Personagens
O CORONEL — Oligarca, sócio majoritário do "Estado Ceará LTDA". Sessenta e sete anos. Terno branco, anel de diamante, revólver na cintura. Suas mãos nunca tocaram sangue — contratou quem roubasse. Carrega dentro de si uma ferida antiga: apanhou do pai aos oito anos. Nunca mais chorou. Agora, espanca o mundo. Sua psicologia é a do tirano: narcisismo insaciável, incapacidade de tolerar a diferença, desprezo pela contemplação, mentira sistemática. Não é apenas cruel — é infantil, preso em estágios primitivos onde o mundo deve se curvar à sua vontade imediata.
LAMPIÃO (Virgulino Ferreira da Silva) — O Rei do Cangaço. Couro, chapéu de abas largas, cinturão de balas, fuzil. Viveu, morreu, e voltou. Traz a fúria de quem nunca se curvou. Sabe que é símbolo, e o símbolo pesa.
PADRE CÍCERO (Cícero Romão Batista) — O santo do Juazeiro. Hábito negro, olhos de quem viu milagres e misérias demais. Carrega um terço de osso. Sabe que abençoou o diabo. Sabe que o diabo sorria quando recebia a hóstia.
DRAGÃO DO MAR (Francisco José do Nascimento) — O estivador que recusou transportar escravos. Negro, nú até a cintura, correntes quebradas nos pulsos. Sua força é a de quem aprendeu que dizer "não" é o primeiro verbo da liberdade.
BÁRBARA DE ALENCAR — Matriarca da revolução pernambucana de 1817 e 1824. Velha, feroz, vestida de luto perpétuo. Carrega uma bandeira rasgada da Confederação do Equador. Já viu filhos morrerem na prisão. Continua de pé.
PATATIVA DO ASSARÉ (Antônio Gonçalves da Silva) — Poeta popular, cego de um olho, viola na mão. Suas rimas são facas de dois gumes: cortam o coronel e cortam quem ouve.
RAQUEL DE QUEIROZ — Escritora, testemunha do Ceará de 1915 e de todos os cercos. Olhar que atravessa o tempo. Caderneta na mão. Sabe que a literatura não muda o mundo — mas documenta a ferida.
O POVO — Uma multidão. Não é massa de manobra. É feito de indivíduos: o MENINO, a VELHA, o VAQUEIRO, a MULHER. Cada um tem nome, tem fome, tem sede, tem raiva, tem medo.
O ARTISTA — É aquele que pinta, esculpe, compõe, escreve. Sua função é ser o "container" do trauma coletivo. Ele metaboliza o horror. Ele paga o preço.
O PSICANALISTA — Personagem inspirado em Sklar e nos conceitos de sadomasoquismo coletivo. Aparece em momentos-chave para dissecar a psicologia da tirania.
TRÊS SOCIÓLOGOS FANTASMAS — Usam terno e gravata, citam números. São o pensamento que tenta explicar o inexplicável.
Estrutura da Peça
A tragédia se desenrola em onze capítulos, cada um correspondendo a uma fase da tirania:
Ângulos Oblíquos
Política Partidária
Populismo Fraudulento
Uma Questão de Caráter
Facilitadores — A Ecologia do Medo
Tirania Triunfante
O Instigador
Loucura nos Grandes — O Sadomasoquismo Coletivo
Queda e Ressurgimento
Ascensão Resistível
O Preço do Artista — O Container do Trauma
CAPÍTULO 1 — ÂNGULOS OBLÍQUOS
"O tirano não chega de frente. Chega de lado, sorrindo, com um contrato na mão."
O palco está vazio. Apenas uma tela enorme no fundo. Projeta-se uma imagem: detalhe de O Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymus Bosch — a figura do Homem-Árvore, um ovo gigante com pernas, dentro do qual pessoas são devoradas.
Entram os TRÊS SOCIÓLOGOS FANTASMAS. Eles não falam entre si. Falam para o público, como quem apresenta um seminário.
SOCIÓLOGO 1 — (Citando Casa-Grande & Senzala)
"A colonização do Ceará foi obra de vaqueiros e padres, de degredados e índios aldeados. Mas a escritura verdadeira foi lavrada pelos senhores de gado."
SOCIÓLOGO 2 — (Citando Os Sertões)
"O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Mas a força não bastou. Vieram as secas. Vieram os coronéis. Vieram os currais de gente."
SOCIÓLOGO 3 — (Citando Aldeota)
"Fortaleza se fez de calçada portuguesa e sobrado francês. Mas os alicerces são de osso sertanejo. Ninguém perguntou aos ossos se queriam sustentar o baile."
*Os três somem. A tela muda. Agora é um autorretrato de Max Beckmann — "Self-Portrait with Cigarette", 1945. O rosto do pintor é uma máscara de angústia contida.*
Entra O ARTISTA. Não tem idade fixa. Pode ser jovem ou velho. Carrega uma tela em branco e um pincel. Seu olhar é o de quem já viu demais.
O ARTISTA — (Para o público)
"Beckmann pintou assim. O mundo estava desabando. Os nazistas o chamaram de 'degenerado'. Ele não fugiu do autorretrato. Ele se agarrou à própria imagem como quem se agarra a uma boia no naufrágio. Jonathan Sklar, em The Soft Power of Culture, escreveu: 'A arte sob tirania afirma o ego frágil diante do autoritarismo crescente, um esforço desesperado de autointegração antes da aniquilação histórica.'"
Ele começa a pintar. Não vemos o que. Veremos depois.
Luz sobre o CORONEL. Ele está sentado numa cadeira de couro cru, diante de um mapa do Ceará. O mapa sangra — mas o sangue é seco, velho, como ferida que nunca cicatrizou.
CORONEL — (Para o público, com a intimidade de quem confessa um pecado do qual se orgulha)
"Meu bisavô chegou aqui em 1812. Não tinha nada. Só a coragem e uma carta de sesmaria assinada pelo vice-rei. A terra era dos índios? Era de ninguém? Era de Deus? Meu bisavô entendia de um Deus só: o Deus que dá a terra a quem tem bala para tomá-la."
Ele se levanta. Caminha até o mapa. Aponta.
"Aqui era o Jaguaribe. Meu avô tomou. Aqui era o Cariri. Meu pai comprou por duas missas e uma ameaça. Aqui era o Sertão Central. Eu tomei — com a caneta, com o acordo, com a liminar, com a bala. O nome é limpo: Coronel. Mas o ofício... o ofício é dono."
Pausa. Ele sorri. É um sorriso de gelo.
"Me chamam de Coronel. Nunca fui coronel. Mas o povo precisa de título. Precisa saber diante de quem se ajoelhar."
Lampião entra. Não pela porta — surge da tela de Bosch, como se o inferno medieval tivesse parido um cangaceiro do século XX.
LAMPIÃO — "Coronel. Lugar de coronel é no cemitério. E eu sei bem onde fica a cova de cada um."
O Coronel não se move. Apenas vira a cabeça.
CORONEL — "Virgulino. Sentiu saudades do Ceará? A última vez que veio, em 1926, deixou rastro. Queimou fazenda, soltou preso, matou delegado. Foi bonito. Inútil, mas bonito."
LAMPIÃO — "Inútil? Matei uns trinta dos teus. Cada um valia mais que tu."
CORONEL — (Rindo baixo)
"Trinta? Eu perdi trinta capangas num fim de semana. Não senti falta. O Ceará produz jagunço como produz jumento — barato e descartável."
LAMPIÃO — "Tu não sente nada, coronel. Não sente fome. Não sente sede. Não sente o cheiro do sangue dos outros? Porque o teu... o teu é frio."
O Artista, que continuou pintando durante todo o diálogo, vira a tela para o público. Vemos um esboço: o Coronel com rosto de pássaro, dentro de um ovo, devorando pequenas figuras humanas. Uma citação visual de Bosch.
O ARTISTA — "Bosch pintou assim. Uma paisagem onírica de ansiedades paranoides-esquizoides. O caos interior espelha a ameaça exterior. A tirania é psicológica antes de ser política. O inferno começa dentro. Sklar diria: 'A arte funciona como um espaço transicional onde o trauma pode ser metabolizado antes que seja nomeado.'"
CAPÍTULO 2 — POLÍTICA PARTIDÁRIA
"O tirano não abole os partidos. Ele os compra."
O palco agora é uma assembleia legislativa. Cadeiras vazias. Apenas uma mesa, com três microfones. O CORONEL está sentado à mesa. Ao seu lado, dois POLÍTICOS GENÉRICOS — podem ser trocados por qualquer nome, qualquer partido, qualquer rosto.
Entra RAQUEL DE QUEIROZ. Ela não é convidada. Ela simplesmente observa, caderneta em punho.
CORONEL — (Para os políticos)
"O governador quer aumentar o ICMS da água. A água, meus senhores. A água que está nos meus açudes. Ele quer que eu pague imposto sobre a minha própria água. Isso é comunismo."
