SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 26 de maio de 2026

O Genocídio Cearense e o Silêncio Cúmplice: A memória é um ato de resistência! Por Egidio Guerra




*Quatro décadas de extermínio estrutural — da fome de 1979-1984 às mortes violentas, à pobreza e à ausência de políticas públicas — e o silêncio das elites e governos* 

 

Introdução: O Terror Oculto no Sertão e nas Periferias 

No extremo nordeste do Brasil, onde o sol inclemente castiga uma terra ressequida e a caatinga se estende até o horizonte, ocorreu um dos episódios mais sistemáticos e deliberadamente esquecidos da história do país. Entre 1979 e 1984, o Nordeste brasileiro — com o Ceará em seu epicentro — foi atingido pela seca mais devastadora do século XX. Não foi a estiagem, porém, a verdadeira assassina. Foi a negligência criminosa do Estado, a omissão deliberada de um regime militar que optou por deixar que milhões de flagelados morressem de fome como concessão aos interesses das oligarquias regionais. 

O que significa, afinal, a oposição entre inocência e terrorismo neste contexto? O terror não foi perpetrado apenas por bombas ou fuzis, mas pela fome meticulosamente administrada, pela água retida em açudes privados, pela ajuda humanitária condicionada ao voto nos coronéis. A inocência foi a das vítimas — crianças, mulheres, idosos — que nada fizeram senão existir em uma terra que outros queriam explorar. 

As 700 mil mortes por fome entre 1979 e 1984, no entanto, não foram um evento isolado. Foram o coroamento de um processo mais amplo de extermínio estrutural que se prolonga até os dias atuais. A fome da seca foi apenas a forma mais concentrada e visível de um terror que, nas décadas seguintes, assumiu outras roupagens — igualmente letais, igualmente silenciadas. A cada ano que passa, o Ceará enterra vítimas de uma guerra não declarada, travada nas periferias e nos sertões, cujos algozes não usam fardas estatais reconhecíveis, mas contam com a cumplicidade do silêncio das elites e a omissão deliberada do poder público. 

O genocídio cearense não terminou com o fim da seca de 1984. Ele apenas trocou de máscara. 

Este texto se propõe a analisar o extermínio sistemático da população cearense — em suas múltiplas faces: fome, violência homicida, pobreza estrutural, mortalidade infantil evitável, evasão escolar, desemprego e ausência de políticas públicas — a partir da estrutura argumentativa desenvolvida anteriormente sobre o genocídio Selk'nam, estabelecendo paralelos com o Holocausto, a Palestina e a Ucrânia. Argumentamos que, assim como na Terra do Fogo, o silêncio — historiográfico, midiático e político — foi e continua sendo o cúmplice mais eficaz do extermínio. 

 

Parte I: O Genocídio Cearense — Fome como Arma de Extermínio (1979-1984) 

A Estrutura do Terror: A Seca que Não Foi Natural 

O que ocorreu no Ceará entre 1979 e 1984 não foi uma catástrofe natural. Foi um genocídio intencionado. A análise do Opera Mundi, com base em documentos da época e pesquisas do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), demonstra que a ditadura militar optou por deixar que os flagelados morressem de fome como uma concessão aos interesses das oligarquias regionais. Não havia melhor aliado para os latifundiários do que a seca: ela expulsava os pequenos agricultores de suas terras, facilitando a grilagem e a concentração fundiária, e permitia que os grandes proprietários utilizassem os flagelados como mão de obra sub-remunerada nas chamadas "frentes de trabalho". 

Os flagelados alistados nessas frentes recebiam menos de um terço do salário mínimo, eram submetidos a condições de trabalho análogas à escravidão e morriam em massa de estafa durante as obras que beneficiavam os latifúndios. A ajuda governamental, quando existia, era condicionada ao apoio político: distritos que não votassem nos políticos do regime simplesmente não recebiam carros-pipa ou cestas básicas. 

Os Números da Morte 

Não há estatística oficial do regime militar sobre a quantidade de pessoas que morreram de fome. A censura escamoteou os dados, naturalizou o desrespeito aos direitos humanos e ignorou a responsabilidade do poder público. No entanto, a pesquisa do Ibase — aplicando uma taxa de letalidade de 2,5% da população nos municípios analisados ao total da população afetada — concluiu que ao menos 700 mil nordestinos morreram. 

