SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Que venha 2026, com a riqueza de todas as vozes e a unidade de um só coração na Terra.



Português (Base)

Feliz 2026! Que este novo ano seja abençoado com paz que acalma os corações, amor que une as famílias, e vida em sua plenitude. Que a prosperidade floresça em nossos lares, guiada pela sabedoria para escolhermos o melhor caminho. Que a proteção de Deus guarde nossos passos e renove a esperança na Terra, nosso lar comum.


English (Inglês)

Happy 2026! May this new year be blessed with peace that mends the world, love that bridges all divides, and life celebrated in every breath. May prosperity grow from our shared efforts, guided by the wisdom to build a kinder future. May God's protection shield our journeys and inspire us to be stewards of this beautiful Earth.


Español (Espanhol)

¡Feliz 2026! Que este nuevo año esté bendecido con la paz que teje entendimiento, el amor que fortalece la comunidad, y la vida que se renueva cada día. Que la prosperidad llegue a cada hogar, iluminada por la sabeduría de nuestros ancestros. Que la protección de Dios cubra nuestros caminos y nos guíe para cuidar con gratitud de nuestra Madre Tierra.


Deutsch (Alemão)

Frohes 2026! Möge dieses neue Jahr gesegnet sein mit Frieden, der Herzen verbindet, Liebe, die Geborgenheit schenkt, und Leben in seiner kostbaren Fülle. Möge Wohlstand durch Fleiß und Gemeinsinn wachsen, geleitet von der Weisheit, das Wesentliche zu erkennen. Möge Gottes Schutz uns alle behüten und uns die Kraft geben, verantwortungsvoll unsere Erde, die Heimat aller, zu bewahren.


עִבְרִית (Hebraico) - Transliterado e Traduzido

Shanah Tovah 2026! (שנה טובה 2026)
Que este ano seja abençoado com shalom (paz) que traz harmonia, ahavah (amor) que constrói laços, e chayim (vida) em abundância. Que a hatzlachah (prosperidade) seja fruto do nosso trabalho justo, iluminada pela chochmah (sabedoria) da Torá. Que a proteção de Hashem (Deus) envolva nossas vidas e nos conceda a missão sagrada de proteger a Criação, o jardim que nos foi confiado.


中文 (Chinês - Mandarim)

2026 新年快乐!(Xīnnián kuàilè!)
愿新的一年充满和平(hépíng),治愈世界;充满(ài),连接心灵;愿生命(shēngmìng)繁荣昌盛。愿繁荣(fánróng)与努力同行,并由祖先的智慧(zhìhuì)指引前路。愿上天(Shàngtiān)的护佑照亮每一步,并赋予我们和谐与平衡的智慧,珍惜我们共同的地球家园。


Italiano (Italiano)

Felice 2026! Che questo nuovo anno sia benedetto dalla pace che rasserena l'anima, dall'amore che rende più forte ogni legame, e dalla vita nella sua gioia più pura. Che la prosperità sia condivisa e generosa, guidata dalla saggezza del cuore. Che la protezione di Dio vegli su di noi e ci doni il coraggio di custodire con dolcezza la Terra, dono prezioso per tutte le creature.


Língua Africana (Exemplo com o Zulu - uma das muitas línguas)

Izilokotho Ezinhle Zonyaka Ka-2026! (Feliz Ano Novo de 2026!)
Makube unyaka onesithuthu (paz) esikhundleni, nothando (amor) oluhlanganisa umndeni wonke, nempilo enothando. Makube nenala (prosperidade) eze ngomsebenzi wethu, ekhokelwa ukuhlakanipha (sabedoria) kwezinyanya zethu. Makube ngesiphepha sikaNkulunkulu (Deus) sivike izinyawo zethu futhi sisinike istthunzi sokugcina indalo, umhlaba wethu wokuzalwa, ube ngowokuthula nenjabulo.
(Nota: O Zulu, como muitas línguas africanas, integra profundamente os conceitos de comunidade (umndeni), ancestralidade (izinyanya) e harmonia com a criação (indalo).)


Fio Condutor Comum

Todos os votos, em suas diferentes sonoridades e referências culturais—seja a Sabedoria da Torá, a Harmonia do Céu, a Criação de Deus ou a Sabedoria dos Ancestrais—convergem para um desejo universal: um futuro onde o bem-estar humano caminhe de mãos dadas com o cuidado sagrado pelo nosso planeta. Que 2026 seja um passo nessa direção.

