SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 18 de abril de 2026

Pedagogia do Fim do Mundo e o Sagrado: Duas faces do abismo. Por Egidio Guerra



Introdução

Em meio a um cenário global de colapso ecológico, guerras, desigualdades e crises sucessivas, dois pensadores contemporâneos propõem, cada um à sua maneira, uma reorientação radical do pensamento humano. Ginie Servant-Miklos, em Pedagogies of Collapse: A Hopeful Education for the End of the World as We Know It, enfrenta a questão educacional: como formar as novas gerações quando o futuro que lhes prometemos está em ruínas? Richard Boothby, em Embracing the VoidRethinking the Origin of the Sacred, parte da psicanálise lacaniana para investigar a própria origem da experiência religiosa — aquilo que nos faz buscar o sagrado exatamente onde encontramos o desconhecido.

Ambos os livros convergem para um mesmo território existencial: o vazio. Para Servant-Miklos, trata-se do vazio deixado pela falência das narrativas de progresso; para Boothby, trata-se do vazio constitutivo do encontro com o Outro, aquilo que Jacques Lacan chamou de das Ding — "a dimensão inquietante e inacessível dos outros seres humanos". O que une as duas obras é a aposta de que encarar o vazio, e não fugir dele, pode ser o início de uma resposta verdadeiramente humana aos nossos dilemas. 

Parte I: Pedagogies of Collapse — A esperança que não foge do real 

Resumo Detalhado 

Ginie Servant-Miklos, pesquisadora e educadora da Erasmus University Rotterdam, parte de uma constatação incômoda: "mudanças climáticas, colapso da biodiversidade, pandemias, guerras, escassez de recursos, inflação, desigualdade socioeconômica... após décadas de progresso e prosperidade, o mundo atingiu os limites do crescimento previstos pelo relatório Meadows de 1972". Diante disso, sua pergunta central é simples e devastadora: como conversar com jovens sobre o colapso sem desencadear mecanismos de defesa como negação e depressão? 

A resposta honesta, segundo ela, é que na maior parte do tempo não conseguimos. O livro então se propõe a construir um caminho alternativo entre dois extremos igualmente paralisantes: 

  1. O otimismo infundado das narrativas de progresso — a crença de que a tecnologia, o mercado ou a inovação institucional resolverão tudo, mantendo o "business as usual" 

  1. O desespero paralisante das narrativas de extinção — o colapso como fim inevitável, que transforma a catástrofe em espetáculo e a ação em impotência 

Servant-Miklos rejeita ambas as armadilhas. Seu livro "olha o colapso de frente, reconhece a tentação da negação e do desespero, mas escolhe a esperança". Essa esperança, porém, não é ingênua — ela é trauma-informed, ou seja, informada pelo reconhecimento de que estamos lidando com feridas psíquicas reais, geradas pela consciência de que o mundo que conhecíamos está se desfazendo. 

A crítica ao "protesto como fim em si mesmo" 

Um dos argumentos mais contundentes de Servant-Miklos — e que ela própria ilustra em um exemplo concreto — diz respeito à dinâmica da ação política. Em maio de 2024, a Erasmus University Rotterdam viu cancelada a primeira Cúpula Interuniversitária de Sustentabilidade que organizava, devido à superposição com ações de protesto relacionadas à Palestina. A autora usa esse episódio para formular uma tese provocadora: 

"O progresso nunca vem apenas do protesto, mas da qualidade da ação que se segue. Este é um princípio fundamental da pedagogia crítica. Chamem-me de freiriana-marxista antiquada, mas estou firmemente ao lado da práxis — depois de falar o discurso, vá andar a caminhada e fazer as coisas acontecerem". 

Ela observa que, para alguns, "o protesto é um fim em si mesmo" — atende a uma necessidade existencial de significado e propósito em um mundo confuso e angustiante. Isso é especialmente verdadeiro, nota ela, "para aqueles que têm menos a perder, que mais podem se dar ao luxo de não comprometer nada de seus ideais e não tomar nenhuma ação efetiva — porque ação é, por definição, compromisso e imperfeição". 

A referência a Simone de Beauvoir e seu romance Os Mandarins é esclarecedora: a obra de Beauvoir "cronica o colapso da esquerda francesa em conflitos internos e autossabotagem após a Segunda Guerra Mundial". O resultado? "Os conservadores governaram o país por anos depois". A conclusão de Servant-Miklos é amarga e direta: "Enquanto a esquerda não parar de atrapalhar a si mesma, oferecer unidade, esperança e um caminho real para o progresso, não poderemos ter coisas boas como justiça, paz e um planeta habitável". 

O método proposto: pedagogias experimentais e imperfeitas 

A alternativa de Servant-Miklos passa por pedagogias experimentais que criem espaço para: 

  • Conversas desconfortáveis 

  • Luto e tristeza como partes legítimas do processo educativo 

  • Práticas informadas pelo trauma 

  • Diálogos imperfeitos, que não exigem respostas prontas ou soluções mágicas 

Como resume Patrick Severijns em sua leitura do livro: trata-se de "equipar os jovens com a coragem e as habilidades para enfrentar as questões difíceis levantadas pelo colapso, a persistência para buscar respostas significativas e a resistência para construir um futuro em terreno instável". 