POLÍTICO 1 — "Coronel, o governador é do partido..."
CORONEL — (Interrompendo)
"O partido não me interessa. O que me interessa é a emenda. A emenda que eu escrevi. A emenda que dá isenção fiscal para quem armazena água. A emenda que o senhor vai apresentar amanhã."
Ele empurra um papel sobre a mesa.
POLÍTICO 2 — "Coronel, isso é... isso é um favorecimento explícito."
CORONEL — "É. E o senhor vai votar a favor. Porque o senhor deve três campanhas para mim. Porque o senhor usa minha fazenda para fazer churrasco com os eleitores. Porque a mulher do senhor trabalha na minha empresa. Porque o filho do senhor estuda na mesma escola que o meu neto. Porque o senhor... o senhor é meu."
Silêncio. Raquel anota.
RAQUEL — (Para o público, sem tirar os olhos da caderneta)
"Assim funciona. Não é corrupção. É 'articulação política'. Não é compra de voto. É 'investimento em base aliada'. Não é ditadura. É 'governabilidade'. Os nomes mudam. O jogo é o mesmo desde 1889. Stephen Greenblatt chamaria isso de 'política partidária' — o tirano não precisa destruir as instituições. Ele precisa colonizá-las."
O Artista aparece. Agora pinta rapidamente, com traços grossos e negros. Mostra a tela: uma engrenagem onde os dentes são rostos sorridentes — e o centro da engrenagem é um olho sem pálpebra, o olho do Coronel.
CAPÍTULO 3 — POPULISMO FRAUDULENTO
"O tirano ama o povo. Ama o povo como o carrasco ama o condenado — precisa dele para existir."
O palco se transforma. Agora é um palanque. Bandeiras. Alto-falantes. Uma multidão (O POVO) está reunida. O CORONEL sobe ao palanque. Abraça uma CRIANÇA. Chora uma lágrima de crocodilo.
CORONEL — (Gritando)
"MEU POVO! MEU QUERIDO POVO! Eu nasci aqui. Eu cresci aqui. Eu vi meu pai chorar quando a seca levou o gado. Eu vi minha mãe repartir o último punhado de farinha entre doze irmãos. Eu sei o que é fome! Eu sei o que é sede! Eu sou um de vocês!"
O POVO aplaude. Nem todos. Alguns aplaudem. Outros ficam em silêncio. Outros olham para o chão.
HOMEM DO POVO 1 — (Baixo, para a mulher ao lado)
"Ele nunca passou fome. O pai dele comprava farinha a granel."
MULHER DO POVO 1 — (Mais baixo ainda)
"Cala a boca. Os homens dele estão ali atrás."
De fato, atrás do palanque, três JAGUNÇOS de óculos escuros. Não armados — pelo menos não visivelmente. Mas a ameaça está ali.
CORONEL — (Continuando)
"Eles dizem que eu sou coronel. Que eu sou oligarca. Que eu sou dono da água. Mentira! A água é de Deus! A terra é de Deus! O que eu tenho, eu conquistei com trabalho. E vou dividir com vocês! Vou construir cisterna! Vou abrir poço! Vou trazer caminhão-pipa! VOCÊS ACREDITAM EM MIM?"
Parte do POVO grita: "ACREDITAMOS!" Outra parte fica em silêncio. A terceira parte... está morta. São os FANTASMAS DOS RETIRANTES, que ninguém vê exceto o público.
Padre Cícero entra. Não pelo palanque — pelo fundo, caminhando entre os mortos. Ele abençoa cada um.
PADRE CÍCERO — (Murmúrio)
"Ele promete cisterna desde 1982. As cisternas nunca vieram. Mas os votos... os votos sempre vêm."
Raquel anota.
RAQUEL — "Populismo fraudulento. O líder se apresenta como redentor. Promete o que não pode cumprir. Culpa o inimigo invisível. E o povo aplaude porque a esperança... a esperança é mais forte que a memória. Greenblatt diria: o tirano não é apenas cruel — ele é infantil. Acredita que o mundo deve se curvar à sua vontade imediata. E o povo, por um momento, acredita também."
O Artista mostra a tela: o Coronel como vendedor de elixir, num palco de circo, com uma plateia de cabeças sem corpo — apenas bocas abertas, gritando.
CAPÍTULO 4 — UMA QUESTÃO DE CARÁTER
"O tirano não é um erro de sistema. O tirano é um erro de caráter. E o caráter se forja na infância."
O palco escurece. Luz única sobre uma CADEIRA. Nela, um HOMEM DE 40 ANOS — é o CORONEL jovem. Diante dele, um HOMEM MAIS VELHO — seu PAI.
PAI — (Bêbado, cinto na mão)
"Você não vai ser moleque igual seu tio. Você vai ser homem. Homem de verdade. Homem que manda. Homem que bate. Homem que não chora."
O CORONEL jovem está ajoelhado. Não chora. Os olhos estão secos. Mas o corpo treme.
PAI — "Tira a camisa."
O CORONEL jovem obedece. O PAI bate. Uma vez. Duas. Três. O público ouve o som do couro na carne.
PAI — "Pronto. Agora você sabe. O mundo é assim. Quem bate manda. Quem apanha obedece. Escolhe seu lado."
O PAI sai. O CORONEL jovem continua ajoelhado. Levanta-se lentamente. Veste a camisa. Olha para as próprias mãos.
CORONEL jovem — (Para si mesmo)
"Eu escolhi."
Luz volta ao presente. O CORONEL velho está no mesmo lugar. Diante dele, BÁRBARA DE ALENCAR.
BÁRBARA — "Eu também tive um pai que batia. Mas eu não virei tirana. Eu virei revolucionária. A diferença, coronel, é que eu escolhi bater de volta. O senhor escolheu bater em quem era mais fraco."
CORONEL — (Com uma calma que assusta)
"Não há diferença, dona Bárbara. É a corrente. É a natureza."
BÁRBARA — "Não. É a escolha. Greenblatt escreveu: 'A psicologia tirânica é marcada por narcisismo insaciável, incapacidade de tolerar a diferença, desprezo pela contemplação e mentira sistemática.' O senhor não nasceu assim. O senhor se fez assim. Escolheu."
O Artista mostra a tela: um homem sentado numa cadeira, com um chicote na mão. Mas o chicote se enrola no próprio pescoço do homem. Ele está se açoitando.
CAPÍTULO 5 — FACILITADORES — A ECOLOGIA DO MEDO
"O tirano nunca governa sozinho. Governa com aqueles que dizem 'não vi', 'não sabia', 'não foi bem assim'."
O palco é um escritório. O CORONEL está à mesa. Ao seu redor, cinco pessoas: um JUIZ, um PROMOTOR, um JORNALISTA, um EMPRESÁRIO e um BISPO.
Entra o PSICANALISTA. Ele não interage diretamente com os personagens — observa, como quem faz uma supervisão clínica.
PSICANALISTA — (Para o público)
"A ascensão da tirania nunca é obra de um homem só. Depende de uma ecologia de medo, esperança, negação e normalização. Mecanismos psicológicos que permitem que pessoas comuns participem ou tolerem o intolerável. O medo: a ameaça implícita ou explícita de violência. A esperança: a promessa de participação nos espólios do poder. A negação: a capacidade de não ver o que está diante dos olhos. A normalização: a transformação gradual do extraordinariamente cruel em rotineiro."
CORONEL — (Aos cinco)
"Eu preciso desapropriar a comunidade do Bom Jesus. Tem 47 famílias lá. A terra é minha. Mas elas entraram com ação. Eu quero que essa ação desapareça."
O JUIZ coça a orelha. O PROMOTOR olha para o teto. O JORNALISTA anota o que o Coronel quer que seja dito. O EMPRESÁRIO sorri. O BISPO benze-se.
JUIZ — "Coronel, a ação está na 3ª Vara. O juiz de lá..."
CORONEL — "Eu sei quem é. Fui eu quem indicou. Mas ele está hesitando. Preciso que o senhor... converse com ele."
JUIZ — "Conversar?"
CORONEL — "Conversar. O senhor é desembargador. Tem influência. Tem capacidade de orientar."
O JUIZ suspira. A luta interna é visível.
JUIZ — (Finalmente)
"Posso conversar. Apenas conversar."
CORONEL — "Claro. Apenas conversar."
O PROMOTOR se adianta.
PROMOTOR — "Coronel, se o juiz decidir a favor da comunidade, o Ministério Público pode recorrer."
CORONEL — "Pode. Mas não vai. Por quê?"
O CORONEL levanta-se. Vai até o PROMOTOR. Coloca a mão em seu ombro.
"Porque o senhor tem um sítio. Um sítio lindo. Com piscina. Com vista para a serra. Com escritura... um pouco confusa."
