SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

A Caverna de Platão na Sala de Aula! Por Egidio Guerra




Durante 25 anos, acompanhei de perto o projeto social EDISCAVi crianças entrarem tristes, carregando nos ombros o peso de realidades duras, e saírem felizes. Felizes por aprender, por desenvolver o corpo, a arte, o balé, por interagir com outras crianças, por conquistarem autonomia. Ali, a educação acontecia como um encontro com a luz.

Nesse mesmo quarto de século, lutei ao lado de projetos, movimentos sociais e organizações populares que não tinham um centavo no bolso. Mas tinham algo maior: a ideia de que a luta social em curso poderia implantar sonhos, objetivos, transformações. Tiveram milhares de vitórias, transformaram vidas, lutando com nada contra tudo— e nunca deixaram de acreditar.

Eis a grande bagunça da caverna da escola.

Porque você pergunta: como é possível que lugares com recursos, com milhões, com bilhões, não consigam o que o EDISCA e organizações sociais consigam com tão pouco? Como é possível que a maioria das crianças e jovens não saiam felizes da sala de aula?

A resposta é sombria e simples: os administradores e gestores vivem dentro da caverna. Acostumaram-se com as sombras projetadas na parede — números, metas, burocracias, rankings. Acham que aquilo é a realidade. Não enxergam a luz da educação. Não veem que o verdadeiro aprendizado não está nos formulários, mas no brilho nos olhos de uma criança que descobre o próprio corpo, no abraço de uma família que se sente acolhida, na autonomia que germina onde antes havia só tristeza.

Enquanto não romperem as correntes da gestão fria e saírem da caverna para sentir o sol da experiência viva, a escola continuará sendo esse lugar onde se entra com esperança e se sai com o peso de oportunidades desperdiçadas.

Mas a EDISCA, Palmas, MH2O, Empresas juniores e outras dezenas me ensinaram: a luz existe. E está do lado de fora. Basta querer enxergar.


O controle da educação produz um efeito perverso. O burocrata que não viveu a transformação na própria vida, que nunca lutou pela mudança social nem enxergou na educação um caminho de libertação, se perpetua em modelos fáceis. Modelos que, convenhamos, beiram a idiotice: reduzir a formação de um ser humano inteiro a duas notas. Duas notas que não revelam nada sobre a educação integral para a vida — não medem a coragem, não pesam a solidariedade, não capturam a beleza de uma criança que descobre o que é dançar, viver, sonhar, brincar, ser.

Esses senhores, mesmo tendo milhões — bilhões, às vezes — destroem a educação. Destroem não só a escola. Destroem o futuro e o presente de milhões de vidas.

E diga-se: nas últimas décadas, nada mudou. A pobreza aumentou. O crime se expandiu. Os indicadores sociais continuam praticamente os mesmos, quando não pioram. Gera-se mais exclusão, mais desigualdade — espelho de uma educação que também não ensina a gritar.

Porque é isso: nem os alunos, nem as famílias, nem os professores que já enxergam a luz podem continuar calados. Eles precisam aprender a gritar. Precisam aprender a sonhar em voz alta. E é exatamente isso que define a saída da caverna para a luz: a saída pela luta.

Não por decreto. Não por planilha. Não por meta de gestor iluminado por telas de computador.

A saída se dá por condições óbvias: cada comunidade, cada escola, cada sujeito precisa saber definir suas próprias prioridades — sem depender de tecnocratas e capitães do matoque nos tratam alunos, professores e famílias como número e votos. Desses que se julgam donos do conhecimento, mas nunca sujaram os pés no chão da sala de aula que transforma.

Se fossem avaliados pelos seus resultados, o que esses burocratas agregam à educação? Pelo contrário: eles só destroem. Destroem a curiosidade, destroem a alegria, destroem a autonomia. Transformam a escola em mais um mecanismo de reprodução da miséria — não apenas a material, mas a miséria da alma que não aprendeu a lutar.

A caverna segue escura enquanto eles insistirem em projetar sombras. Mas do lado de fora, há crianças no EDISCA e vários outros projetos saindo felizes para enfrentar a grande batalha de lutar pela vida, família e comunidade não apenas por si. Há movimentos populares sem um centavo resistindo. Há professores que aprenderam a gritar. E é por esses que a luz ainda não se apagou.