Outro levantamento apurou que 14,5% dos domicílios nordestinos relataram ao menos uma morte por fome no período. A maioria absoluta dessas vítimas era crianças. O genocídio cearense foi, acima de tudo, um assassinato sistemático da infância pobre do Nordeste. 

 

Parte II: O Terror das Estatísticas — Violência, Criminalidade e Extermínio Pós-1984 

Se entre 1979 e 1984 a morte vinha principalmente pela fome, a partir do final dos anos 1980 e com intensificação nas décadas seguintes, a violência letal assumiu novas faces: as execuções sumárias, os confrontos armados entre facções, as operações policiais que deixam rastros de sangue nas periferias e, acima de tudo, a banalização do homicídio como instrumento de "limpeza social". 

A estimativa mais conservadora aponta que pelo menos 700 mil nordestinos morreram de fome no período 1979-1984. Mas essa cifra, por si só aterradora, torna-se ainda mais chocante quando acrescentamos as décadas seguintes. Somente nos anos 2000, o Ceará registrou mais de 70 mil mortes violentas intencionais — um número que supera em mais de dez vezes o total de vítimas da seca assassina. 

Para dimensionar o terror silenciado: 

Período, principal causa de morte, Estimativa de vítimas no Ceará 

1979-1984, Fome e desnutrição, 700 mil a 3,5 milhões 

1985-2000, Violência urbana crescente, Mais de 30 mil 

2000-2015, Pico da violência homicida, Mais de 70 mil 

2015-2025, Homicídios, feminícidios, operações policiais, Mais de 50 mil 

O genocídio cearense, portanto, não é um evento localizado no passado. É um processo contínuo que, sob diferentes modalidades, segue ceifando vidas cearenses — em especial as vidas mais jovens, mais negras, mais pobres. 

Em 2025, o Brasil registrou 34.086 mortes violentas intencionais, uma média de 93 mortes por dia. Desse total, o Ceará permanece entre os estados mais violentos da federação: em 2024, Maranguape registrou a maior taxa de homicídios do Brasil, com 87,2 mortes por 100 mil habitantes. Para efeito de comparação, a taxa de homicídios na Ucrânia durante o auge da guerra de 2022-2023 foi de aproximadamente 15 mortes por 100 mil habitantes — cinco vezes menor. 

A Violência Seletiva: Juventude Negra como Alvo 

O genocídio cearense pós-1984 tem cor e idade. Em 2024, o Ceará registrou a 5ª maior taxa de homicídios contra jovens negros vítimas de arma de fogo do país. Somente em 2023, 1.556 jovens de 15 a 29 anos foram assassinados no estado. A população negra é oito vezes mais assassinada que a branca em ações policiais no Ceará. 

Os jovens negros das periferias cearenses morrem, em média, não por um crime passional ou ocasional, mas como resultado de uma política genocida de Estado. A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, em visita ao Ceará, declarou que o "enfrentamento ao genocídio da juventude negra é uma das prioridades" do governo federal. Mas a permanência dos números sugere que a prioridade ainda não se traduziu em resultados. 

Na Grande Fortaleza, a situação alcança contornos de terror cotidiano: 98% das vítimas de homicídio são moradores de periferia, 80% são negros, e 56% têm entre 18 e 29 anos. A violência não é aleatória — é estrutural e seletiva, dirigida contra aqueles que o Estado já definiu como descartáveis. 

 

Parte III: A Pobreza como Condição e Consequência — A Falência das Políticas Públicas 

Paralelamente à violência letal, a pobreza estrutural cearense permanece como a condição de fundo que alimenta o ciclo de exclusão e morte. Em 2024, o Ceará registrou uma taxa de extrema pobreza de 7,9%, o menor índice da história do estado, resultado principalmente da ação de programas sociais como o Bolsa Família. Apesar da melhora relativa, o número absoluto de pessoas vivendo na miséria ainda supera 900 mil cearenses. 

A pobreza, porém, não se resume à renda. Ela se desdobra em: 

Mortalidade infantil: em 2023, mais de 1,3 mil bebês menores de 1 ano morreram no Ceará — uma média de mais de 100 por mês. A mortalidade infantil no estado ainda supera os 11 óbitos por mil nascidos vivos, patamar considerado alto pelos padrões internacionais. 

Insegurança alimentar: embora tenha havido avanços significativos, com mais de 150 mil cearenses deixando a insegurança alimentar grave apenas em 2024, a fome persiste como realidade para milhões. A pesquisa do Ibase sobre a crise de 1979-1984 mostrou que a fome não era "natural", mas resultado de escolhas políticas deliberadas. 

