SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

A Sociedade da Puta Mentirosa: Filosofia da Prostituição e da Falsidade na Cultura Contemporânea. Por Egidio Guerra



Introdução: A Prostituta e o Mentiroso como Arquétipos Modernos 

O que significa habitar uma "sociedade da puta mentirosa"? A expressão, deliberadamente provocativa, não se refere à prostituição em seu sentido literal, mas a uma condição ontológica: a transformação da falsidade em estrutura social e da mercantilização do corpo e da alma em modo de existência dominante. 

Esta análise articula três tradições aparentemente díspares — a filosofia continental (Laurent de Sutter), a psicanálise (Paulo Schiller) e a mística judaica (Cabala) — para demonstrar que mentira e prostituição não são meros desvios morais, mas os próprios alicerces sobre os quais a sociedade contemporânea se edifica. A "puta mentirosa" é o nome profano para uma realidade espiritual: a substituição da verdade pela utilidade, do ser pelo ter, da alma pelo mercado. 

 

Parte I: Laurent de Sutter e a Metafísica da Puta 

A Prostituição como Condição Humana Fundamental 

Em Metafísica da puta (2012), Laurent de Sutter, filósofo belga e professor da Universidade de Lausanne, propõe uma tese radical: longe de ser uma atividade marginal ou uma anomalia social, a prostituição é a estrutura ontológica básica das relações humanas na modernidade tardia. 

A "puta", no sentido filosófico de Sutter, não designa uma categoria profissional, mas uma condição existencial: aquele ou aquela que transforma o próprio corpo, desejo e afeto em mercadoria. O ato prostitucional não ocorre apenas em bordéis ou ruas — ele ocorre em escritórios, em casamentos, em redes sociais, na arte, na academia e na política. Sempre que um ser humano coloca sua intimidade, sua aparência ou sua subjetividade a serviço de uma transação externa, ele performa a "puta metafísica". 

Sutter argumenta que o capitalismo tardio não criou a prostituição como exceção — ele generalizou a lógica prostitucional como norma. O "corpo pago" deixa de ser uma anomalia e se torna o paradigma de todas as relações sob o signo do valor de troca. O amor vira "trabalho emocional", a amizade vira "networking", a autenticidade vira "marca pessoal". 

A Crítica de Sutter à Moralidade Hipócrita 

Um dos pontos centrais da obra é a desconstrução da hipocrisia moral que condena a prostituição enquanto prática, silenciosamente, sua lógica. Sutter cita a tradição judaico-cristã que sempre associou a prostituta à figura do bode expiatório — aquela que carrega os pecados que a sociedade não quer reconhecer em si mesma. 

O filósofo demonstra como a prostituta é vítima de um mecanismo de dupla condenação: é rejeitada por fazer exatamente o que toda a sociedade faz, mas com menos hipocrisia. A "puta mentirosa" do título, portanto, não é a prostituta que mente — mas a sociedade que, ao condená-la, mente sobre sua própria natureza. 

"A sociedade não tolera a prostituta não porque ela faça algo errado, mas porque ela faz algo que todos fazem — e faz sem as vestes da moralidade." — paráfrase do argumento central de Sutter [cf. Metafísica da puta]. 

Prostituição e Subjetividade: A Dissolução do "Eu Autêntico" 

Para Sutter, a consequência mais devastadora da generalização da lógica prostitucional é a dissolução da noção de subjetividade autêntica. Se tudo o que sou pode ser vendido — minha imagem, meu tempo, meu afeto, meu corpo — então o que sobra de "mim" que não seja mercadoria? 

A resposta é angustiante: nada. O sujeito contemporâneo não tem essência fora do mercado; ele é pura performance, pura aparência, puro valor de troca. A "puta metafísica" não mente porque escolhe mentir — ela mente porque não há verdade nela para ser dita. Sua subjetividade foi totalmente colonizada pela lógica da venda. 

