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domingo, 19 de abril de 2026

Tiranos entre o um e zero! A Política e os Efeitos Psicológicos da Tirania sobre a Arte e as Pessoas

 


Tirano: A Obra e seu Contexto

Em Tyrant: Shakespeare on Politics (2018), o renomado estudioso de Harvard Stephen Greenblatt realiza um feito notável: analisar as peças históricas e trágicas de Shakespeare como um "guia brilhante para a confusão de nossa política atual". O livro, que se tornou um fenômeno editorial traduzido para vários idiomas, parte de uma premissa simples e perturbadora: Shakespeare, há mais de quatro séculos, já havia dissecado a psicologia do tirano e os mecanismos sociais que permitem sua ascensão.

Greenblatt escreve em um momento de crise democrática global, mas evita nomear figuras contemporâneas diretamente, permitindo que o leitor "preencha as lacunas" com qualquer número de políticos atuais. O resultado é uma obra que a crítica descreveu como "um estudo incisivo e instrutivo da política de personalidade e do abuso de poder — crítica literária tópica com virtudes clássicas".

O livro está estruturado em capítulos que examinam sistematicamente as fases da tirania:

  • Oblique angles (Ângulos oblíquos)

  • Party politics (Política partidária)

  • Fraudulent populism (Populismo fraudulento)

  • matter of character (Uma questão de caráter)

  • Enablers (Facilitadores/Cooperadores)

  • Tyranny triumphant (Tirania triunfante)

  • The instigator (O instigador)

  • Madness in great ones (Loucura nos grandes)

  • Downfall and resurgence (Queda e ressurgimento)

  • Resistible rise (Ascensão resistível)

 

II. A Psicologia do Tirano segundo Greenblatt

O Narcisismo Insaciável

Greenblatt argumenta que Shakespeare compreendeu algo fundamental sobre a psicologia tirânica: a busca pelo poder absoluto não é um meio para um fim, mas uma tentativa de preencher um vazio interior insaciável. Os tiranos shakespearianos — Ricardo III, Macbeth, Coriolano, Lear — compartilham uma "psicologia infantil e apetites narcisistas insaciáveis".

Ricardo III, talvez o exemplo mais visceral, declara sem rodeios sua disposição à violência extrema: "Farei um cadáver daquele que me desobedecer". Esta frase captura a lógica tirânica fundamental: a eliminação da desobediência como princípio organizador da sociedade. O tirano não suporta a alteridade, a diferença, a resistência — apenas o espelho de sua própria vontade.

O Ódio à Contemplação e à Arte

Greenblatt identifica um traço psicológico crucial que conecta diretamente o tirano à questão da arte: o desprezo pela contemplação. O tirano é um homem de ação imediata, que despreza o pensamento reflexivo e a ambiguidade estética. A arte, por sua natureza, habita o reino das múltiplas interpretações, da suspensão do julgamento, da complexidade — exatamente o oposto da mentalidade tirânica que exige obediência simples e inquestionável.

Nas peças históricas, particularmente nas que tratam das Guerras das Rosas (Henrique VI), Shakespeare mostra como líderes rebeldes mentem descaradamente sobre suas origens — um deles alega ter uma mãe aristocrática quando, na verdade, "ela era parteira". A mentira, para o tirano, não é um desvio ocasional, mas uma ferramenta sistemática de construção de realidade.

III. A Psicologia dos Cooperadores: Por que as Pessoas Apoiam o Tirano

Talvez o aspecto mais perturbador da análise de Greenblatt seja sua exploração dos "enablers" — aqueles que, por covardia, ambição ou autoproteção, permitem a ascensão e manutenção da tirania. O capítulo intitulado precisamente Enablers (Facilitadores/Cooperadores) examina como figuras aparentemente racionais e competentes se curvam ao poder tirânico.

A crítica literária Maggie O'Farrell, citada na promoção do livro, observa que Greenblatt é particularmente hábil em dissecar "a ecologia da tirania, por assim dizer, deixando alguém profundamente comovido pela compreensão profunda e direta de Shakespeare do que significa ser humano — o que inclui, infelizmente, ser um tirano".

