SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 24 de maio de 2026

O que encontramos em Santarém, no Pará, muda a forma de pensar política pública para a Amazônia.


 Publicamos um artigo sobre bioeconomia amazônica na Journal of Innovation & Knowledge. O que encontramos em Santarém, no Pará, muda a forma de pensar política pública para a Amazônia.

A bioeconomia está na agenda global. Está nos discursos de cúpula, nas estratégias nacionais, nos compromissos climáticos. Mas entre a narrativa e a realidade do território existe um abismo e é exatamente esse abismo que nossa pesquisa investiga.

O que fomos buscar

Santarém, no Pará, concentra uma das maiores densidades de projetos de bioeconomia apoiados por políticas públicas no Brasil. Cooperativas, associações, universidades, ONGs, empresas privadas e órgãos governamentais de diferentes níveis atuam no mesmo território, cada um com sua lógica, seus recursos e suas prioridades.

Conduzimos dez entrevistas semiestruturadas com atores estratégicos desse ecossistema. Usamos o método CHAP2 — Complex Holographic Assessment of Paradoxical Problems — para construir mapas metacognitivos que visualizam tensões, contradições e oportunidades dentro do sistema. O objetivo não era mapear o sistema como ele é, mas como os atores o percebem e onde essas percepções divergem.

O que encontramos

O ecossistema de Santarém é marcado por fragmentação. Políticas públicas descontínuas. Baixa coordenação entre atores. Fragilidade institucional. Participação social dispersa. Infraestrutura insuficiente. Pouca transferência de conhecimento entre universidades e produtores locais.

Mas também encontramos algo que os dados sozinhos não revelam: um potencial transformador latente. Iniciativas locais com capacidade real de mudança. Cooperativas que já descobriram como viver da floresta sem destruí-la. Organizações da sociedade civil que há décadas constroem alternativas ao extrativismo predatório.

Esse potencial existe. O que falta é o que chamamos de capacitação: a habilidade de ativar e integrar recursos através de governança, coordenação e aprendizagem coletiva.

O achado central: direcionalidade sem capacitação não transforma sistemas

Missões nacionais de bioeconomia existem. O Brasil tem estratégias, tem narrativa, tem prioridade política. Mas missões nacionais não geram transformação sozinhas. Elas precisam ser territorializadas.

E territorializar uma missão exige muito mais do que repassar recursos ou criar programas. Exige governança local capaz de coordenar atores heterogêneos. Exige organizações intermediárias com mandato claro para conectar comunidades, universidades, empresas e poder público. Exige mecanismos estáveis de aprendizagem coletiva, não avaliações pontuais, mas processos contínuos de reflexão e ajuste.

Sem isso, a política pública chega como discurso. E some antes de virar realidade.

Os três mundos que não se falam

O que mais nos marcou em campo foi uma imagem recorrente: atores que deveriam estar conectados, cada um no seu canto.

Governo com seus programas e metas. Comunidades com seu conhecimento e suas práticas. Ciência com seus diagnósticos e propostas. Três mundos que compartilham o mesmo território e raramente se encontram de forma estruturada, contínua e produtiva.

Essa desconexão não é acidental. É resultado de ciclos políticos curtos que interrompem iniciativas antes que criem raízes. De burocracias que não falam entre si. De universidades que produzem conhecimento que não chega na ponta. De comunidades que participam de fóruns sem poder real de decisão.

A Amazônia não precisa de mais diagnósticos. Precisa de pontes.

O papel das organizações intermediárias

Um dos principais caminhos que o artigo propõe é o fortalecimento de organizações intermediárias, entidades com capacidade de articular atores, traduzir conhecimento científico em linguagem prática, racionalizar espaços de participação e sustentar processos de aprendizagem ao longo do tempo.

Essas organizações não são centros de controle. São nós habilitadores que reduzem custos de coordenação, estabilizam expectativas e conectam diferentes formas de conhecimento em estratégias coletivamente acionáveis.

No contexto amazônico, onde a fragmentação é estrutural e os recursos são escassos, esse papel intermediário pode ser o fator determinante entre um ecossistema que emerge e um que permanece invisível.

Indicadores como ferramentas de aprendizado

O artigo também propõe um conjunto de indicadores para apoiar a governança adaptativa da bioeconomia. Mas atenção: não são métricas de desempenho no sentido convencional.

São dispositivos de aprendizagem reflexiva, ferramentas para estimular o diálogo entre atores, revelar desalinhamentos, identificar gargalos e apoiar ajustes iterativos. Em sistemas complexos, não se gerencia por controle. Se gerencia por aprendizagem.

Essa distinção é fundamental para qualquer organização que queira atuar com seriedade na bioeconomia amazônica.

Por que isso importa além da Amazônia

Os desafios que encontramos em Santarém não são exclusivos da Amazônia. São os desafios de qualquer tentativa de implementar políticas orientadas por missões em territórios de alta complexidade institucional — seja no semiárido brasileiro, em regiões periféricas da Europa, ou em economias emergentes do Sul Global.

A pergunta central é sempre a mesma: como conectar intenção política, capacidade territorial e ação coletiva de forma sustentada ao longo do tempo?

Não existe resposta simples. Mas existe método. E é isso que a ciência oferece.

Onde atuo

Aqui no Casulo, Centro Avançado em Sustentabilidade, Ecossistemas Locais e Governança, trabalhamos na intersecção entre pesquisa de ponta, política pública e desenvolvimento territorial. Nosso foco está em traduzir complexidade em estratégia e estratégia em ação concreta, com impacto mensurável.

Se você atua em governo, organismos internacionais, empresas com agenda de sustentabilidade ou consultorias de desenvolvimento territorial, e quer conversar sobre como a ciência pode apoiar decisões reais nesse campo, estou disponível.

📄 Artigo completo nos comentários. 📍 Casulo - Coppe, UFRJ

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