 

Parte II: Paulo Schiller e a Paixão pela Mentira 

A Mentira como Estrutura Psíquica, não como Desvio 

Se Sutter analisa a dimensão social e econômica da falsidade, Paulo Schiller, psicanalista e professor da PUC-SP, examina suas raízes intrapsíquicas em A paixão pela mentira (2012). Schiller parte da tradição freudiana para propor que a mentira não é um acidente ou uma falha moral, mas uma estrutura fundamental do psiquismo humano. 

Diferentemente da tradição filosófica (Agostinho, Kant, Tomás de Aquino) que vê a mentira como uma corrupção da verdade, Schiller argumenta que a relação entre psiquismo e verdade é constitutivamente distorcida. Desde o início, o sujeito humano não tem acesso direto à verdade — nem sobre si mesmo, nem sobre o mundo, nem sobre os outros. O inconsciente, por definição, é aquilo que escapa à verdade do sujeito. 

Narcisismo e Falsidade: A Mentira como Proteção do Eu 

Uma das teses centrais de Schiller é que a mentira patológica (ou "paixão pela mentira") está intimamente ligada a estruturas narcisistas de personalidade. O mentiroso compulsivo não mente para enganar os outros — pelo menos não primariamente. Ele mente para sustentar uma imagem de si mesmo que não corresponde à realidade, mas da qual depende para sua sobrevivência psíquica. 

Schiller distingue entre: 

  • Mentira defensiva: aquela que protege o sujeito de uma verdade intolerável sobre si mesmo. 

  • Mentira agressiva: aquela que manipula o outro para obter poder ou vantagem. 

  • Mentira narcísica: aquela que cria uma realidade alternativa na qual o sujeito pode habitar, pois a realidade comum é insuportável. 

Na "sociedade da puta mentirosa", todas essas três formas se combinam e se reforçam mutuamente. 

Mentira e Vínculo Social: A Farsa como Cimento do Laço Social 

Talvez a contribuição mais original de Schiller seja sua análise da mentira como elemento constitutivo do vínculo social. Ao contrário do que supõe a filosofia moral tradicional — que a confiança (baseada na verdade) é o fundamento da sociedade — Schiller argumenta que as sociedades humanas sempre funcionaram com base em ficções compartilhadas. 

O dinheiro, a nação, a lei, a família, o amor romântico — todas essas são "mentiras úteis", ficções que todos concordam em tratar como verdade para que a vida social seja possível. O problema contemporâneo não é a existência dessas ficções, mas a perda da capacidade de distingui-las da verdade factual. Quando a ficção deixa de ser reconhecida como ficção e passa a ser imposta como verdade, instala-se o regime da "paixão pela mentira" coletiva. 

"O mentiroso bem-sucedido não é aquele que conta a mentira mais convincente, mas aquele que convence os outros de que mentira e verdade são categorias irrelevantes." — Schiller, A paixão pela mentira (paráfrase). 

 

Parte III: A Perspectiva Espiritual — Verdade e Falsidade na Bíblia e na Cabala 

A Mentira na Bíblia Hebraica: Muito Além do "Não Mentirás" 

A tradição bíblica oferece uma análise da mentira muito mais sofisticada do que o simplismo do "não mentirás" (Êxodo 20:16). O Livro dos Provérbios declara: "Seis coisas o Senhor odeia, sete são abomináveis para sua alma: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente..." (Provérbios 6:16-19). A "língua mentirosa" (leshon sheker) não é apenas um instrumento de engano — é um órgão de separação entre o ser humano e Deus. 

Mais revelador ainda é o Salmo 58: "Os ímpios são perversos desde o ventre; os mentirosos erram desde o nascimento." A mentira não é aqui um ato ocasional, mas uma condição existencial — uma disposição fundamental do coração que precede qualquer escolha consciente. 

