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quarta-feira, 22 de abril de 2026

The Director: Romance sobre a Colaboração Artística com o Mal



Sobre o Autor e a Obra 

Daniel Kehlmann (nascido em 1975, Munique) é um dos mais importantes escritores de língua alemã da atualidade. Criado em Viena, filho de pai judeu que sobreviveu ao regime nazista com documentos falsificados, Kehlmann traz uma bagagem familiar única para abordar o período mais sombrio da história alemã. Seu romance de 2005, Medindo o Mundo (Measuring the World), tornou-se um dos maiores sucessos literários alemães do pós-guerra, e seu Tyll (2017) foi finalista do International Booker Prize. 

The Director (título original alemão: Lichtspiel, que significa literalmente "peça de luz" - um termo arcaico para cinema) foi publicado em 2025 e traduzido por Ross Benjamin. O romance foi longlisted para o International Booker Prize de 2026. 

Enredo Central 

O livro se abre com uma cena intrigante. Franz Wilzek, um idoso em estágio inicial de demência, é levado de carro a um estúdio de televisão em Viena para uma entrevista. Wilzek, que foi assistente de direção de G.W. Pabst, insiste que o lendário filme perdido de Pabst, The Molander Case, nunca foi filmado. Esta cena estabelece imediatamente o tema central do livro: a natureza escorregadia da memória, da verdade e da cumplicidade. 

A narrativa então recua para contar a história de Georg Wilhelm Pabst (1885-1967), um dos diretores mais influentes da República de Weimar. Pabst descobriu Greta Garbo em A Rua Sem Alegria e dirigiu Louise Brooks na obra-prima expressionista Caixa de Pandora (1929). Conhecido como "Pabst, o Vermelho" por suas inclinações esquerdistas, ele era um inovador técnico e um artista comprometido. 

Quando Hitler toma o poder em 1933, Pabst, como muitos intelectuais alemães, foge - primeiro para a França, depois para Hollywood. Mas a América se mostra hostil a seus projetos artísticos. Produtores o ignoram, e ele é reduzido a dirigir um romance superficial que ele despreza. A virada acontece quando Pabst retorna à Áustria para visitar sua mãe doente. A guerra começa, e ele se vê preso no território do Reich. 

Ministro da Propaganda Joseph Goebbels então lhe oferece o pacto fáustico: retorne à Alemanha, faça filmes artísticos com financiamento total, sob a supervisão do regime. A alternativa é o ostracismo ou pior. Pabst aceita, e o romance acompanha sua lenta e dolorosa erosão moral - desde o autocontrole inicial ("só estou aqui temporariamente") até o uso final de prisioneiros de campos de concentração como figurantes em seu filme perdido, The Molander Case, rodado em Praga enquanto o Exército Vermelho avança. 

 

Personagens Principais e Construção 

Personagem 

Papel na Narrativa 

Observações 

G.W. Pabst 

Protagonista, o diretor-artista em crise 

Figura trágica, nem herói nem vilão, movido pela necessidade de criar arte a qualquer custo  

Trude Pabst 

Esposa de Pabst, aspirante a roteirista 

Sua trajetória de parceira criativa a vítima do alcoolismo e da erosão do regime é uma das críticas ao livro - muitos a consideram subdesenvolvida  

Jakob 

Filho fictício de Pabst (na realidade, Pabst teve dois filhos, Michael e Peter, mas Kehlmann os funde em um único personagem) 

Metáfora da "normalização" da violência na juventude alemã; suas mãos são destruídas na guerra, simbolizando a morte da sensibilidade artística  

Franz Wilzek 

Assistente de direção, narrador das cenas finais 

Figura ficcional que representa a memória falha e a racionalização da culpa 

Joseph Goebbels 

O "Ministro", antagonista 

Aparece como um manipulador sofisticado que oferece a Pabst uma escolha impossível  

Leni Riefenstahl 

Diretora, rival e contraponto moral 

Retratada como "vilã de história em quadrinhos", usa prisioneiros de campos como figurantes - um fato histórico documentado que Kehlmann usa como medida do mal contra a qual Pabst é comparado  

P.G. Wodehouse 

Escritor britânico preso na Alemanha 

Comparece à estreia de Paracelso em Salzburgo, perplexo com a estranheza da cena cultural nazista  

 

Temas Centrais 

1. A Natureza Gradual da Cumplicidade 

O tema mais importante do romance é expresso na própria estrutura da narrativa. Kehlmann rejeita a noção de que a colaboração com o mal é um ato único e decisivo - um "pular de um penhasco". Em vez disso, ele a apresenta como uma série de pequenas racionalizações: "Cada passo individual é defensável, mas ele ainda chega a um lugar completamente inaceitável". 