Exclusão escolar: Mais de 37 mil crianças e adolescentes entre 4 e 17 anos ainda não frequentam a escola no Ceará, e o estado registra queda constante no número de matrículas na educação básica. A evasão escolar, especialmente entre jovens negros de periferia, é ao mesmo tempo causa e consequência da vulnerabilidade social. 

Desemprego estrutural: embora o Ceará tenha registrado em 2025 a menor taxa anual de desemprego da história (resultado de políticas públicas específicas), o contingente de desempregados ainda supera 400 mil pessoas, e o trabalho informal e precário segue como regra para a maioria da população ativa. 

A pobreza, portanto, não é um dado passivo. É produzida e mantida pela ausência de políticas públicas efetivas. Como demonstrou o Ibase, "sem programas sociais, a pobreza extrema no Ceará seria 2,5 vezes maior" — o que significa que o que existe de mitigação é resultado de pressão social, não de uma política de Estado de longo prazo. 

 

Parte IV: A Ausência de Políticas Públicas como Estrutura de Terror 

O que conecta a fome de 1979-1984, os homicídios de jovens negros nas periferias, a mortalidade infantil persistente, a evasão escolar crônica e o desemprego estrutural é a mesma estrutura: a ausência deliberada do Estado onde ele deveria estar presente, e sua presença letal onde ele não deveria atuar. 

O governo estadual anuncia, periodicamente, reduções nas taxas de homicídio. Em 2025, o Ceará registrou uma queda de 7,7% nas mortes violentas. Cria-se o Sistema de Metas Integradas de Segurança Pública (MISP), criam-se 3.500 novos cargos para a Polícia Militar. Mas o que permanece inalterado é a estrutura subjacente: a ausência de políticas integradas que ataquem as causas da violência — pobreza, desigualdade, falta de oportunidades, racismo estrutural. 

O Programa Ceará Sem Fome, reconhecido internacionalmente, é um exemplo de política pública bem-sucedida. Mas sua existência não esconde o fato de que, por décadas, o estado sistematicamente ignorou a fome como problema político, tratando-a como "fatalidade climática" — exatamente o mesmo Sheker que naturalizou o extermínio dos Selk'nam. 

Na segurança pública, a ausência de políticas preventivas é substituída por operações policiais de alto poder letal. Em 2025, a violência policial no Ceará registrou aumento, com dezenas de mortes em "confrontos" que frequentemente são execuções sumárias sob a justificativa de "resistência seguida de morte". A população negra morre nas periferias não apenas nas mãos de facções criminosas, mas também nas mãos do próprio Estado, que deveria protegê-la. 

 

Parte V: O Silêncio Cúmplice — A Omissão das Elites e dos Governos 

Assim como no genocídio Selk'nam, o silêncio foi a estrutura de perpetuação do crime na Terra do Fogo cearense. A imprensa tratou a crise famélica como um evento banal, seguindo a lógica de dessensibilização do público em relação aos efeitos perversos da desigualdade social. Os livros didáticos ignoram o episódio; a academia desperta pouco interesse; a população desconhece a tragédia. 

O governo militar — e seus herdeiros civis — nunca reconheceram o crime como genocídio. A "indústria da seca" foi mantida intacta, com a Sudene convertida em ferramenta de apadrinhamento a serviço das oligarquias. A conivência com a dinâmica social que gerou a crise famélica estimulou a continuidade da barbárie: o Nordeste seguiria enterrando centenas de milhares de crianças vítimas da desnutrição até o fim dos anos 90. 

O que está por trás desse silêncio? O Sheker — a mentira institucionalizada de que a seca é "natural", de que a fome é "inevitável", de que os nordestinos estão "fadados" à miséria. Esta é a mentira genocida em sua forma mais pura: transformar o terror sistemático em fatalidade geográfica. 

Sheker genocida assume múltiplas formas no Ceará contemporâneo: 

"A violência é um problema do Nordeste" — como se a região fosse ontologicamente violenta, e não vítima de décadas de abandono. 

"Os jovens mortos eram bandidos" — a criminalização das vítimas como justificativa para o extermínio. 

"A pobreza está diminuindo" — verdade estatística que oculta a permanência da miséria absoluta para centenas de milhares. 