A figura do "ímpio" (rasha) no pensamento bíblico está intimamente ligada à mentira. O ímpio não é simplesmente aquele que quebra regras, mas aquele que reconfigura a realidade de tal forma que suas ações deixam de ser julgáveis pelos critérios comuns. Ele não nega a lei — ele cria uma realidade paralela na qual a lei não se aplica. 

O Falso Profeta: A Mentira como Disfarce do Sagrado 

A tradição profética hebraica é particularmente severa com o falso profeta — aquele que fala em nome de Deus, mas profere mentiras. Jeremias 23 descreve esses profetas como aqueles que "roubam as palavras uns dos outros" e "seguem sua própria imaginação". A mentira profética é perigosa não porque engana sobre fatos mundanos, mas porque sequestra a própria linguagem da verdade. 

O falso profeta fala a língua da revelação para dizer o oposto da revelação. Ele usa o nome de Deus para justificar a idolatria, a violência e a opressão. Esta é a "puta mentirosa" em sua forma mais elevada: a prostituição do próprio sagrado, a transformação da verdade divina em mercadoria retórica a serviço do poder. 

A Cabala: Sheker vs. Emet — A Mentira como Estado Ontológico 

A Cabala judaica oferece a análise mais profunda da relação entre verdade e mentira. No pensamento cabalístico, Emet (verdade) e Sheker (mentira) não são meros conceitos éticos, mas estruturas ontológicas que constituem a própria textura da realidade. 

A Geometria da Verdade: Aleph, Mem, Tav 

A palavra Emet (אמת) é composta por três letras hebraicas: Aleph (א), a primeira letra do alfabeto; Mem (מ), a letra do meio; e Tav (ת), a última letra. A verdade, portanto, contém em si o princípio, o meio e o fim — a totalidade do que é. A verdade é aquilo que abrange tudo, que é consistente de sua origem ao seu término. 

Zohar, texto fundamental da Cabala, ensina que Emet é o selo de Deus (chotam ha-Kadosh Baruch Hu). O selo é aquilo que autentifica, que garante a origem e a integridade de um documento ou objeto. A verdade, nesse sentido, é a marca da presença divina no mundo. 

A Estrutura da Mentira: Kaf, Shin, Reish 

A palavra Sheker (שקר) é composta por Shin (ש), Kof (ק) e Reish (ר). Observação crucial: estas não são a primeira, a última e a letra do meio. São letras que, no alfabeto, estão descentradas, desalinhadas. Não há continuidade nelas; elas formam uma estrutura instável, sem base nem propósito. 

Os cabalistas observam que, ao contrário das letras de Emet, que ficam em pé sobre uma base estável, as letras de Sheker apoiam-se sobre pontas — elas são instáveis, podem cair a qualquer momento. A mentira, ontologicamente, é insustentável. Não porque seja sempre descoberta (historicamente, as maiores mentiras persistem por séculos), mas porque sua estrutura interna é contraditória, auto cancelável. 

A Passagem de Baal HaSulam: Saco, Amêndoa e Mentira 

Um texto cabalístico particularmente relevante para nossa análise é o artigo 223 de Shamati ("Eu Ouvi"), de autoria do Rabino Yehuda Ashlag (Baal HaSulam), o grande cabalista do século XX. O texto afirma: 

"É necessário que a pessoa veja o seu verdadeiro estado tal como ele é, sem ocultações. Pois todo o propósito das Klipot [cascas] é cobrir. No entanto, quando a pessoa provoca a amargura no trabalho por si própria — ou seja, quando consegue realizar um auto escrutínio —, alegra-se por pelo menos ver a verdade. Isto é considerado tornar isto o Rosh [cabeça], ou seja, algo importante. Isto é chamado Reish [a letra hebraica], e ao juntá-la ao Sak [saco], forma-se Sheker [mentira]."  