Que venha 2026, com a riqueza de todas as vozes e a unidade de um só coração.

QUE DEUS ME LIVRE - Chambinho Do Acordeon, ‪@Ruanvitor_vaqueirinhoofc‬


 

Por que 2026 pode ser decisivo no mundo: 'Se você imaginava a Terceira Guerra Mundial como um confronto nuclear, é melhor repensar'

 

Integrantes da guarda de honra do Exército de Libertação Popular da China

Crédito,Maxim Shemetov/EPA/Shutterstock

Legenda da foto,No caso da China, o presidente Xi Jinping tem feito poucas ameaças diretas recentemente contra a ilha autogovernada de Taiwan
    • Author,John Simpson
    • Role,Editor de assuntos internacionais da BBC News
  • Tempo de leitura: 10 min

Conteúdo sensível: Este artigo contém uma descrição gráfica da morte que alguns leitores podem achar perturbadora.

Ao longo da minha carreira, iniciada nos anos 1960, cobri mais de 40 guerras ao redor do mundo. Vi a Guerra Fria atingir o seu auge e, em seguida, simplesmente evaporar. Mas nunca testemunhei um ano tão preocupante quanto 2025; não apenas porque vários grandes conflitos estão em curso, mas porque está ficando claro que um deles tem implicações geopolíticas de importância sem precedentes.

O presidente da UcrâniaVolodymyr Zelensky, alertou que o conflito atual em seu país pode escalar para uma guerra mundial. Depois de quase 60 anos acompanhando conflitos, tenho a desagradável sensação de que ele pode estar certo.

Volodymyr Zelensky (centro) fala à imprensa na cidade de Bucha, a noroeste da capital ucraniana, Kiev, em 4 de abril de 2022

Crédito,AFP via Getty Images

Legenda da foto,O presidente da Ucrânia alertou que o atual conflito no país pode se transformar em uma guerra mundial

Governos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) estão em alerta máximo diante de qualquer sinal de que a Rússia esteja cortando cabos submarinos responsáveis pelo tráfego eletrônico que mantém seus países em funcionamento. Drones russos são acusados de testar as defesas de membros da Otan. Hackers desenvolvem métodos para tirar do ar ministérios, serviços de emergência e grandes corporações.

Autoridades no Ocidente têm convicção de que os serviços secretos russos assassinam ou tentam assassinar dissidentes que buscam refúgio fora da Rússia. Uma investigação sobre a tentativa de assassinato em 2018, em Salisbury (Inglaterra), do ex-agente de inteligência russo Sergei Skripal (além do envenenamento fatal de uma moradora local, Dawn Sturgess), concluiu que o ataque foi autorizado no mais alto nível do Estado russo. Ou seja, pelo próprio presidente da RússiaVladimir Putin.

Desta vez, parece diferente

O ano de 2025 tem sido marcado por três guerras muito distintas. Há, claro, a guerra da Ucrânia, onde a Organização das Nações Unidas (ONU) afirma que 14 mil civis morreram. Há também Gaza, onde o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, prometeu "vingança poderosa" depois que cerca de 1.200 pessoas foram mortas no ataque do Hamas a Israel (em 07/10/23) e outras 251 foram feitas reféns.

Desde então, mais de 70 mil palestinos morreram em ações militares israelenses, incluindo mais de 30 mil mulheres e crianças, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas — números que a ONU considera confiáveis.

Enquanto isso, o Sudão enfrenta uma violenta guerra civil entre duas facções militares. Mais de 150 mil pessoas morreram no país nos últimos dois anos, e cerca de 12 milhões foram forçadas a deixar suas casas.

Talvez, se esse tivesse sido o único conflito de 2025, o mundo externo tivesse feito mais para tentar detê-lo. Mas não foi o caso.

"Sou bom em resolver guerras", disse o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enquanto seu avião o levava a Israel, depois de ter negociado um cessar-fogo nos combates em Gaza. É verdade que menos pessoas estão morrendo agora no território. Apesar do cessar-fogo, porém, a guerra em Gaza está longe de parecer resolvida.

