Sobre a Obra e seus Autores
"The Fantastic Gustave Doré" é uma obra organizada por Alix Paré e Valérie Sueur-Hermel que se propõe a explorar a dimensão fantástica e imaginativa do trabalho do artista francês Gustave Doré (1832-1883). O livro insere-se em um contexto mais amplo de redescoberta crítica do artista, que inclui exposições de grande porte como "Gustave Doré: Master of Imagination" (Musée d'Orsay, 2014).
A escolha dos adjetivos "Fantastic" no título não é casual: remete tanto à natureza extraordinária das imagens criadas por Doré quanto à sua capacidade de dar forma visual ao fantástico literário – um gênero que floresceu no século XIX e encontrou no ilustrador seu intérprete máximo.
A Ambição Trágica do Artista
Um dos temas centrais do livro parece ser a tensão entre a genialidade de Doré como ilustrador e seu desejo não realizado de ser reconhecido como pintor de história. A obra cita ou ecoa a famosa autodescrição do artista: "G. Doré... Too many illustrations, not enough glory" (muitas ilustrações, glória insuficiente). Esta frase, que o artista inscreveu em um autorretrato com coroa de louros, resume a melancolia que perpassa sua trajetória.
Os organizadores demonstram que, embora Doré fosse um prodígio – contratado aos 15 anos pelo "Journal pour rire" e criador de proto-histórias em quadrinhos ainda na adolescência –, a França do século XIX o colocou em uma "caixa". A ilustração era vista como um gênero menor em relação à pintura, e essa hierarquia artística causou-lhe profundo sofrimento.
A Criação de Paisagens da Mente
Paré e Sueur-Hermel enfatizam que o "fantástico" em Doré não reside apenas em monstros ou demônios, mas em sua capacidade de construir "landscapes of the mind" (paisagens da mente). Ao contrário dos impressionistas, que pintavam ao ar livre buscando capturar a luz natural, Doré olhava para trás – para o folclore, a arquitetura gótica e as florestas primevas da infância em Estrasburgo.
As ilustrações para os "Contos de Perrault" são paradigmáticas: a floresta não é apenas um cenário, mas "a catalyst, a place of mystery and danger" (um catalisador, um lugar de mistério e perigo). Doré transforma o espaço físico em experiência psicológica.
Críticas e Debates Apresentados
A Tensão entre Realismo e Teatralidade
O livro não esconde as controvérsias que a obra de Doré gerou. Um dos pontos altos da crítica negativa veio de Émile Zola, que descreveu o trabalho de Doré para a Bíblia como "overwrought theatricality with 'no resemblance to life as we know it'" (teatralidade exagerada, sem semelhança com a vida como a conhecemos).
Críticos ingleses do "London: A Pilgrimage" (1872) foram ainda mais duros, acusando Doré de "inventing rather than copying" (inventar em vez de copiar) e de focar excessivamente na pobreza e na degradação. Para "The Art Journal", Doré apresentava "os aspectos mais comuns e vulgares". Essa tensão entre a imaginação romântica e a expectativa de representação fiel da realidade é um eixo estruturante da análise da obra.
O Gênio Inclassificável
Os autores argumentam que a dificuldade de categorizar Doré contribuiu para seu ostracismo póstumo. A historiadora Paul Lang, citada no livro, afirma que "ultimately he reminds us that we do not yet have a complex enough understanding of the period" (ele nos lembra que ainda não temos uma compreensão suficientemente complexa do período).
Doré não era impressionista, nem simbolista, nem naturalista – era, antes de tudo, um "mestre da narrativa visual dramática". O livro mostra como essa originalidade, em vez de ser celebrada, o tornou um "outsider" dentro do sistema de arte francês.
O Fantástico Através das Grandes Obras
"Inferno" de Dante (1861)
O divisor de águas na carreira de Doré. Autofinanciado por falta de editores interessados, o livro solidificou sua reputação. As imagens do "bosque sombrio" e dos condenados estabeleceram um vocabulário visual para o inferno que perdura até hoje no cinema e nos games. A obra argumenta que Doré não ilustrou Dante – ele o recriou em termos visuais.
"London: A Pilgrimage" (1872)
Talvez o exemplo mais puro de "fantástico social". Doré transforma a Londres vitoriana em uma paisagem gótica e opressiva. As gravuras de cortiços ("Whitechapel") e ferrovias elevadas não são documentos realistas, mas visões subjetivas da modernidade como um pesadelo. O livro demonstra como essas imagens influenciaram diretamente artistas russos como Mstislav Dobuzhinsky e Anna Ostroumova-Lebedeva.
Os Contos de Perrault
Paré e Sueur-Hermel dedicam especial atenção à faceta "fantástico infantil" de Doré. Ao contrário das versões açucaradas da Disney, Doré manteve a violência e a estranheza originais dos contos de fadas. A Chapeuzinho Vermelho de Doré está sozinha em um bosque opressivo, e o Gato de Botas habita um mundo de arquitetura gótica e escalas distorcidas.