Esta "ecologia" inclui:

  1. O medo: A ameaça implícita ou explícita de violência

  1. A esperança: A promessa de participação nos espólios do poder

  1. A negação: A capacidade de não ver o que está diante dos olhos

  1. A normalização: A transformação gradual do extraordinariamente cruel em rotineiro


IV. A Tirania e a Arte: O Testemunho em Tempos de Cerco

O Artista como "Container" do Trauma Coletivo

Joseph Koerner, historiador da arte de Harvard, desenvolveu uma análise psicanalítica de como a arte responde à tirania que complementa perfeitamente a obra de GreenblattKoerner argumenta que, "quando o mundo externo se torna impensável — sob cerco, sob tirania, ou sob apagamento — os artistas realizam uma função análoga à do analista em crise: eles contêm, dão forma e transmitem verdades insuportáveis".

Esta função de "container" (termo emprestado do psicanalista Wilfred Bion) é essencial para entender obras criadas sob regimes opressivos. A arte não escapa da realidade — ela a metaboliza, transformando o horror em forma, a violência em imagem, o trauma em narrativa. Koerner cita três exemplos paradigmáticos:

Hieronymus Bosch (século XV): Seu Jardim das Delícias Terrenas é descrito como "uma paisagem onírica de ansiedades paranoides-esquizoides — onde o caos interior espelha a ameaça exterior". A tirania aqui é tanto psicológica quanto política; Bosch pinta o inferno que habita a mente sob opressão.

Max Beckmann (Alemanha nazista): Seus autorretratos, criados durante a ascensão do totalitarismo, "afirmam o ego frágil diante do autoritarismo crescente, um esforço desesperado de auto-integração antes da aniquilação histórica". Beckmann não foge — ele se agarra à própria existência através da imagem.

William Kentridge (África do Sul pós-apartheid): Suas animações que apagam e redesenham imagens "encenam o trauma do apartheid não como uma imagem resolvida, mas como uma ferida aberta — onde a memória é continuamente desfeita e re-costurada".

O Tirano e o Inconsciente Coletivo: Lições da República de Weimar

O psicanalista e teórico de cinema Pietro Bianchi, em uma análise contundente do remake de Nosferatu (2024), recupera a obra seminal de Siegfried Kracauer, De Caligari a Hitler. Kracauer demonstrou como "o cinema da República de Weimar refletiu o desejo inconsciente das massas alemãs por um líder como Hitler, muito antes de sua ascensão ao poder".

A conclusão é perturbadora: a tirania não é apenas imposta de cima; ela é desejada inconscientemente por populações em crise. Kracauer argumentou que a sociedade alemã, após o colapso do Império, a derrota na Primeira Guerra e o fracasso da revolta espartaquista, "vivenciou uma profunda crise de identidade" que a tornou incapaz, "mesmo em seus desejos inconscientes, de imaginar uma alternativa à binária entre ordem autoritária e caos".

Bianchi atualiza esta análise para o presente: os tiranos contemporâneos (ele menciona Trump, Milei, Musk) não são figuras autoritárias clássicas que "fantasmaticamente transformam impossibilidade em onipotência". Em vez disso, "são pais jouisseur, exibindo descaradamente uma jouissance não castrada" — um gozo sexual e transgresor que fascina e repulsa simultaneamente.


V. A Arte como Resistência e Testemunho

Picasso: Guernica como Ferida Exposta

O psicanalista Jonathan Sklar, em The Soft Power of Culture (2024), oferece um exemplo luminoso de como a arte enfrenta o poder tirânico:

"Picasso encontrou uma maneira de focar sua dor(pintura) Guernica para eternamente pregar o crime fascista à cidade destruída pela Luftwaffe".

Guernica não é um relato objetivo do bombardeio — é uma transformação do trauma em linguagem visual universal. Os cavalos em agonia, as mães com filhos mortos, a bombacha que ilumina a escuridão: tudo isso funciona como o que Koerner chamaria de "countertransference in visual form" — sinais do inconsciente social que alertam contra o colapso moral.