Pabst não quer ser um nazista. Ele não gosta de Goebbels. Ele mantém distância das atrocidades sempre que possível. Mas a cada dia, ele se levanta, vai ao set, faz seu filme. A cada pequena concessão - um gesto de mão aqui, uma palavra de aprovação ali - ele se aproxima do abismo sem nunca sentir que saltou. 

2. O Dilema do Artista sob Tirania 

"O que eu teria feito?" Esta é a pergunta que Kehlmann ouve constantemente de alemães ao discutir o período nazista. Ele a considera uma "capitulação moral que se disfarça de humildade" . O romance é uma resposta a essa pergunta - e a resposta é perturbadora. 

Pabst justifica sua colaboração com o argumento da arte: "A arte permanece, mesmo que o resto passe. O que importa é fazer arte sob as circunstâncias em que nos encontramos" . Ele compara sua situação à de Shakespeare, que precisou fazer acomodações com a rainha Elizabeth, ou à dos artistas da Renascença que trabalharam para os Bórgias . Mas a pergunta que o romance deixa no ar é: até que ponto essa justificativa se sustenta? Quando o filme se torna manchado pelo sangue usado para fazê-lo? 

3. A Zona Cinzenta entre Vítima e Perpetrador 

Kehlmann, filho de um sobrevivente do Holocausto, estava cansado das narrativas fáceis sobre vítimas que escapam ou perecem. "O que parece muito mais interessante", ele disse, "é a questão do que acontece na zona cinzenta entre vítima e perpetrador". 

Pabst habita exatamente essa zona. Ele é, em certo sentido, vítima do regime - ele não pode sair, sua família está em perigo, ele é coagido. Mas ele também se beneficia do regime - ele recebe financiamento, prestígio, a oportunidade de fazer arte. E, no final, ele próprio se torna um perpetrador ao usar prisioneiros de campo de concentração como figurantes. 

4. O Cinema como Metáfora da Consciência 

O título original alemão, Lichtspiel ("peça de luz"), é uma palavra antiga para cinema. Kehlmann usa a linguagem e a técnica do cinema para explorar a moralidade. Pabst vê o mundo em termos de cortes, closes e sequências. Em uma cena crucial, enquanto tenta escapar de Praga, ele imagina a fuga como um filme que ele está editando: "Pabst havia se tornado tão sintonizado com a edição de filmes que lhe parecia que continuaria lá fora como se tudo o que visse estivesse aberto à manipulação". 

Essa perspectiva é ao mesmo tempo seu dom e sua maldição. Ela permite que ele crie arte sublime, mas também permite que ele se distancie da realidade do sofrimento - vendo as vítimas como figurantes em um filme, em vez de seres humanos reais. 

 Citações Notáveis 

"Every single step he takes is kind of defensiblebut he still gets to a place that's completely unacceptable." 
— Daniel Kehlmann, descrevendo a jornada de Pabst  

 

"You have to be extremely careful not to say anything wrongeven more so since the beginning of the warBut once you get used to it and know the rulesyou feel almost free." 
— Um dos colegas de Pabst, resumindo a lógica distorcida da vida sob um regime totalitário  

 

"All this will passbut art remains. Even if it remainsdoesn't it remain soiledDoesn't it remain bloody and dirty?" 
— Trude Pabst, questionando a justificativa do marido  

 

"No oneNot a single person. Will be harmed because of us. No one has been … The film must be finished." 
— Pabst, murmurando para si mesmo enquanto 750 prisioneiros de um campo de concentração são trazidos para servir como figurantes  

 

"The best way to avoid all these gray areas of complicity is to not enter the gray area at all if you can." 
— Kehlmann, resumindo a lição que ele extrai da história de Pabst  

 

Recepção Crítica: Elogios e Críticas 

Elogios 

A recepção crítica de The Director tem sido amplamente positiva, com muitos considerando-o o melhor trabalho de Kehlmann até agora. 