Então, aqui estou eu. Com meu sofrimento psíquico como educador — ou seria como educando? — porque conheço, infelizmente, como os governos e os partidos operam. Lutei nas ruas, conheço a luta dos movimentos sociais, sei o que é conquistar poucos recursos e fazer a diferença. Vi com meus próprios olhos ONGs — como a EDISCA — inaugurarem tecnologias sociais inovadoras com muito mais impacto e muito menos recurso.

Conheço a cooperação internacional, o Banco Mundial que destina 5 bilhões de dólares para o estado do Ceará e bilhões para Fortaleza. E sei onde esse dinheiro frequentemente se perde. Conheço, por ter atuado como executivo, as empresas que cresceram pelo mercado — e aquelas que cresceram porque tiveram bilhões em incentivos fiscais e dinheiro fácil do Banco do Nordeste. Alavancagem artificial. Crescimento sem raiz.

Quando você junta todo esse olhar — das empresas, das ONGs, dos governos, da cooperação internacional — com o conhecimento que foi produzido por Paulo Freire, por Vygotsky, por Wallon, por Edgar Morin, com a luz de modelos como os de Emília-Romagna, da Finlândia, do Canadá, do Japão... a síntese é muito clara. Não se trata dos Prêmios nacionais e internacionais que ganhei, entre eles do Presidente da UNESCO em Bilbao na Espanha, das diversas organizações e projetos que construímos partindo apenas da ideia e de um grupo de pessoas e mudamos milhares de vidas, e as políticas públicas que lutamo, captamos recursos e construímos de baixo  para cima com as pessoas e comunidades. Trata- se da ideia da razão, do concreto, dos resultados e dos impactos que são desrespeitados pela Casa grande para manter capitães do mato e seus modelos de chicotes sem transformação econômica e social como se a Educação não tivesse haver com o sol e fosse a ilusão das cavernas.    

O que falta é alma. Não é chicote!

Não é dinheiro. Nunca foi. Faltam coragem e vergonha na cara. Falta desobedecer à casa grande. Falta recusar o papel de capitão do mato. Falta olhar para aquelas vidas que não mudam há décadas — seus familiares, seus vizinhos, as crianças da periferia.

Peguem a chamada na escola. Escutem os nomes. Cada nome é uma história de luta, de resistência, de potência à espera de um gesto. Mas o sistema segue tratando esses nomes como números, como metas, como estatísticas de evasão.

O sofrimento psíquico do educador que enxerga a luz é este: saber que a solução existe, que os modelos funcionam, que a ciência da educação já mostrou o caminho — e ver, todos os dias, a mesma cegueira voluntária. Os mesmos burocratas. As mesmas desculpas. A mesma falta de alma. 

Enquanto isso, do lado de fora da caverna, o sol continua brilhando. E as crianças do EDISCA continuam saindo felizes. Pequenas vitórias que desafiam todo o sistema. E nos dão, apesar de tudo, a força para continuar gritando. 

 

São décadas e décadas de reprodução. 

Repito é só olhar pela chamada da escola. Ali estão os nomes: filhos, pais, avós, bisavós, tataravós. Quinhentos anos dos condenados da escola. A mesma exclusão se repetindo geração após geração, como uma herança maldita que ninguém se atreveu a quebrar.

Então, a pergunta que não quer calar: o que fazer? 

Se não olharmos para aquele que abandona a escola — não como estatística, mas com escuta —, nada muda. 

Se não olharmos para aquele que tem o menor resultado — não para rotulá-lo como problema, mas para compreender suas condições —, nada muda. 

Se escolhermos uma minoria para fabricar um falso case de sucesso, como tantos fazem, exibindo um ou dois "exemplos de superação" enquanto excluem 60% da população, nada muda. Pelo contrário: a maquiagem dos casos isolados só aprofunda a ferida de quem fica de fora. 

Se não quebrarmos o modelo da sala de aula — essa fileira de carteiras, esse silêncio imposto, essa hierarquia que não dialoga — e não criarmos outros espaços de encontro, de conversa, de escuta verdadeira, nada muda. 

Se não houver escuta dos educadores — aqueles que estão na linha de frente, que veem o rosto de cada criança, que carregam no peito o cansaço e a esperança —, nada muda. 

Esse é o sol da educação. Aquele que é capaz de libertar da caverna. Não é um sol distante, teórico, acadêmico. É um sol que arde na pele de quem se recusa a reproduzir a mesma escuridão de quinhentos anos. 

Olhar para os condenados da escola. Escutar. Quebrar. Criar. Escutar de novo. Só assim saímos da caverna. 

Porque a caverna não é feita de pedra. É feita de omissão. E a luz não é um prêmio. É uma luta. 

 

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