"Não houve genocídio, foi uma seca" — a mentira que naturaliza a fome como fenômeno climático, não como escolha política. 

As elites cearenses — os mesmos grupos oligárquicos que se beneficiaram da "indústria da seca" nos anos 1980, que exploraram mão de obra famélica nas frentes de trabalho, que se beneficiaram da grilagem de terras durante o êxodo rural — continuam no poder. Seus herdeiros políticos ocupam as cadeiras da Assembleia Legislativa e das prefeituras. E o silêncio é sua principal arma. 

 

Parte VI: O Genocídio Cearense em Perspectiva Comparada 

Comparação com o Genocídio Selk'nam (Terra do Fogo) 

Dimensão, Genocídio Selk'namGenocídio Cearense 

Período, 1880-1930, 1979-1984 + continuidade até hoje 

Estimativa de mortos, 4.000 a 5.000 indígenas, 700.000 a 3,5 milhões (1979-1984); +150.000 homicídios desde 1985 

Mecanismo de extermínio, Caça de recompensa, milícias, trabalho forçado, Fome deliberada, trabalho escravo, violência homicida, violência policial, ausência de políticas públicas 

Responsáveis, Estado argentino/chileno, latifundiários, Ditadura militar, oligarquias nordestinas, governos estaduais e municipais omissos 

Silêncio cúmplice, 100 anos de apagamento historiográfico, 40+ anos de ausência nos livros didáticos e na grande imprensa 

Em ambos os casos, a terra e o território estavam no centro do conflito. Os Selk'nam foram exterminados porque estavam na "terra do ouro" e das ovelhas; os cearenses foram abandonados à fome e à violência porque suas terras e sua força de trabalho interessavam ao capital e às oligarquias. 

Comparação com o Holocausto 

O Holocausto foi o extermínio industrial de 6 milhões de judeus, perpetrado por uma máquina burocrática que transformava corpos em números. O genocídio cearense não teve câmaras de gás, mas teve câmaras de fome: as frentes de trabalho onde os flagelados eram submetidos a trabalho extenuante enquanto seus filhos morriam de desnutrição ao lado. Teve também câmaras de bala: as periferias onde jovens negros são executados em operações policiais ou em confrontos entre facções, com a conivência do Estado. 

A diferença fundamental está na visibilidade. O Holocausto foi testemunhado, documentado e, após a guerra, julgado em Nuremberg. O genocídio cearense foi testemunhado pelos próprios perpetradores e silenciado por seus herdeiros. O julgamento nunca veio. 

Comparação com a Palestina 

O genocídio cearense e a situação na Palestina compartilham a mesma estrutura de assimetria de poder: uma população civil desarmada e vulnerável é submetida a um cerco sistemático que nega acesso à água, alimentos, assistência médica e segurança básica. 

No caso da Palestina, as nações ocidentais e a comunidade internacional testemunham o cerco em tempo real e, em grande medida, permanecem em silêncio. No caso do Ceará, o Brasil assistiu seus próprios cidadãos morrerem de fome e violência enquanto as elites lucravam com a "indústria da seca" e o "mercado da segurança". Em ambos, a resposta do poder público foi a violência policial contra os saques e ocupações que os famélicos organizavam para sobreviver, e contra as manifestações populares que pediam direitos básicos. 

Comparação com a Ucrânia 

A guerra na Ucrânia — com seus 14.999 civis mortos entre 2022 e 2025 — despertou uma comoção global e uma resposta humanitária massiva da comunidade internacional. O genocídio cearense, com sua magnitude dezenas de vezes maior, permaneceu invisível. Esta discrepância não reflete o valor relativo das vidas ucranianas versus as vidas nordestinas. Reflete, antes, a geopolítica do silêncio: as vítimas do Ceará eram e são pobres, nordestinas, brasileiras — e, portanto, não contavam. 

Aplicado ao genocídio cearense: os governantes, as elites e os agentes do Estado — militares na ditadura, políticos nas democracias frágeis, fazendeiros, empresários, policiais — revestiram-se de Klipot. Eles não conseguiam (ou não queriam) ver nos flagelados da seca, nos jovens negros das periferias, nas crianças desnutridas, nos trabalhadores desempregados, seres humanos feitos à imagem de Deus. Viam apenas "cascas" — obstáculos ao progresso, problemas a serem gerenciados, números em planilhas de políticas públicas, ou simplesmente "nada". A Klipa separa, isola, desumaniza. É isso que permite que seres humanos cometam atrocidades contra outros seres humanos sem serem perturbados pela consciência. 

A Mentira como Fundamento do Terror Sistêmico 

No caso do genocídio cearense, o Sheker operou (e opera) em três níveis: 

A mentira dos perpetradores originais (1979-1984): Os governantes militares e as oligarquias mentiam ao afirmar que estavam "socorrendo" os flagelados com frentes de trabalho, que a seca era uma "fatalidade natural", que os nordestinos eram "preguiçosos" ou "inadaptados". 

A mentira dos perpetradores contemporâneos: Os governos estaduais e municipais mentem ao anunciar "reduções históricas" da violência enquanto as taxas de homicídio permanecem entre as mais altas do mundo; ao celebrar a "queda da pobreza" enquanto 900 mil cearenses vivem na extrema pobreza; ao criar "programas de segurança" que ampliam o poder letal da polícia sem reduzir a criminalidade estrutural. 

Sheker do esquecimento: A sociedade brasileira — especialmente suas elites políticas, econômicas e midiáticas — mente ao silenciar o genocídio cearense, ao tratá-lo como "fatalidade", ao não inclui-los nos livros didáticos, ao não realizar reparação alguma. A mentira é a de que "não houve genocídio" — que a fome foi apenas uma seca, que os jovens mortos eram "bandidos", que a pobreza é "inevitável". 


Parte VII: Conclusão — O Ceará e o Dever da Memória 

O genocídio cearense — o extermínio sistemático de pelo menos 700 mil nordestinos entre 1979 e 1984, somado às mais de 150 mil mortes violentas desde então, às centenas de milhares de vítimas da pobreza estrutural, da mortalidade infantil evitável, da evasão escolar e do desemprego crônico — é uma ferida aberta na história do Brasil. Ele nos confronta com o escândalo fundamental de que a inocência não protege. 

As crianças que morreram de fome nos sertões do Ceará eram tão inocentes quanto os Selk'nam caçados na Terra do Fogo, quanto os judeus assassinados em Auschwitz, quanto as crianças palestinas bombardeadas em Gaza, quanto os civis ucranianos mortos pelos mísseis russos. 

A diferença não está na inocência das vítimas, mas na resposta dos algozes e de seus herdeiros. O Holocausto foi julgado. O genocídio Selk'nam está sendo redescoberto. A Palestina e a Ucrânia estão sob os holofotes do mundo. O genocídio cearense, porém, permanece na sombra — ausente dos livros, ignorado pela academia, silenciado pelos governos, naturalizado pelo discurso midiático. 

O silêncio não é neutro. É cúmplice. Rompê-lo é o primeiro passo do Tikun. E a pergunta que ecoa dos sertões e das periferias — a mesma que Jó fez, que o Salmo 73 fez, que as crianças cearenses assassinadas não puderam fazer — continua aguardando uma resposta que não virá das autoridades, mas de nós mesmos. 

A ilha do silêncio — seja a Terra do Fogo, seja o sertão nordestino, seja a periferia de Fortaleza — não será mais silenciosa se soubermos ouvir. O que ela nos diz é terrível: que a inocência não protege, que o terror pode vencer, que o esquecimento é cúmplice. Mas ela nos diz também que lembrar é o primeiro passo para reparar. E que nenhum genocídio, por mais sistemático que tenha sido, tem a última palavra quando a memória se recusa a morrer. 

 

Referências Unificadas 

Sobre o Genocídio Cearense (Fome de 1979-1984) 

"Um genocídio esquecido: a crise famélica de 1979-1984 no Nordeste" — Opera Mundi, 14 de agosto de 2024. 

Pereira, Francisco Ruy Gondim. "O Genocídio do Nordeste: resistência camponesa na seca de 1979-1983" — V Jornada Nacional de História dos Sertões, 2022. 

CPT, CEPAC, Ibase. *O Genocídio do Nordeste 1979-1983*. São Paulo: Hucitec, 1988. 

"Flagelo, saques e mortes: histórias da última fome em massa nas secas do Ceará" — Mais O Povo, 7 de abril de 2025. 

"O genocídio do Nordeste 1979-1983" — IRPAA (Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada). 

Sobre Violência e Criminalidade no Ceará 

"Ceará teve 4 das 5 cidades com maiores índices de homicídios do Brasil em 2024" — G1, 2025. 