A passagem opera com um jogo de letras que é central para a compreensão cabalística da mentira. Vamos decodificar: 

  • Dalet (ד) + Sak (סק) = Shaked (שקד — amêndoa): A amêndoa, na tradição judaica, é símbolo de vigilância e prontidão (a raiz sh.k.d significa "apressar-se, vigiar"). Quando a pessoa experimenta a amargura (dalet) de sua separação de Deus e a veste com o "saco" (sak — luto, penitência, humilhação), isso apressa a redenção. A consciência da própria miséria, quando genuína, é o caminho para a verdade. 

  • Reish (ר) + Sak (סק) = Sheker (שקר — mentira): Mas quando a pessoa fabrica essa amargura — quando ela performa o luto sem senti-lo, quando se humilha para ser vista, quando transforma a penitência em espetáculo — então a mesma combinação de letras produz Sheker. A mentira não é a ausência de verdade, mas a imitação da verdade. A mentira é o saco vazio, o luto sem perda, a humildade sem humildade. 

Este é o insight mais profundo da Cabala sobre a "sociedade da puta mentirosa": a mentira não é a negação da verdade, mas sua caricatura. O mentiroso não diz "Deus não existe" — ele diz "Deus me disse" (como o falso profeta). Ele não diz "não há sacrifício" — ele veste o saco vazio. A mentira é a verdade performada para o engano. 

Klipot e Mentira: As Cascas da Falsidade 

Na Cabala, as Klipot (קליפות — "cascas") são as estruturas de ocultação que impedem a luz divina de se revelar. O termo é usado por extensão para designar as forças do mal — não como potências autônomas (a Cabala não é dualista), mas como ausências, vazios, bloqueios. 

Uma fonte cabalística explica: "A Klipa protege o conhecimento espiritual". A mentira, nesse sentido, não é um ataque frontal à verdade, mas uma proteção — o sujeito mente não para destruir a verdade, mas para não ter que encará-la. A verdade sobre si mesmo — sua pequenez, sua dependência, sua mortalidade, sua necessidade do Outro — é tão insuportável que o psiquismo constrói camadas de "casca" (mentira, autoengano, performance) para não entrar em contato com ela. 

O mesmo texto afirma que "o desejo de receber por receber separa o homem do Criador, pois ele sente que é dono de seu destino e que não há outro poder no mundo exceto ele mesmo". Esta é a "puta mentirosa" cabalística: a ilusão da autossuficiência. A prostituta metafísica vende seu corpo e sua alma porque acredita que é a única proprietária deles. Ela esquece que seu corpo, sua respiração, sua existência são empréstimos divinos. 

 

Parte IV: Síntese — A Sociedade da Puta Mentirosa 

Definindo o Conceito 

A "sociedade da puta mentirosa" é o regime social onde: 

  1. Tudo é mercadoria — incluindo o corpo, o afeto, a intimidade e a própria subjetividade. 

  1. Tudo é performance — a autenticidade é substituída pela imagem, a verdade pela utilidade. 

  1. A mentira tornou-se estrutura — não um desvio ocasional, mas a própria gramática do vínculo social. 

  1. A verdade é experimentada como violência — dizer a verdade é socialmente punido; a mentira bem-vestida é recompensada. 

  1. O sagrado foi prostituído — Deus, a verdade, a justiça: todas essas palavras são usadas para justificar o oposto do que significam. 

Exemplos Históricos 

O Stalinismo: A Mentira como Sistema 

O regime stalinista exemplifica a "sociedade da puta mentirosa" em sua forma totalitária. As "purgas" de 1936-1938 viram centenas de milhares de comunistas "confessarem" crimes que não cometeram — crimes contra um partido ao qual eram leais até a morte. O mentiroso stalinista (o acusado que confessa) não mente por vantagem pessoal — mente para participar da mentira como ritual de pertencimento. O show trial é a "puta mentirosa" elevada a teatro de Estado. 