O PROMOTOR empalidece.
PROMOTOR — "A origem é... antiga."
CORONEL — "Antiga. Ninguém vai perguntar. Desde que... o senhor me ajude."
O BISPO se levanta.
BISPO — "Coronel, a Igreja não pode..."
CORONEL — (Interrompendo)
"Dom, a Igreja já pode. A Igreja já recebeu doação de três terrenos meus. A Igreja já abençoou minha candidatura. A Igreja já disse que eu sou 'um homem de Deus'. A Igreja... é minha sócia."
O BISPO senta-se. Não replica.
Raquel anota.
RAQUEL — "Facilitadores. Enablers. Gente que troca a justiça por um sítio. A fé por um terreno. A verdade por um cargo. Não são vítimas. São sócios."
O PSICANALISTA observa.
PSICANALISTA — "A normalização. É o mecanismo mais poderoso. O extraordinariamente cruel torna-se rotineiro. A água roubada vira 'gestão de recursos'. A terra tomada vira 'regularização fundiária'. A morte vira 'dado estatístico'. E ninguém mais se pergunta: como chegamos aqui?"
O Artista mostra a tela: uma corrente humana. Cada elo da corrente é um rosto sorridente. O último elo é o Coronel, que não sorri — apenas observa.
CAPÍTULO 6 — TIRANIA TRIUNFANTE
"O pior momento da tirania não é quando o tirano grita. É quando ele não precisa mais gritar."
O palco está vazio. Uma única cadeira. O CORONEL sentado. Diante dele, DRAGÃO DO MAR, acorrentado. Mas as correntes são invisíveis — são psicológicas.
DRAGÃO DO MAR — "Eu não me curvo. Em 1881, eu disse não ao navio negreiro. Duzentos negros iam voltar para a escravidão. Eu tranquei o porto. Disse: 'Não sai'. E não saiu."
CORONEL — "Eu sei. O senhor é um herói. Os livros contam. As escolas ensinam. Mas o senhor sabe o que aconteceu depois?"
DRAGÃO DO MAR — "Depois... fui demitido. Perseguido. Esquecido. Morri pobre."
CORONEL — "Exato. Herói, mas pobre. Eu, que não sou herói, estou vivo. E rico. E poderoso. E sentado nesta cadeira."
O POVO entra. Uma fila interminável. Cada pessoa carrega um documento: requerimento, petição, pedido de esmola, certidão de óbito.
HOMEM DO POVO 2 — "Coronel, preciso de água."
CORONEL — (Carimbando)
"Aprovado. Próximo."
MULHER DO POVO 2 — "Coronel, meu filho precisa de vaga na escola."
CORONEL — "Aprovado. Próximo."
Cada "aprovado" é um carimbo. O som do carimbo é o som do destino.
Padre Cícero observa.
PADRE CÍCERO — "A normalização. A fila. O carimbo. O 'próximo'. Ninguém grita. Ninguém lembra que a água era de todos. Agora é dele."
O Artista mostra a tela: uma fila de pessoas entrando na boca de uma grande figura. A figura não tem rosto — apenas a palavra "SIM" tatuada na testa.
CAPÍTULO 7 — O INSTIGADOR
"Por trás de todo tirano, há um instigador. Alguém que sopra o veneno."
O palco está escuro. Apenas duas cadeiras. O CORONEL sentado. Diante dele, uma figura encapuzada. Não vemos seu rosto. Mas sua voz é familiar — é a voz do MEDO personificado.
ENCAPUZADO — "Você lembra da primeira vez, coronel?"
CORONEL — "Lembro. Eu tinha 22 anos. Meu pai tinha morrido. Os vaqueiros pediam aumento. Eu disse não. Eles ameaçaram greve. Eu mandei matar um. Só um. O líder. O sangue espirrou na minha bota. Limpei a bota. Pensei: 'Acabou'. Não acabou. Começou."
ENCAPUZADO — "E como você se sentiu?"
CORONEL — "Vivo. Pela primeira vez na vida, vivo. O medo foi embora. Naquele momento, eu era Deus."
O Encapuzado tira o capuz. Por baixo... não há rosto. Apenas um espelho.
ENCAPUZADO — "Eu sou você."
O CORONEL recua. O espelho reflete seu próprio rosto — distorcido. Mais velho. Mais cruel.
Bárbara de Alencar entra.
BÁRBARA — "O instigador não é um demônio. É a parte de você que justifica o injustificável. Todos temos um. A diferença é que eu lutei contra o meu. O senhor se casou com ele."