Shostakovich e a Música sob Stalin 

Sklar também menciona Shostakovich como exemplo de artista que navegou pelas águas perigosas da tirania stalinista. Sua música opera em múltiplos níveis: a propaganda oficial podia ouvir a celebração do regime, enquanto os ouvintes atentos detectavam a ironia, a paródia e o luto não-dito. Esta "linguagem cifrada" é uma das estratégias de sobrevivência e resistência sob regimes que controlam a expressão direta.

Hannah Arendt e a "Zona Cinzenta" da Censura

A teórica política Hannah Arendt, em suas revisões de As Origens do Totalitarismo (1966), oferece uma formulação precisa sobre o papel da arte sob regimes opressivos. Ela escreve: 

"Não é para minimizar a diferença entre censura tirânica e liberdade das artes, é apenas para enfatizar o fato de que a diferença entre uma literatura clandestina e nenhuma literatura é igual à diferença entre um e zero".

Esta passagem, analisada em profundidade por estudiosos, revela algo crucial: a arte mesmo sob censura representa a diferença entre algo e nada, entre o reconhecimento da humanidade e sua completa abolição. A "literatura clandestina" — aquela que circula em samizdat, que é escrita na gaveta, que é codificada em alegorias — mantém viva a centelha da liberdade mesmo quando ela parece completamente extinta.


VI. As Patologias da Vida Sob Tirania: Depressão e Desrealização

O "Enfraquecimento do Ego" e a Suspensão da Realidade

Uma das contribuições mais sutis da pesquisa sobre os efeitos psicológicos da tirania vem da análise da literatura produzida na Alemanha Oriental e em outros regimes socialistas tardios. Estudiosos observam que a depressão, nessas sociedades, "é comumente associada a um sentimento de imobilidade da vida sob o socialismo tardio".

Mas a depressão sob tirania não é meramente um "empobrecimento do ego" — é uma estratégia defensiva complexa que inclui a desrealização: "a dissolução da realidade aparente de um projeto social, que necessariamente envolve um sentimento de estranhamento desta realidade".

Em termos práticos: viver sob um regime tirânico exige que o indivíduo suspenda sua crença na realidade do que o regime proclama. A propaganda é sabidamente falsa, mas deve ser repetida. As promessas são sabidamente vazias, mas devem ser aplaudidas. Esta dissonância cognitiva sustentada produz um estado de desrealização — o mundo parece irreal, as ações parecem sem sentido, o self parece dissociado.

Winnicott e o Muro de Berlim como Figura da Autodivisão

O psicanalista D. W. Winnicott, em uma observação notável, interpretou o Muro de Berlim como uma figura da autodivisão — não apenas da divisão entre Oriente e Ocidente, mas da divisão interna que a tirania impõe a cada indivíduo. O poeta alemão Durs Grünbein, escrevendo sobre o que chamou de "zona cinzenta" de Berlim Oriental, desenvolveu "uma teoria da depressão" como o modo de ser adequado a um mundo onde as oposições entre liberdade e não-liberdade são inadequadas.


VII. A Psicanálise e as Estruturas Inconscientes da Tirania

Sadomasoquismo e Totalitarismo

Jonathan Sklar estabelece uma conexão direta entre psicopatologia e política: 

"Governos totalitários emergem das mesmas estruturas inconscientes sadomasoquistas que são encontradas na análise de pacientes traumatizados".

Esta afirmação é fundamental. O tirano não é uma aberração isolada — ele é a manifestação política de uma estrutura psíquica que existe em todos nós em potencial. O sadomasoquismo como organização inconsciente envolve a divisão do mundo entre aqueles que têm poder absoluto (e podem infligir dor) e aqueles que não têm poder algum (e devem suportá-la). Sob condições sociais de crise, humilhação nacional e insegurança econômica, esta estrutura pode tornar-se coletiva.

Francis Bacon e o Medo de Hitler

Sklar dedica um capítulo de seu livro às "meditações de Francis Bacon sobre o sadomasoquismo, ligadas aos seus medos da ascensão de Hitler". Bacon, que viveu o suficiente para testemunhar o horror nazista, traduziu em pintura a deformidade da psique sob tirania. Suas figuras distorcidas, gritando em gaiolas de vidro, seus corpos desfeitos em carne crua — tudo isso é um testemunho do que a tirania faz ao corpo e à mente humanos.


