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terça-feira, 16 de junho de 2026

Atenção: o texto abaixo contém travessões.


 Atenção: o texto abaixo contém travessões. Aqueles traços longos — elegantes, pausados, levemente dramáticos — que aparecem para intercalar ideias, introduzir falas ou simplesmente dar respiro à frase. Proceda com cautela. Ou não.


Vivemos um momento singular na história da língua: o travessão — esse sinal gráfico nobre, herdeiro de séculos de prosa literária — foi promovido a principal suspeito de robotismo textual. Se o seu texto tiver uma oração intercalada entre travessões, prepare-se. Alguém vai apertar o botão de alerta: "Isso foi escrito por IA."

A ironia, claro, é digna de nota acadêmica.

O travessão existe desde antes de qualquer algoritmo. É um recurso estilístico e ortográfico consagrado, presente nas gramáticas normativas e na melhor literatura. Machado de Assis usava o travessão — com maestria e frequência. Clarice Lispector usava o travessão — às vezes como punhal, às vezes como abraço. Fernando Pessoa usava o travessão. Mesmo James Joyce, o autor irlandês que quebrou as regras acadêmicas da gramática tradicional, optava pelo travessão para isolar as falas dos personagens de forma mais fluida e direta dentro do texto. Todos eles, presumo, sem acesso a IA.

Vejam o que aconteceu: os sistemas de IA foram treinados em bilhões de palavras escritas por humanos que dominavam a língua. Logo, aprenderam a usar o travessão com precisão — às vezes até com mais consistência do que nós, que anos de WhatsApp transformaram em escritores de reticências compulsivas e parênteses em cascata. E agora, como a IA usa o travessão com desenvoltura, ele passou a ser "marca de IA". O raciocínio é impecável. Da mesma forma que poderíamos concluir que usar vírgula é sinal de robô, porque robôs também usam vírgulas.

Do ponto de vista da Comunicação, estamos diante de um fenômeno fascinante: a transferência de estigma por proximidade. O sinal gráfico não mudou. O que mudou foi a associação cognitiva do leitor. É menos linguística e mais semiótica: o travessão virou índice de suspeição não pelo que é, mas pelo que passou a coocorrer com ele no imaginário coletivo.

Mas há um problema prático: se passarmos a evitar o travessão para não parecer IA, estaremos empobrecendo deliberadamente nossa escrita como prova de autenticidade. Vamos abrir mão de um recurso expressivo sofisticado para soar mais humanos. É o equivalente a falar com sotaque forçado para provar que você não é um assistente de voz bem calibrado.

Minha posição, enquanto professor e comunicador: escreva bem. Use o travessão onde ele cabe — para intercalar, para pausar, para dar ênfase, para conduzir o leitor pelo raciocínio com elegância. Não abra mão de um instrumento da língua por conta de uma associação cognitiva equivocada e passageira.

Se quiser mostrar que seu texto é humano, não suprima o travessão. Mostre perspectiva. Mostre contradição. Mostre aquela frase que começa de um jeito e termina de outro porque você mudou de ideia no meio. Isso — por enquanto — a IA ainda não dominou.

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