O Nazismo: A Mentira como Emancipação da Verdade 

Goebbels, ministro da propaganda do Terceiro Reich, declarou: "A grande mentira" — a mentira tão colossal que ninguém acreditaria que alguém pudesse inventá-la. O nazismo não apenas mentiu sobre fatos (o extermínio dos judeus, as vitórias militares) — ele declarou guerra à própria categoria de verdade. A "mentira repetida mil vezes torna-se verdade" não é uma técnica de persuasão; é uma ontologia alternativa. 

O Capitalismo Financeiro Contemporâneo 

O crash de 2008 revelou o quanto da economia global era sustentado por mentiras sistêmicas. Os CDOs (collateralized debt obligations) eram produtos financeiros cujo valor não correspondia a nenhum ativo real — eram mentiras institucionalizadas, performadas por bancos, agências de rating e governos. Quando o sistema colapsou, não colapsou porque a mentira foi descoberta — colapsou porque a mentira cresceu demais para ser sustentada pelas estruturas da verdade factual. 

As Redes Sociais: A "Prostituição Digital do Eu" 

O Instagram, o TikTok, o LinkedIn são os bordéis da sociedade da puta mentirosa. Cada post é a venda de um pedaço da própria vida por "likes" (o equivalente moderno do dinheiro do bordel). A curadoria da imagem, a exclusão de tudo que é feio, triste, imperfeito — isso é a mentira como norma social, não como exceção. E o mais trágico: todos sabem que estão mentindo, e todos sabem que todos sabem, e ainda assim continuam. 

O Caso Elizabeth Holmes / Theranos 

O exemplo perfeito da "puta mentirosa" contemporânea: uma mulher que vestiu o saco da inovação (a gola preta de Steve Jobs, a voz grave para soar autoritária) e performou a verdade (apresentações TED, capas de revista) enquanto sua empresa não entregava nada do que prometia. Holmes não era uma mentirosa comum — ela era uma mística da mentira, alguém que acreditava em sua própria ficção tanto quanto os outros. Theranos é a amêndoa que virou mentira: a falsa amargura, o falso luto, a falsa revolução. 

 

Parte V: Análise Integrada 

A Mentira como Trabalho, a Verdade como Descanso 

Se Sutter nos mostra que a prostituição é a condição estrutural do sujeito capitalista, e Schiller que a mentira é a estrutura do psiquismo, e a Cabala que a falsidade é uma "casca" que oculta a verdade, podemos agora articular uma síntese: 

A sociedade da puta mentirosa é aquela onde o trabalho (a produção de valor) e a mentira (a ocultação da verdade) se tornaram sinônimos. 

O "trabalho" na modernidade tardia não é mais a transformação da matéria (como no fordismo), nem a produção de serviços (como no pós-fordismo), mas a produção de aparências. O trabalhador contemporâneo não produz coisas — ele produz mentiras úteis: uma imagem de marca, uma experiência de consumo, uma narrativa de engajamento, uma curadoria de si. Ele é, todos os dias, a "puta metafísica" de Sutter: vende algo que não tem existência fora do ato da venda. 

E a verdade? A verdade é o descanso do mentiroso — o momento, cada vez mais raro, em que o sujeito pode parar de performar, de vender, de mentir. Mas neste momento, não há nada lá. O "eu" foi totalmente colonizado pela mentira. Descansar na verdade é encontrar o vazio. É por isso que a sociedade contemporânea é tão viciada em trabalho e em consumo — ambos são máquinas de mentir que nos mantêm longe do encontro aterrorizante com a verdade de que não somos nada além do que vendemos. 

O Diagnóstico Cabalístico: Tikun vs. Sheker 

O Baal HaSulam ensina que o trabalho de Tikun (reparação, correção) consiste em transformar o Sheker em Emet — em tornar a verdade habitável novamente. Mas como? 

A resposta está na própria estrutura da letra: não se trata de "abandonar" a mentira (como se fosse uma roupa suja), mas de introduzir a verdade no coração da mentira. O Sheker se torna Shaked (amêndoa, vigilância, prontidão) quando a amargura é genuína — quando a pessoa vê sua miséria e sofre por ela. 