VIII. O Preço do Testemunho: Quando a Arte Consome o Artista 

Munch: "Quero manter esses sofrimentos"

A relação entre sofrimento psíquico e criação artística é complexa e frequentemente romantizada. Edvard Munch, que sofria de transtorno de ansiedade e depressão, declarou:

"[Meus problemas] são parte de mim e da minha arte. Eles são indistinguíveis de mim, e [o tratamento] destruiria minha arte. Quero manter esses sofrimentos".

Munch temia sua sanidade mais do que sua insanidade — não porque a loucura fosse desejável, mas porque ela era indistinguível de sua voz artística. O Grito, talvez sua obra mais famosa, não é uma ilustração de um conceito filosófico sobre ansiedade — é a ansiedade tornada forma, a angústia existencial transformada em cor e linha.

A Romantização da Doença Mental

A crítica literária contemporânea tem alertado para os perigos de romantizar a conexão entre sofrimento e criatividade. O "mito do artista torturado", escreve uma analista no Overland literary journal, "desumaniza os artistas, onde entendemos seu sofrimento através de uma lente romântica e como um pré-requisito para seu gênio".

Esta romantização pode ser perigosa:

"Quando os artistas sucumbem a este tropo, pode exacerbar e normalizar a doença mental, o abuso de substâncias e estilos de vida autodestrutivos. Pode habilitar o querubim faminto e demoníaco no ombro do artista sussurrando: 'Faça isso pela experiência. Talvez você consiga um ótimo trabalho com isso'".

A verdade, muitas vezes ignorada, é que "enquanto o sofrimento pode inspirar a criatividade, em última análise, a saúde é o pré-requisito para a criatividade, não a doença".


IX. Conclusão: A Arte como Resistência e o Preço da Sobrevivência

Tirano de Stephen Greenblatt, lido em conjunto com as obras de Koerner, Sklar, Arendt e os psicanalistas que estudaram a arte sob regimes opressivos, oferece um quadro abrangente dos efeitos psicológicos da tirania sobre a arte e as pessoas. 

Sobre o tiranoGreenblatt mostra que a psicologia tirânica é marcada por narcisismo insaciável, incapacidade de tolerar a diferença, desprezo pela contemplação e mentira sistemática. O tirano não é apenas cruel — ele é infantil, preso em estágios primitivos de desenvolvimento onde o mundo deve se curvar à sua vontade imediata.

Sobre os cooperadores: A ascensão da tirania nunca é obra de um homem só. Ela depende de uma "ecologia" de medo, esperança, negação e normalização — mecanismos psicológicos que permitem que pessoas comuns participem ou tolerem o intolerável.

Sobre a arte sob tirania: A arte funciona como "container" do trauma coletivo, como testemunho que mantém viva a diferença entre "um e zero", entre algo e nada. Artistas como Picasso, Shostakovich, Beckmann e Kentridge não refletem passivamente seu tempo — eles metabolizam o horror, transformando-o em forma que pode ser transmitida através das gerações.

Sobre o preço pago pelo artista: A criação sob tirania cobra seu tributo. A depressão, a desrealização, o estranhamento — estas não são meramente "inspiração", mas feridas reais infligidas pela necessidade de habitar um mundo que não faz sentido. Munch queria "manter seus sofrimentos" porque eles eram sua arte. Mas esta é uma escolha trágica, não um ideal a ser romantizado. 

Como Greenblatt conclui em Tirano, o insight de Shakespeare permanece vitalmente relevante hoje. Os mecanismos psicológicos que permitem a ascensão de Ricardo III, Macbeth e Coriolano não são relíquias históricas — são estruturas ativas na psique humana, esperando as condições sociais que as ativem. A arte que resiste à tirania — seja a peça de Shakespeare, a pintura de Picasso ou o filme de Kentridge — não é um luxo estético. É um dos poucos mecanismos que temos para reconhecer a tirania antes que ela se torne inescapável, e para lembrar, mesmo na "zona cinzenta", que existe uma diferença entre um e zero.


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