Kirkus Reviews (resenha com estrela) descreveu o livro como "uma evocação livremente imaginada da vida e carreira do celebrado diretor de cinema de língua alemã G.W. Pabst" e elogiou a "pura magia e audácia da narrativa, que dança magistralmente na fronteira entre realismo e surrealismo, comédia e tragédia". 

The Guardian chamou o livro de "o melhor trabalho do autor até agora" e elogiou sua "escuridão e ambiguidade de um conto de fadas moderno dos Irmãos Grimm". 

Publishers Weekly destacou que Kehlmann é "especialmente eficaz ao ilustrar a facilidade com que as pessoas aceitam as realidades de viver em um estado policial violento" e chamou o livro de "um olhar penetrante sobre a mecânica da cumplicidade". 

NPR, na resenha de Maureen Corrigan, observou que "Kehlmann claramente se diverte invocando vividamente uma festa em Hollywood banhada pelo sol" e que "a comédia se transforma em sinistro e surreal" nas seções posteriores. Corrigan concluiu que "talvez a maior conquista de Kehlmann seja que ele consegue levantar temas mais amplos através de diálogos compactos". 

The Atlantic publicou uma longa entrevista com Kehlmann, na qual o autor explora a natureza da cumplicidade e a fascinação pela "zona cinzenta entre vítima e perpetrador". 

Críticas e Controvérsias 

Apesar dos elogios, o livro não está isento de controvérsias. 

Questões de precisão histórica: A crítica mais significativa vem de leitores que questionam as invenções de Kehlmann. Um revisor na plataforma BiblioCommons argumentou que "as últimas invenções são problemáticas". Especificamente, ele critica a decisão de Kehlmann de inventar a cena em que Pabst usa prisioneiros de campos de concentração como figurantes: "Não há base histórica para Pabst fazer algo semelhante". 

Este revisor também aponta um erro factual: "Publisher's Weekly, citado pela Seattle Public Libraries, afirma que Pabst foi 'coagido a fazer filmes de propaganda'. Isso é incorreto. Goebbels era sofisticado demais para fazer alguém da estatura de Pabst fazer propaganda explícita. Seus dois filmes sobreviventes do Terceiro Reich não são propaganda simples". 

Subdesenvolvimento de personagens femininas: Outro crítico observou que Trude Pabst "foi reduzida a vítima pura, uma casca automutilada de si mesma, demolida pela colaboração de Pabst com o regime". No final do livro, ela é subitamente colocada no comando da filmagem de seu próprio roteiro, mas Kehlmann "não dramatiza efetivamente como essa reviravolta aconteceu". 

Estrutura narrativa desigual: O mesmo crítico comparou o livro ao rio Okavango: "Começa forte, ramifica-se em numerosos riachos e se dissipa no final. As primeiras partes baseadas na história documentada são muito mais fortes do que o último terço, inteiramente inventado, que se dissipa". 

A questão da "coerção": Há um debate sobre se Pabst foi realmente "coagido" ou se ele colaborou voluntariamente. A pesquisa histórica sugere que Pabst teve mais agência do que o romance às vezes sugere. Esta é uma área onde a ficção de Kehlmann pode estar sendo generosa com seu protagonista. 

 

A Questão do Filme Perdido: The Molander Case 

Um dos elementos mais fascinantes do romance é seu tratamento do filme perdido de Pabst, The Molander Case. Historicamente, sabe-se que Pabst trabalhou neste filme em Praga em 1945, enquanto o Exército Vermelho se aproximava. O filme foi perdido - provavelmente destruído durante a guerra ou extraviado nos caos do pós-guerra. 