A sociedade da puta mentirosa, ao contrário, transformou o Shaked em Sheker: performa a amargura sem senti-la, veste o saco sem luto, humilha-se sem humildade. As "redes sociais" são o grande ritual dessa falsa amargura: postamos nosso sofrimento para que ele seja visto, curtido, mercantilizado. Nossa dor vira conteúdo. A amêndoa vira mentira. 

 

Conclusão: É Possível Sair da Sociedade da Puta Mentirosa? 

A resposta da tradição é sim, mas ao preço da solidão. 

O profeta Jeremias, vivendo em uma sociedade que ele descreve como "adultera" (a puta mentirosa do Antigo Testamento), é condenado a falar a verdade sozinho. Ele é jogado na cisterna, é perseguido, é chamado de traidor. Sua verdade é uma verdade que ninguém quer ouvir — não porque seja falsa, mas porque é verdadeira em um mundo que escolheu a mentira como estrutura. 

A saída da "puta mentirosa" não é encontrar uma comunidade de verdadeiros — pois toda comunidade, na sociedade contemporânea, é uma comunidade de mentirosos que concordam em mentir juntos. A saída é a solidão profética: a disposição de dizer a verdade mesmo quando ninguém está ouvindo, de vestir o saco genuíno mesmo sem plateia, de fazer do Shaked (a vigilância amorosa sobre si mesmo) um fim em si mesmo, não um espetáculo para os outros. 

A Cabala ensina que a verdade (Emet) é o selo de Deus porque só Deus pode sancioná-la. A verdade que depende do reconhecimento humano já é, desde o início, uma mentira — pois está à venda, performada para o outro. A verdade autêntica é aquela que se sustenta sozinha, sem plateia, sem like, sem retuíte. 

Neste sentido, a "sociedade da puta mentirosa" é o resultado lógico do ateísmo prático — não a negação de Deus, mas a negação de que a verdade precise de um fundamento fora do consenso humano. Quando o consenso humano é o fundamento da verdade, então a verdade é aquilo que todos concordam em fingir que é verdade. E o mentiroso é aquele que não finge — ou finge mal. 

A puta mentirosa é, pois, a sociedade que escolheu a mentira como fundamento e depois se esqueceu de que escolheu. E o caminho para sair dela é o mais simples e o mais impossível: lembrar. 

 

Referências 

Fontes Principais (Obras citadas na análise) 

  1. Sutter, Laurent de. Métaphysique de la putain. Paris: Léo Scheer, 2012. (Metafísica da puta) 

  1. Schiller, Paulo. A paixão pela mentira: ensaio de psicanálise. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2012. 

Fontes Cabalísticas 

  1. Ashlag, Yehuda (Baal HaSulam). "223. ClothingSack, Lie, Almond" (Shamati - "I Heard"). Disponível no Bnei Baruch Kabbalah Education & Research Institute . 

  1. Bnei Baruch Academy. "Dos tipos de Klipot (Cáscaras)". Artigos sobre a Cabala de Laitman . 

Leituras Complementares (Sugeridas para aprofundamento) 

  1. Agamben, Giorgio. Homo Sacer: O poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte: UFMG, 2002. (Sobre a "vida nua" e a mercantilização do corpo) 

  1. Arendt, Hannah. Origens do Totalitarismo. São Paulo: Cia das Letras, 2012. (Sobre a mentira como sistema político) 

  1. Han, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015. (Sobre a "sociedade do desempenho" e a autoexploração) 

  1. Lipovetsky, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. São Paulo: Manole, 2005. 

  1. Scholem, Gershom. A Cabala e seu simbolismo. Rio de Janeiro: Perspectiva, 2018. 

  1. Žižek, Slavoj. Bem-vindo ao deserto do Real. São Paulo: Boitempo, 2003. 

 

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