Influências: Quem Veio Antes
A Arquitetura Gótica da Catedral de Estrasburgo
Nascido em Estrasburgo, Doré cresceu diante de uma das catedrais góticas mais impressionantes da Europa. O livro explora como a verticalidade, a luz filtrada pelos vitrais e as gárgulas grotescas da catedral se tornaram o vocabulário arquitetônico de seu fantástico. A restauração gótica promovida por Viollet-le-Duc e o romance "O Corcunda de Notre-Dame" de Victor Hugo criaram o clima cultural para que Doré desenvolvesse essa estética.
Piranesi e a Ruína
As gravuras de Giovanni Battista Piranesi, especialmente suas "Cárcere" e ruínas romanas, são uma influência fundamental. A capacidade de Piranesi de preencher uma cena com detalhes sem perder a profundidade e o controle do claro-escuro é uma técnica que Doré domina e expande. A diferença: onde Piranesi mostra a ruína da pedra, Doré mostra a ruína da alma.
Legado: O Fantástico Depois de Doré
O aspecto mais impressionante documentado no livro é a profundidade do impacto de Doré na cultura visual contemporânea. Diferente de outros artistas do século XIX, cuja influência se restringe aos museus, Doré moldou a linguagem do cinema, dos quadrinhos e da animação.
Cinema: De King Kong a Tim Burton
A obra dedica uma seção significativa à relação entre Doré e o cinema. O caso mais emblemático é "King Kong" (1933). O diretor de efeitos especiais Willis O'Brien instruiu sua equipe: "if there is one man's work that can be taken as the cinematographer's text, it is that of Doré" (se há um trabalho que pode ser tomado como texto do cinematografista, é o de Doré).
As clareiras da Ilha da Caveira foram diretamente inspiradas em "A Primeira Abordagem da Serpente" (Paraíso Perdido) e "Dante no Bosque Sombrio" (Divina Comédia). A cena em que Kong observa seu domínio do alto da montanha ecoa "Satanás Observando o Paraíso".
O livro também cita:
Jean Cocteau ("A Bela e a Fera", 1946): toda a atmosfera do castelo encantado.
Terry Gilliam ("As Aventuras do Barão Munchausen", "Os Irmãos Grimm"): admite abertamente tentar "fazer Doré ganhar vida".
Tim Burton e Cecil B. DeMille ("Os Dez Mandamentos") .
Mais recentemente, referências visuais em "Harry Potter" (os becos londrinos) e "Piratas do Caribe" (o navio fantasma).
Quadrinhos e Animação
Os autores mostram que Doré é um dos "pais fundadores" da banda desenhada. Suas tiras cômicas para o "Journal pour rire" na década de 1850 (como "Les Travaux d'Hercule") precedem em décadas o que se convencionou chamar de "arte sequencial".
A influência sobre Walt Disney é notável, embora o livro critique a falta de especificidade dessa análise em alguns momentos. A obra de Doré estava presente na biblioteca do estúdio Disney, e a estética dos primeiros filmes de animação – especialmente as florestas assustadoras de "Branca de Neve" (1938) – deve muito às ilustrações dos contos de Perrault .
Entre os artistas de banda desenhada contemporâneos, Philippe Druillet, Moebius, Enki Bilal e François Boucq reconhecem abertamente a dívida para com Doré.
Artes Plásticas
Van Gogh era um admirador confesso. O pintor holandês celebrou "London: A Pilgrimage" e incorporou a qualidade dramática da luz e da sombra de Doré em suas próprias telas. Picasso também se apropriou de composições de Doré, demonstrando que a influência do ilustrador atravessou as vanguardas.
Conclusão Crítica
"The Fantastic Gustave Doré" cumpre a dupla função de resgate histórico e análise estética. A obra demonstra que o "fantástico" em Doré não é apenas um tema (demônios, monstros, florestas encantadas), mas um método: a transformação da realidade através da luz, da escala e da arquitetura.
O maior mérito do livro, conforme sugerido pelas resenhas, é recusar a hierarquia entre "alta arte" (pintura) e "baixa arte" (ilustração). Ao mostrar como as imagens de Doré migraram dos livros para as telas de cinema e as páginas de quadrinhos, Paré e Sueur-Hermel propõem uma história da arte mais democrática e precisa – onde Doré ocupa, finalmente, o lugar de mestre do imaginário ocidental.
A crítica que se pode fazer (presente nas resenhas) é que, ao abranger um leque tão vasto de influências – do cinema russo à Disney, de Zola a Terry Gilliam – a obra por vezes sugere conexões sem apresentar a documentação exaustiva que as comprove. Ainda assim, trata-se de um volume essencial para compreender como o século XIX inventou o fantástico e como esse fantástico ainda habita, silenciosamente, as imagens que consumimos hoje.
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