Diante do sofrimento atroz no Oriente Médio, pode soar estranho dizer que a guerra na Ucrânia está em um patamar completamente diferente. Mas está.

O presidente dos EUA, Donald Trump, desembarca do Air Force One

Crédito,Anna Moneymaker / Getty Images

Legenda da foto,"Sou bom em resolver guerras", disse o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
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À exceção da Guerra Fria (1947–1991), a maioria dos conflitos que cobri como jornalista ao longo dos anos foi de menor escala: violentos e perigosos, sem dúvida, mas não graves o bastante para ameaçar a paz mundial. Alguns, como a Guerra do Vietnã (1955-1975), a Primeira Guerra do Golfo (1990–1991) e a Guerra do Kosovo (1998–1999), chegaram, em determinados momentos, a parecer à beira de algo muito pior, mas nunca ultrapassaram esse limite.

As grandes potências eram cautelosas demais diante do risco de que uma guerra convencional e localizada pudesse se transformar em um conflito nuclear.

"Não vou iniciar a Terceira Guerra Mundial por causa de vocês", teria gritado ao rádio o general britânico Sir Mike Jackson, em 1999, no Kosovo, quando um superior da Otan ordenou que forças britânicas e francesas tomassem um aeroporto em Pristina (capital do Kosovo) depois que tropas russas haviam chegado primeiro.

No próximo ano, 2026, no entanto, a Rússia, percebendo a aparente falta de interesse de Trump pela Europa, parece disposta a avançar em busca de uma dominância muito maior.

No início deste mês (02/12), Putin afirmou que a Rússia não planeja entrar em guerra com a Europa, mas disse estar pronta "agora mesmo" caso os europeus queiram.

Em um evento televisionado posterior, declarou: "Não haverá operações se vocês nos tratarem com respeito, se respeitarem nossos interesses, assim como sempre tentamos respeitar os de vocês".

O presidente russo, Vladimir Putin, faz uma declaração durante uma entrevista coletiva

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Putin afirmou que a Rússia não pretende entrar em guerra com a Europa, mas disse estar pronta "agora mesmo" caso os europeus queiram

Mas a Rússia, uma das grandes potências globais, já invadiu um país europeu independente, provocando um elevado número de mortes entre civis e militares. A Ucrânia acusa Moscou de ter sequestrado ao menos 20 mil crianças. O Tribunal Penal Internacional (ICC, na sigla em inglês) expediu um mandado de prisão contra Putin por seu suposto envolvimento no caso, acusação que a Rússia sempre negou.

O governo russo afirma que a invasão ocorreu para se proteger do avanço da Otan, mas o presidente Putin já indicou outro motivo: o desejo de restaurar a esfera de influência regional da Rússia.

Desaprovação americana

Putin tem plena consciência de que o último ano, 2025, trouxe algo que a maioria dos países ocidentais considerava impensável: a possibilidade de um presidente dos EUA virar as costas ao sistema estratégico em vigor desde a Segunda Guerra Mundial (1939–1945).

Os EUA não apenas passaram a demonstrar incerteza quanto à disposição de proteger a Europa como também expressam desaprovação em relação ao rumo que acreditam que o continente vem tomando. O novo relatório de estratégia de segurança nacional do governo Trump afirma que a Europa enfrenta a "perspectiva sombria de apagamento civilizacional".

O governo russo acolheu o documento, dizendo que ele é compatível com a própria visão da Rússia. E, de fato, é.

Dentro do país, segundo a relatoria especial da ONU para direitos humanos na Rússia, Putin silenciou a maior parte da oposição interna a seu governo e à guerra na Ucrânia. Ainda assim, enfrenta dificuldades: a possibilidade de a inflação voltar a subir após um período de arrefecimento, a queda das receitas do petróleo e a necessidade de o governo ter elevado tributos para ajudar a financiar o conflito.

O presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, se reúnem no Salão Oval da Casa Branca

Crédito,Reuters

Legenda da foto,O presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, entraram em confronto durante uma reunião na Casa Branca, em fevereiro de 2025

As economias da União Europeia são dez vezes maiores que as da Rússia, e ainda maior se for incluído o Reino Unido. A população europeia combinada, de cerca de 450 milhões de pessoas, é mais de três vezes superior à da Rússia, estimada em 145 milhões. Ainda assim, a Europa Ocidental tem demonstrado receio de abrir mão de seus confortos e, até recentemente, mostrou-se relutante em arcar com os custos da própria defesa enquanto pudesse contar com a proteção americana.