"Ceará reduz em 13,8% o número de Crimes Violentos Letais e Intencionais" — Governo do Ceará, 2025. 

"Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025" — dados sobre mortes violentas no Brasil. 

"Brasil reduz assassinatos pelo quinto ano seguido, mas feminicídios atingem recorde em 2025" — YacoNews, 2026. 

"Ceará tem a 5ª maior taxa de negros mortos por arma de fogo no País" — O Povo, 2025. 

"Maioria das vítimas de homicídios em Fortaleza são jovens, negros e moradores de periferia" — G1, 2021. 

"Ceará tem a 5ª maior taxa de homicídios contra jovens do País" — O Povo, 2025. 

"Violência policial no Ceará" — CEDECA Ceará, 2025. 

Sobre Pobreza e Desigualdade 

"Sem programas sociais, pobreza extrema no Ceará seria 2,5 vezes maior" — G1, 2024. 

"Mais de 624 mil cearenses superam a pobreza e a extrema pobreza em 2024" — Governo do Ceará, 2025. 

"Ceará atinge menor índice de desigualdade da história" — O Povo, 2025. 

"Quase metade da população do Ceará vive abaixo da linha de pobreza" — Diário do Nordeste, 2024. 

Sobre Educação, Saúde e Fome 

"Mais de 37 mil crianças e adolescentes não frequentam a escola no Ceará" — Busca Ativa Escolar, 2025. 

"Ceará registra queda no número de matrículas na educação básica" — Diário do Nordeste, 2026. 

"Mortalidade infantil volta a crescer no CE, com 1,3 mil óbitos em 2023" — Diário do Nordeste, 2024. 

"Insegurança alimentar grave cai 28% e quase 150 mil cearenses deixam a fome" — Governo do Ceará, 2025. 

"Situação da segurança alimentar no Ceará em 2024" — IPECE, 2025. 

Sobre Desemprego 

"Ceará registra, em 2025, menor taxa anual de desemprego da história" — Gov.br, 2026. 

"Ceará registrou a menor taxa de desemprego da história e a menor do Nordeste em 2025" — 2026. 

Sobre Genocídio da Juventude Negra 

"Negros seguem como principais vítimas da violência no Brasil" — Contraf-CUT, 2025. 

"Pessoas negras morrem 8 vezes mais que brancas em ações policiais no Ceará" — Geledés, 2024. 

"O que está por trás da política genocida da juventude negra em Fortaleza?" — SILVA, M. M. O., 2018. 

"Caravana participativa na construção do Plano Juventude Negra Viva" — CEERT, 2024. 

Sobre Genocídio Selk'nam, Holocausto, Palestina e Ucrânia (referências comparativas) 

"Selk'nam Genocide— Wikipedia. 

"Holocausto" — Wikipedia. 

"Nações ocidentais pedem que Israel barre expansão de colônias" — O Povo, 25 de maio de 2026. 

"Reporte 108/2026 de los efectos de las agresiones israelíes en Palestina" — Embajada Palestina en Chile, 17 de fevereiro de 2026. 

"Relatório Mundial 2026: Ucrânia" — Human Rights Watch. 

Sobre Perspectiva Cabalística (Klipot, Sheker, Tikun) 

Ashlag, Yehuda (Baal HaSulam). "223. Clothing, Sack, Lie, Almond" (Shamati — "I Heard"). Academia de Cabalá Bnei Baruch. 

"Klipot" — Conceito cabalístico sobre as "cascas" que ocultam a luz divina. 

"Sheker" — Conceito cabalístico da mentira como estrutura ontológica do mal. 

 

Epílogo: O Que Resta Fazer 

O genocídio cearense não é apenas uma ferida do passado. É uma realidade presente. A cada dia que passa, novas vítimas são produzidas pelo mesmo sistema que deixou morrer de fome 700 mil pessoas entre 1979 e 1984: a combinação letal de elites vorazes, governos omissos, Estado violento e uma sociedade que aprendeu a silenciar. 

O Tikun começa quando recusamos o silêncio. Quando nomeamos o crime pelo seu verdadeiro nome. Quando exigimos justiça para as vítimas do passado e políticas públicas para as vítimas do presente. Quando recusamos a mentira de que a pobreza é inevitável, de que a violência é natural, de que a morte de jovens negros é "fatalidade". 

A memória é um ato de resistência. E a reparação é um dever inadiável. 

 

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