Kehlmann usa este vácuo histórico para fazer sua afirmação mais ousada: em sua versão, Pabst usa 750 prisioneiros de um campo de concentração como figurantes para filmar uma cena em uma sala de concerto. Os prisioneiros são vestidos com trajes de gala - "um velho com olhos astutos e penetrantes, ao lado dele uma mulher de idade indeterminada usando um lenço de seda na cabeça, provavelmente para cobrir uma cabeça raspada". 

Kehlmann justifica esta invenção argumentando que o uso generalizado de trabalho forçado na indústria cinematográfica alemã torna plausível que Pabst também tenha feito uso de prisioneiros. Mas ele admite que "inventar o detalhe sobre Pabst usando prisioneiros de campos de concentração como figurantes lhe deu uma pausa". 

Esta escolha criativa é o coração da controvérsia sobre o livro. É uma liberdade artística justificada para explorar um tema moral, ou é uma calúnia contra um homem morto que não pode se defender? 

 

Relevância Contemporânea 

Vários críticos notaram a oportunidade da publicação de The Director em 2025. Em uma era de ascensão do populismo autoritário em todo o mundo, o romance oferece um guia sombrio para artistas que enfrentam pressões para se conformar. 

The Arts Fuse argumentou que "o livro fornece marcos que tornarão os artistas (e outros) mais sensíveis à ascensão gradual do fascismo" e observou que "artistas de todos os tipos estão tentando chegar a um acordo com seu lugar em um mundo que caminha para o fascismo". 

No entanto, o mesmo crítico alertou contra analogias diretas demais: "Como o nazismo se tornou o paradigma do mal, é desafiador traçar analogias morais com os exemplos mais mundanos, ou 'banais', de coerção que estamos vivenciando atualmente". 

A questão central que o romance levanta - onde está a linha entre cooperação e cumplicidade? - é tão urgente hoje quanto era em 1940. 

 

Resumo e Avaliação Final 

The Director é um romance corajoso e perturbador sobre a erosão moral de um artista sob um regime totalitário. Kehlmann evita o sensacionalismo e a simplicidade moral, oferecendo em vez disso um retrato matizado de um homem que se convence, passo a passo, de que não tem escolha - até que, no final, ele fez escolhas terríveis sem nunca ter sentido que as fez. 

Os pontos fortes do livro são significativos: 

  • A estrutura narrativa que espelha a técnica de edição cinematográfica 

  • Os diálogos compactos que carregam peso filosófico sem pregação 

  • A recusa em oferecer respostas fáceis para perguntas impossíveis 

  • O retrato da vida cotidiana sob o nazismo - a maneira como a violência se torna normalizada 

Os pontos fracos também merecem consideração: 

  • As invenções históricas que alguns críticos consideram problemáticas 

  • O subdesenvolvimento de Trude Pabst como personagem 

  • A estrutura desigual - o livro perde força em seu terço final 

No geral, The Director é um romance que merece ser lido - não por suas respostas, mas por suas perguntas. Kehlmann não nos diz o que Pabst deveria ter feito, nem o que nós faríamos em seu lugar. Em vez disso, ele nos força a confrontar a possibilidade desconfortável de que a resposta para "O que eu teria feito?" pode não ser tão heroica quanto gostaríamos de acreditar. 

Como Maureen Corrigan escreveu na NPR: "Quando os compromissos se transformam em capitulação total? Quantas acomodações alguém pode fazer com o mal antes de se tornar parte do mal? The Director não responde a essas perguntas, não pode respondê-las. Mas as deixa chacoalhando em nossas mentes como uma roleta que nunca para de girar. 

 

Nota Final 

Critério 

Avaliação 

Originalidade 

★★★★☆ 

Profundidade temática 

★★★★★ 

Construção de personagens 

★★★☆☆ 

Precisão histórica 

★★★☆☆ 

Relevância contemporânea 

★★★★★ 

Qualidade da prosa (tradução) 

★★★★☆ 

Nota geral 

4/5 

Recomendado para: Leitores interessados em literatura do Holocausto, a relação entre arte e política, biografias ficcionais, e qualquer pessoa que já se perguntou "O que eu teria feito?" 

Não recomendado para: Leitores que preferem fatos estritamente documentados à imaginação literária, ou aqueles que buscam narrativas de resistência heroica inequívoca. 

 

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