Os EUA também mudaram: tornaram-se menos influentes, mais voltados para dentro e cada vez mais distintos do país que acompanhei ao longo de toda a minha carreira. Agora, de forma semelhante ao que ocorreu nas décadas de 1920 e 1930, o foco se voltou para os próprios interesses nacionais.

Mesmo que Trump perca parte significativa de sua força política nas eleições legislativas do próximo ano, ele pode ter deslocado o debate tão fortemente em direção ao isolacionismo que até um presidente americano mais alinhado à Otan em 2028 teria dificuldade para socorrer a Europa.

Não pense que Vladimir Putin não tenha percebido isso.

O risco de escalada

O próximo ano, 2026, tende a ser decisivo. Zelensky pode se ver obrigado a aceitar um acordo de paz que implique a perda de uma parte significativa do território ucraniano. A questão é saber se haverá garantias suficientemente sólidas para impedir que Putin volte a avançar dentro de alguns anos.

Para a Ucrânia e seus aliados europeus, que já sentem estar em guerra com a Rússia, essa é uma pergunta central. A Europa terá de assumir uma parcela muito maior do esforço para sustentar o país, mas, se os EUA resolverem virar as costas para a Ucrânia, como às vezes ameaçam fazer, o custo será colossal.

Equipes de resgate procuram pessoas sob os escombros de um prédio residencial destruído por um ataque com míssil russo em Kiev (Ucrânia)

Crédito,Global Images Ukraine via Getty Images

Legenda da foto,Se os EUA virarem as costas para a Ucrânia, isso representará um fardo colossal para a Europa

Mas a guerra poderia se transformar em um confronto nuclear?

Sabemos que o presidente russo, Vladimir Putin, é um jogador. Um líder mais cauteloso teria evitado invadir a Ucrânia em fevereiro de 2022. Seus auxiliares fazem ameaças aterradoras de apagar o Reino Unido e outros países europeus do mapa com as novas e alardeadas armas russas, mas o próprio Putin costuma ser bem mais contido.

Enquanto os EUA seguirem como um membro ativo da Otan, o risco de uma resposta nuclear devastadora por parte americana ainda é alto demais. Ao menos por ora.

O papel global da China

No caso da China, o presidente Xi Jinping tem feito poucas ameaças diretas recentemente contra a ilha autogovernada de Taiwan. Mas, há dois anos, o então diretor da CIA (agência americana de inteligência), William Burns, afirmou que Xi havia ordenado ao Exército de Libertação Popular (as Forças Armadas chinesas) que estivesse pronto para invadir Taiwan até 2027. Se a China não adotar alguma ação decisiva para reivindicar Taiwan, Xi pode considerar isso um sinal de fraqueza, algo que ele não deseja.

Hoje, pode parecer que a China é forte e rica demais para se preocupar com a opinião pública interna. Não é bem assim. Desde o levante contra Deng Xiaoping (1978-1989) em 1989, que terminou no massacre da Praça da Paz Celestial (Pequim), os líderes chineses passaram a monitorar com cuidado obsessivo a reação da população.

Acompanhei aqueles acontecimentos de perto, reportando e, em alguns momentos, chegando a viver na própria praça.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, o presidente da China, Xi Jinping, e o líder da Coreia do Norte, Kim Jong Un

Crédito,Alexander Kazakov / Reuters

Legenda da foto,O presidente Xi Jinping (ao centro) tem feito poucas ameaças diretas a Taiwan recentemente

A história de 4 de junho de 1989, no massacre da Praça da Paz Celestial, não foi tão simples quanto se imaginava à época: soldados armados atirando contra estudantes desarmados. Isso de fato aconteceu, mas havia outra batalha em curso em Pequim e em muitas outras cidades chinesas. Milhares de trabalhadores comuns foram às ruas, determinados a usar o ataque aos estudantes como uma oportunidade para derrubar, de vez, o controle do Partido Comunista Chinês.