Crítica à obra 

Pontos fortes: 

  1. Honestidade radical — Servant-Miklos não oferece consolo fácil. O livro recusa tanto a fantasia quanto a paralisia, o que é raro na literatura sobre crise climática. 

  1. Ancoragem na práxis — A insistência na ação imperfeita como alternativa à pureza política infértil é um antídoto necessário contra o ativismo performático. 

  1. Acessibilidade — O livro é escrito "com humor e explicações acessíveis", navegando pelas ciências da vida, economia política, psicologia e filosofia. 

Possíveis limitações: 

  1. Foco no Norte Global — Embora aberta e acessível, a obra parece partir de uma experiência educacional localizada em universidades europeias. Como essas pedagogias se aplicam em contextos de colapso já em curso (como zonas de guerra ou áreas já afetadas por desertificação) é uma questão que fica em aberto. 

  1. O que significa "esperança"? — A definição de esperança que Servant-Miklos defende poderia ser mais bem delimitada. Trata-se de esperança na agência humana, na possibilidade de mitigação, ou em algo mais existencial? 

Parte II: Embracing the Void — O sagrado como encontro com o desconhecido 

Resumo Detalhado 

Richard Boothby, professor de filosofia na Loyola University Maryland e autor de obras sobre psicanálise lacaniana, propõe em Embracing the Void uma "reinterpretação radical da origem da religião por meio de uma teorização psicanalítica do desconhecido". A tese central é surpreendente e contra-intuitivao senso do sagrado não surge da nossa busca por respostas confortáveis, mas sim da nossa relação com aquilo que não sabemos. 

Boothby se apoia no conceito lacaniano de das Ding (a Coisa) — "a dimensão inquietante e inacessível dos outros seres humanos". Essa noção de um "excesso insondável" é originalmente encontrada na figura da mãe para o infante, levando Lacan a romper com a formulação freudiana do complexo de Édipo. Em outras palavras: a primeira experiência do sagrado é a experiência de que o outro (começando pela mãe) é fundamentalmente incognoscível, portador de um mistério que nunca será inteiramente desvendado. 

O vazio no cotidiano: a análise do "Como você está?" 

Uma das contribuições mais brilhantes e acessíveis de Boothby é sua análise do cumprimento social "Como você está?" — aquela pergunta vazia que trocamos com conhecidos no elevador, na sala de espera, na rua. Para Boothby, esse ritual aparentemente banal revela nossa relação mais profunda com o vazio: 

"O verdadeiro propósito deste jogo de saudação é o oposto exato do que parece ser. Seu verdadeiro propósito, longe de realmente solicitar alguma informação do Outro, é isentar ambas as partes de ter que falar honestamente sobre si mesmas e, com base nesse acordo tácito, permitir que se esquivem sem ter que tolerar qualquer interação mais substantiva". 

O que Boothby descreve aqui é um sintoma psicológico — um mecanismo para evitar o encontro genuíno com o desconhecido que habita o outro. Quando perguntamos "Como você está?" e recebemos "Bem, obrigado", estamos coletivamente encenando uma ficção: a de que não há mistério, que o outro é transparente, que não há vazio entre nós. 

A origem do sagrado na infância 

Boothby localiza a gênese da experiência religiosa na mais primitiva das relações humanas: a do infante com seu cuidador. A criança depende completamente de alguém sobre quem nada sabe. "Sim, o cuidador pode ser a mãe da criança, mas a criança não sabe o que isso significa. Tudo o que ela sabe é que às vezes o cuidador gratifica seus desejos e outras vezes não". 

O que a criança desenvolve, então, é uma  que tenta ignorar esses desconhecidos, e superstições que tentam controlá-los. Boothby identifica um dos primeiros dispositivos desse processo: os objetos cedidos (ceded objects). Um objeto cedido é algo que a criança dá ao Outro para que o Outro a compreenda e aceite. "O choro inarticulado de um infante é talvez o primeiro objeto cedido. É algo que sai do infante, é cedido para o espaço entre ela e o Outro". O sacrifício religioso, nessa perspectiva, é uma elaboração sofisticada desse gesto arcaico. 

A análise das tradições religiosas 

Boothby não se contenta com a teoria geral. Aplicando seu quadro conceitual, ele analisa múltiplas tradições religiosas: 

Tradição 

Interpretação Boothbyana 

Politeísmo Grego 

"A adoração da força" — a veneração de potências impessoais que governam o cosmos, inacessíveis à razão humana 

Judaísmo 

"A adoração da Lei" — a relação com o desconhecido mediada por um conjunto de prescrições que organizam o contato com o sagrado 

Cristianismo 

"A adoração do Amor" — a encarnação do divino como tentativa de superar a distância, mantendo-a ao mesmo tempo 

Hinduísmo e Budismo 

Outros caminhos para o mesmo território: a relação com o vazio constituinte da existência 

Capitalismo 

A religião do dinheiro — "a divindade sedutora que domina a cultura moderna" 

Esta última análise é particularmente provocadora: o dinheiro, para Boothby, funciona como um das Ding moderno — uma coisa inacessível que promete preencher o vazio mas nunca o faz, mantendo-nos em perpétua busca. 