CAPÍTULO 8 — LOUCURA NOS GRANDES — O SADOMASOQUISMO COLETIVO
"Governos totalitários emergem das mesmas estruturas inconscientes sadomasoquistas encontradas na análise de pacientes traumatizados."
O palco é um consultório. As paredes são cobertas de espelhos. O CORONEL está sentado. Diante dele, o PSICANALISTA.
PSICANALISTA — "Coronel, o senhor tem dormido?"
CORONEL — "Não. Tenho visões quando estou acordado. Crianças mortas. Me olham. Não falam. Apenas olham."
PSICANALISTA — "O senhor sabe o que é sadomasoquismo como estrutura inconsciente?"
CORONEL — "Isso é coisa de pervertido."
PSICANALISTA — "Não. É a organização do mundo entre aqueles que têm poder absoluto (e podem infligir dor) e aqueles que não têm poder algum (e devem suportá-la). O senhor aprendeu isso com seu pai. E agora replica. Greenblatt mostrou que o tirano é infantil — preso em estágios primitivos de desenvolvimento onde o mundo deve se curvar à sua vontade imediata. Sob condições de crise, humilhação nacional e insegurança econômica, esta estrutura torna-se coletiva."
CORONEL — "Eu não sou totalitário. Sou empresário."
PSICANALISTA — "O senhor controla a água, a terra, os juízes, os políticos, a imprensa, a fé. O que falta?"
CORONEL — (Gritando)
"Falta o título! Eu construí tudo sozinho! Eu mereço!"
PSICANALISTA — "Merece o quê?"
Silêncio. O CORONEL olha para os espelhos. Em cada um, um rosto diferente: o menino que apanhava, o jovem que matou, o velho que não dorme.
Lampião entra.
LAMPIÃO — "A loucura dos grandes, coronel, não é igual à dos pobres. O pobre louco morre na rua. O rico louco vira estadista. O senhor não está doente. Está adaptado a um mundo que devia ser insano, mas virou normal."
O Artista mostra a tela: um homem sentado num trono, com uma coroa de espelhos na cabeça. Cada espelho reflete uma caveira.
CAPÍTULO 9 — QUEDA E RESSURGIMENTO
"A tirania cai. Mas a memória da tirania pode levar gerações para morrer."
O palco está em ruínas. O CORONEL está sentado no chão. Terno branco sujo. Anel de diamante sumiu.
Entra PATATIVA.
PATATIVA — (Recitando)
"O coronel caiu
Mas a porteira ficou
O coronel morreu
Mas o gado continuou"
CORONEL — "Eu perdi tudo."
PATATIVA — "O senhor não tinha nada. O que tinha, tomou. O que tomou, roubou. O que roubou, guardou. Agora, o que sobra?"
CORONEL — "A lembrança. As crianças mortas. Os rios secos. Eu lembro de tudo."
RAQUEL — (Entrando)
"Nós lembramos, coronel. Eu escrevi. Patativa cantou. O povo não esquece. A memória é uma ferida aberta."
O Artista mostra a tela. Agora é uma animação no estilo de William Kentridge: figuras que são apagadas e redesenhadas continuamente. O rosto do Coronel aparece, é apagado, reaparece, é apagado.
O ARTISTA — "Kentridge encena o trauma do apartheid não como uma imagem resolvida, mas como uma ferida aberta — onde a memória é continuamente desfeita e re-costurada. A queda do tirano não é o fim. O ressurgimento é sempre possível. Por isso a arte precisa continuar apagando e redesenhando."
CAPÍTULO 10 — ASCENSÃO RESISTÍVEL
"A tirania não é inevitável. Ela é resistível. Mas a resistência exige memória, organização e arte."
O palco se enche de luz. O POVO está de pé. Não mais como fila — como assembleia.
Bárbara de Alencar ergue a bandeira.
BÁRBARA — "1817. 1824. 1930. 1964. 1984. 2013. 2026. A luta não acabou. A luta recomeça."
Dragão do Mar quebra as correntes invisíveis.
DRAGÃO DO MAR — "Dizer 'não' é o primeiro verbo da liberdade."
Lampião ergue o fuzil.
LAMPIÃO — "O medo ensina. Ensina a odiar. E o ódio é irmão gêmeo da liberdade."
Padre Cícero benze o povo — não com água benta, com água do rio que voltou a correr.
PADRE CÍCERO — "A água não tem dono. A terra não tem dono. A vida não tem dono."
Raquel fecha a caderneta.