Quando percorri as ruas dois dias depois, vi pelo menos cinco delegacias e três sedes locais da polícia de segurança completamente queimadas. Em um subúrbio, uma multidão enfurecida havia ateado fogo a um policial e apoiado seu corpo carbonizado contra um muro. Um boné de uniforme fora colocado de maneira displicente em sua cabeça, e um cigarro havia sido enfiado entre seus lábios enegrecidos.

Ficou claro que o Exército da China não estava apenas reprimindo um protesto estudantil de longa duração, mas sufocando um levante popular protagonizado por cidadãos comuns.

A liderança política chinesa, ainda incapaz de apagar as lembranças do que ocorreu há 36 anos, mantém vigilância constante em busca de sinais de oposição, seja de grupos organizados como o Falun Gong (grupo espiritual banido na China desde o fim dos anos 1990), de igrejas cristãs independentes, do movimento pró-democracia em Hong Kong, ou mesmo de pessoas que protestam contra corrupção local. Todos são reprimidos com grande força.

Passei boa parte do tempo desde 1989 cobrindo a China, acompanhando sua ascensão ao poder econômico e político. Cheguei, inclusive, a conhecer um político de alto escalão que foi rival de Xi Jinping. Seu nome era Bo Xilai, um anglófilo que falava com surpreendente franqueza sobre a política chinesa.

Ele me disse certa vez: "Você nunca vai entender o quão inseguro um governo se sente quando sabe que não foi eleito".

Bo Xilai acabou condenado à prisão perpétua em 2013, após ser considerado culpado por suborno, desvio de recursos e abuso de poder.

John Simpson em reportagem na Praça da Paz Celestial, na China
Legenda da foto,John Simpson passou boa parte do tempo cobrindo a China desde 1989 (na foto, na Praça da Paz Celestial, em 2016)

Ou seja, 2026 tende a ser um ano decisivo. A força da China continuará a crescer, e sua estratégia para tomar Taiwan, a grande ambição de Xi, ficará mais clara. É possível que a guerra na Ucrânia seja encerrada, mas em termos favoráveis a Putin.

Ele pode ficar livre para avançar novamente sobre território ucraniano quando considerar oportuno. E Trump, mesmo que tenha sua força política reduzida nas eleições legislativas de novembro, tende a afastar ainda mais os EUA da Europa.

Do ponto de vista europeu, o cenário dificilmente poderia ser mais sombrio.

Se você imaginava que a Terceira Guerra Mundial seria um confronto armado com armas nucleares, é melhor repensar. É muito mais provável que se manifeste como um conjunto de manobras diplomáticas e militares, em um contexto no qual a autocracia ganhe espaço. Isso pode, inclusive, ameaçar a coesão da aliança ocidental.

E esse processo já começou.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Vidas Roubadas e a Realidade Brasileira como “Mercado da Morte”!




Os livros “Vozes do Bolsa Família” (2013) e “Vidas Roubadas” (2025), da dupla de filósofos e cientistas políticos Alessandro Pinzani e Walquiria Leão Rego, constituem trabalhos fundamentais para compreender a realidade social brasileira a partir das narrativas dos mais pobres. Através de entrevistas e uma escuta atenta, os autores dão rosto e voz aos beneficiários do maior programa de transferência de renda do mundo, expondo não apenas a luta pela sobrevivência, mas também a busca por dignidade, reconhecimento e cidadania.

Em “Vozes do Bolsa Família”, fica claro que o programa foi uma âncora de sobrevivência, evitando a fome extrema e permitindo um mínimo de planejamento doméstico. Já em “Vidas Roubadas”, o foco se aprofunda na ideia de que a pobreza no Brasil é um processo ativo de espoliação de capacidades e futuros. Não se trata apenas da falta de recursos, mas da negação sistemática de oportunidades, confinando gerações a uma existência reduzida à mera subsistência ou à vulnerabilidade frente a violências de todo tipo.




Para dimensionar o “roubo” de vidas descrito por Pinzani e Rego, é essencial contrastar os indicadores brasileiros com os de países desenvolvidos ou com elevado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), onde políticas públicas robustas garantem patamares mínimos de existência digna:

  • Renda e Pobreza: Após o desmonte de políticas sociais e a pandemia, a fome retornou ao Brasil. Em 2023, o IBGE apontava que 62 milhões de brasileiros (29% da população) viviam na pobreza, e 18 milhões na extrema pobreza. Enquanto isso, em países como Dinamarca, Finlândia ou Alemanha, a extrema pobreza é praticamente inexistente, graças a redes de proteção social universais e salários mínimos que realmente garantem condições de vida. A renda básica, tema caro a Pinzani, é uma realidade experimental ou debatida nesses países; no Brasil, o Bolsa Família (agora Auxílio Brasil), mesmo vital, é uma política focalizada e de valor insuficiente para superar a pobreza.

