimento matemático, cognitivo e socioemocional nos primeiros anos de vida.

Por isso, falar de matemática na primeira infância é falar de equidade, de aprendizagem futura e de uma política educacional que precisa começar muito antes da adolescência.

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