RAQUEL — "Greenblatt escreveu: 'A ascensão da tirania é resistível.' Não porque os tiranos sejam fracos. Porque o povo, quando organizado, quando lembra, quando cria, pode dizer não."
O Artista pinta a última tela. Mostra: uma flor nascendo no asfalto seco do sertão.
O ARTISTA — "A arte não muda o mundo sozinha. Mas mantém viva a diferença entre um e zero, entre algo e nada. Entre a memória e o esquecimento."
CAPÍTULO 11 — O PREÇO DO ARTISTA — O CONTAINER DO TRAUMA
"A criação sob tirania cobra seu tributo. A depressão, a desrealização, o estranhamento — feridas reais infligidas pela necessidade de habitar um mundo que não faz sentido."
O palco está vazio. Apenas O ARTISTA. Ele está diante de uma tela em branco. Suas mãos tremem. Seus olhos estão vermelhos — de insônia, de choro, de visão.
O ARTISTA — (Para o público, com a voz cansada de quem carrega o que ninguém quer carregar)
"Jonathan Sklar, em The Soft Power of Culture, escreveu que o artista sob tirania funciona como um 'container' — um termo emprestado da psicanálise de Wilfred Bion. O container é aquele que recebe o trauma coletivo, que o metaboliza, que o transforma em forma para que outros possam suportá-lo. O artista não escolhe ser container. O trauma escolhe ele."
Ele começa a pintar. Enquanto pinta, fala.
"Munch disse: 'Quero manter esses sofrimentos. Eles são parte de mim e da minha arte. São indistinguíveis de mim. Curá-los destruiria minha arte.' Munch queria manter seus sofrimentos porque eles eram sua arte. Mas Sklar nos alerta: esta é uma escolha trágica, não um ideal a ser romantizado."
O Artista para de pintar. Olha para as próprias mãos. Estão manchadas de tinta — e de sangue.
"A depressão sob tirania não é apenas tristeza. É desrealização: a dissolução da realidade aparente de um projeto social. O mundo parece irreal. As ações parecem sem sentido. O self parece dissociado. O artista vive neste estranhamento. Precisa habitar um mundo que não faz sentido para poder transformá-lo em imagem, em som, em palavra. E paga o preço."
Entram, um a um, os artistas que o Artista carrega dentro de si. Não são atores separados — são sombras, projeções, vozes.
VOZ DE BOSCH — (Sombra)
"Pintei o inferno porque vivia no inferno. Cada figura monstruosa era um medo que não podia nomear."
VOZ DE BECKMANN — (Sombra)
"Os nazistas me chamaram de degenerado. Minha resposta foi pintar meu próprio rosto — repetidamente — para afirmar que eu ainda existia."
VOZ DE KENTRIDGE — (Sombra)
"Eu apago e redesenho porque o apartheid não foi resolvido. Foi apenas interrompido. A ferida continua aberta. Minha arte é o movimento de abrir e fechar a ferida."
VOZ DE PICASSO — (Sombra)
"Guernica não é um quadro. É um grito. Um grito que ainda ecoa porque o fascismo não morreu. Dormiu. Acordou. Dormiu de novo. E eu estou aqui para gritar sempre que ele acordar."
VOZ DE SHOSTAKOVICH — (Sombra)
"Componho sob Stalin. Minha música tem dois ouvidos: um para a censura, outro para a verdade. O ouvinte atento ouve o que não pode ser dito. E eu pago por isso com insônia. Com medo. Com a certeza de que a qualquer noite podem bater na minha porta."
O Artista cai de joelhos. As sombras se aglomeram ao redor dele. Não o ameaçam — o sustentam.
O ARTISTA — (Em voz baixa)
"Sklar escreveu que o 'espaço transicional' da arte — o espaço entre o eu e o mundo, entre a fantasia e a realidade — é onde o trauma pode ser jogado, manipulado, transformado. Mas o artista que habita esse espaço não sai ileso. Ele carrega o trauma dos outros. Torna-se poroso. Torna-se ferida. Torna-se..."
Pausa.
"... testemunha."
O CORONEL entra. Está diferente. Não mais poderoso. Não mais triunfante. Apenas... humano. Pela primeira vez, humano.
CORONEL — (Para o Artista)
"Eu te persegui. Mandei queimar suas telas. Mandei prender seus companheiros. Mandei calar sua boca. E você continuou pintando. Por quê?"
O ARTISTA — (Levantando-se lentamente)
"Porque a arte sob tirania não é um luxo. É um testemunho. Picasso não pintou Guernica para decorar uma parede. Pintou para que o mundo não dissesse: 'Não sabíamos. Não vimos. Não foi bem assim.'"
CORONEL — "E adiantou? A cidade foi destruída. Os mortos continuaram mortos. O fascismo não acabou."
O ARTISTA — "Não acabou. Mas o quadro continua lá. No museu. Na memória. Na consciência de quem o vê. A arte mantém viva a diferença entre um e zero. Entre algo e nada. Entre lembrar e esquecer."
O Artista vira a última tela. Não mostra mais o horror. Mostra o vazio. Uma tela branca. Mas a tela branca, depois de tudo o que foi pintado, não é mais vazia. É cheia de ausência. É cheia de memória. É cheia de luto.
O ARTISTA — "Este é o preço. A insônia. A depressão. A desrealização. O estranhamento. Munch queria manter seus sofrimentos porque eles eram sua arte. Mas Sklar nos lembra: a saúde é o pré-requisito para a criatividade, não a doença. Romantizar o sofrimento do artista é desumanizá-lo. É tratá-lo como querubim faminto que precisa passar fome para produzir."
Ele se vira para o público.
"Não peço aplauso. Peço que não esqueçam. Que não digam 'não sabíamos'. Que não normalizem o extraordinariamente cruel. Que não transformem a fila, o carimbo e o 'próximo' em rotina. Porque quando a rotina se instala, o tirano venceu. E eu não pinto para vencer. Eu pinto para que vocês saibam que houve uma luta."
O POVO entra. Não mais como fila. Como assembleia. Como comunidade. Como povo.
O MENINO (aquele que morreu de sede) se aproxima do Artista.
O MENINO — "Você pintou a minha sede?"
O ARTISTA — "Pintei."
O MENINO — "Você pintou a minha morte?"
O ARTISTA — "Pintei."
O MENINO — "Então eu não morri de verdade. Eu morri na vida. Mas na tela... na tela eu ainda estou gritando."
O Artista abraça o Menino. Não como adulto abraça criança. Como igual abraça igual. Ambos são testemunhas. Ambos são feridas. Ambos são arte.
Raquel de Queiroz abre a caderneta pela última vez.
RAQUEL — "Escrevo isto para que não esqueçam: houve um tempo em que o Ceará foi uma empresa. O coronel foi o presidente. O povo foi o estoque. A seca foi o expediente. A fome foi o balanço anual. E a morte foi o dividendo. Mas o papel rasgado ainda é papel. A história rasgada ainda é história. E o povo rasgado... o povo ainda é povo."
Patativa dedilha a viola.
PATATIVA — (Cantando)
"A água correu
A porteira caiu
O coronel chorou
E o povo sorriu
Mas o artista chora
Noite e dia
Porque a dor que ele pinta
Ainda é sua e ainda é fria"
Lampião atira para o alto. O tiro ecoa. Vira trovão.
LAMPIÃO — "Chove."
Começa a chover no palco. Água de verdade. O POVO levanta os braços. Ri. Chora. Bebe.
O CORONEL continua ajoelhado. A chuva o molha. Pela primeira vez, ele chora.
CORONEL — (Última fala)
"Eu só queria... ser amado. Mas não soube amar. Só soube tomar. Só soube bater. Só soube mandar. E agora... agora não sobra ninguém."
O ARTISTA se aproxima. Não o perdoa. Não o condena. Apenas o observa.
O ARTISTA — "Sobrou a arte. A arte que você tentou destruir. A arte que você chamou de 'degenerada'. A arte que você queimou. Ela ainda está aqui. Ela sempre estará aqui. Porque a arte é mais teimosa que o tirano. O tirano morre. A arte... a arte espera."
O Artista vira a tela final. Está em branco. Mas aos poucos, diante do público, a tela começa a formar uma imagem. Não é pintada — é projetada. É o rosto de cada pessoa na plateia. Cada um vê a si mesmo.
O ARTISTA — "A última tela é você."
Cai o pano. O som da água continua.
FIM
Nota do Autor
Esta peça é uma ficção. Os personagens históricos — Lampião, Padre Cícero, Dragão do Mar, Bárbara de Alencar, Patativa do Assaré, Raquel de Queiroz — são aqui utilizados como arquétipos de resistência. O Coronel é uma figura compósita, inspirada em mais de um século de coronelismo cearense.
Dedicado a todos que ainda têm sede — e a todos os artistas que transformam sede em canto.
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