  • Escolaridade: O Brasil possui uma das piores médias de anos de estudo e desempenho no PISA entre os países da OCDE. A evasão escolar, especialmente no ensino médio, está frequentemente atrelada à necessidade de trabalho precoce ou à falta de perspectivas. Em nações como Coreia do Sul ou Canadá, a educação pública de qualidade é um pilar incontestável, um verdadeiro equalizador social. No Brasil, a educação ainda reproduz desigualdades.

  • Saúde: O SUS, apesar de ser uma conquista civilizatória, sofre com subfinanciamento crônico. A mortalidade infantil (11,9 por mil nascidos vivos em 2022, segundo a OPAS) é mais que o dobro da média da União Europeia (3,8). A expectativa de vida no Brasil (cerca de 76 anos) está estagnada e é inferior em mais de 5 anos à de países como Japão, Suíça ou Itália. O acesso a especialistas e a tratamentos complexos é um abismo separando ricos e pobres.

  • Condições de Moradia: O déficit habitacional brasileiro é de milhões de lares, com quase 6 milhões de famílias vivendo em aglomerados subnormais (favelas), sem acesso adequado a saneamento. Em 2022, cerca de 40% da população não tinha coleta de esgoto, e o índice de tratamento era ainda pior. Em contraste, países como Holanda ou Singapura praticamente erradicaram a moradia indigna e garantem saneamento universal como direito básico.

  • Violência e Segurança: Este é o ponto onde a metáfora das “vidas roubadas” se torna mais literal. O Atlas da Violência (IPEA/FBSP) revela anualmente o caráter epidêmico e seletivo da violência no Brasil. Homens, jovens, negros e pobres são as principais vítimas de homicídios. A taxa de homicídios brasileira (cerca de 22 por 100 mil hab.) é um múltiplo assustador da observada na Europa (em média abaixo de 1,5). Jovens são “entregues para morrer” no crime ou nas mãos do Estado, num ciclo perverso que ceifa futuros.

É nesta encruzilhada de privações e violências que a análise de Walter Maierovitch em “O Mercado da Morte: As Milícias, o PCC e a Guerra no Brasil” (2022) se torna a peça final e conclusiva deste quadro terrível. Maierovitch, ex-secretário nacional de Justiça, demonstra como a corrupção sistêmica, a inoperância do Estado e a brutal desigualdade criaram o ecossistema perfeito para o florescimento de um verdadeiro “mercado da morte”. Neste mercado, transaciona-se com vidas, territórios, armas, drogas e influência política. A violência não é um acidente, mas um negócio, alimentado pela exclusão social descrita por Pinzani e Rego.




Conclusão:

A obra de Pinzani e Rego nos mostra o rosto humano da desigualdade: vidas cujos potenciais são roubados pela privação. Os dados sociais comparativos com outros países evidenciam o abismo civilizatório que separa o Brasil de nações onde a dignidade humana é um pilar da sociedade. E a análise de Maierovitch e o Atlas da Violência expõem a máquina mortal que opera neste vácuo de direitos: um complexo mercado onde a corrupção, a ganância e a negligência do Estado convertem a desigualdade em lucro e a exclusão em morte.

O Brasil, portanto, não é apenas um país de desigualdades. É, nas palavras de Maierovitch e na síntese dos dados aqui apresentados, o “Mercado da Morte”. Um mercado onde a vida dos pobres é a principal commodity, seja pela lenta morte da fome, da doença tratável ou da falta de futuro, seja pela morte rápida e violenta do homicídio. As “vidas roubadas” são o insumo deste mercado. A brutal desigualdade é sua condição de existência. A corrupção é seu lubrificante. Até que esse circuito perverso seja rompido por um projeto nacional de inclusão, justiça e efetivo Estado de Direito, continuaremos a assistir passivamente ao maior e mais cruel dos roubos: o do direito básico de existir com dignidade.