Citação central 

Um leitor da obra resume sua tese fundamental com precisão: 

"Para Lacan, a experiência do sagrado ecoa o que é desconhecido e inquietante no Outro. Mas, nessa visão, a religião não é um tecido de fantasia desejosa que vela as profundezas aterrorizantes da existência. Pelo contrário, a porta para o religioso é aberta por um desejo obscuro por essas próprias profundezas. A força compulsiva do impulso religioso emana do núcleo extático do ser humano, o solo mais primitivo da subjetividade, que deriva da experiência arcaica do Outro como um enigma perpetuamente perturbador". 

Crítica à obra 

Pontos fortes: 

  1. Originalidade — A tese de Boothby inverte o senso comum sobre religião. O sagrado não seria um conforto, mas um encontro com o perturbador — o que explica por que o numinoso é simultaneamente fascinante e aterrorizante. 

  1. Clareza expositiva — Lacan é notoriamente difícil, mas revisões da obra indicam que Boothby é "muito acessível e legível". 

  1. Aplicação ampla — A análise cobre desde o politeísmo grego até o capitalismo contemporâneo, demonstrando a fecundidade do conceito de das Ding. 

Possíveis limitações (incluindo críticas de leitores): 

  1. Generalizações sobre tradições não-ocidentais — Um revisor critica a obra por "equiparar o budismo zen com o budismo em geral", sugerindo que as seções sobre hinduísmo, budismo e islã são superficiais e talvez motivadas por "razões woke" (embora este crítico reconheça que essa seção parece desconectada do restante). 

  1. A referência a Yuval Harari — O mesmo revisor desconta uma estrela pela "referência a Noah Yuval Harari", sugerindo que a menção ao autor best-seller pode ter sido desnecessária ou redutora. 

  1. O tom do "crítico imaginário" — Outro revisor nota que Boothby tem o hábito de "levantar objeções de um crítico imaginário", um recurso estilístico que pode cansar o leitor mais atento. 

  1. Foco quase exclusivo no das Ding em detrimento do objet a — Um revisor observa que "teria gostado de ver o argumento progredir com o objet a em mente, em vez do das Ding", sugerindo que a análise poderia ser enriquecida com outras ferramentas lacanianas. 

Conclusão: Pedagogia e Sagrado — duas respostas ao mesmo abismo 

Apesar de suas diferenças disciplinares — uma é educadora e cientista política, o outro é filósofo psicanalítico — Servant-Miklos e Boothby estão, em última análise, lidando com a mesma questão: como viver quando o chão sob nossos pés se revela vazio? 

Servant-Miklos aborda o problema pela educação: como ensinar a habitar o colapso sem mentir (otimismo falso) nem paralisar (desespero). Sua resposta é uma pedagogia do compromisso imperfeito, da ação que não espera pureza, do luto que não se torna cinismo. 

Boothby aborda o problema pela religião: a experiência do sagrado, longe de ser uma fuga do real, é a nossa maneira mais antiga e mais sofisticada de habitar o desconhecido. O ritual religioso, o sacrifício, a prece — todos seriam modos de negociar com o vazio que constitui o Outro e, portanto, a própria subjetividade. 

Ambos rejeitam a negaçãoServant-Miklos rejeita o "business as usual" que finge que o colapso não está acontecendo. Boothby rejeita a fantasia de que o outro pode ser totalmente conhecido, controlado ou previsto. 

Ambos rejeitam o desesperoServant-Miklos aposta na práxis coletiva, na construção de redes de ação efetiva. Boothby aposta que o encontro com o vazio não é apenas aterrorizante, mas também extático — o que significa, literalmente, estar fora de si, em contato com algo maior. 

A ironia — e talvez a sabedoria — que emerge do diálogo entre as duas obras é esta: só podemos responder seriamente ao colapso do mundo se aprendermos a abraçar o vazio que já sempre nos constituiu. A pedagogia do fim do mundo, nesse sentido, não pode ser outra coisa senão uma pedagogia do sagrado — não no sentido de uma crença específica, mas no sentido de uma disposição para encontrar o desconhecido sem fugir. 

Como escreve um revisor de Boothby: "O propósito de 'Como você está?' não é óbvio a partir do conteúdo das palavras. A intenção é revelada pelo uso que fazemos delas". O mesmo se aplica à educação em tempos de colapso: o propósito não está no conteúdo que transmitimos, mas no uso que fazemos do encontro — a qualidade da presença que oferecemos ao vazio, ao outro, ao mundo que se desfaz. 

E talvez seja essa a lição final, comum a ambos os livros: não há método seguro, não há currículo garantido, não há Deus que nos salve da condição de não saber. Há apenas a coragem de permanecer na pergunta — e, nessa permanência, o lampejo do sagrado e o germe da esperança. 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário