SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 21 de abril de 2026

A Criação do Cinema e sua Transformação em Telas Globais Conectadas. Por Egidio Guerra

 



Introdução: A Imagem em Movimento como Ruptura Epistêmica

Houve um momento preciso na história da humanidade em que o tempo, pela primeira vez, pode ser capturado. Não descrito em palavras, não pintado em telas, não esculpido em mármore — mas literalmente capturado, fixado em uma tira de filme, reproduzível ad infinitum. Esse momento foi o outono de 1888, em Leeds, Inglaterra, quando Louis Le Prince filmou Roundhay Garden Scene: dois segundos e onze quadros de sua família andando em um jardim .

"The past would become available to the future" .

Esta frase de Paul Fischer, em The Man Who Invented Motion Pictures, resume a magnitude do que estava em jogo. Antes de Le Prince, a experiência humana era radicalmente efêmera. Depois de Le Prince — ou, mais precisamente, depois do que aconteceu com ele — o passado tornou-se um arquivo, um depósito de imagens que poderiam ser revisitadas, re experienciadas, reinterpretadas.

Este texto traça a trajetória do cinema desde sua invenção obscura e trágica até sua transformação no que Gilles Lipovetsky e Jean Serroy chamam de "tela global" e no que Néstor García Canclini analisa como espaço de negociação cultural na globalização. Integrando também as contribuições de Pierre Lévy sobre a inteligência coletiva e o ciberespaço, argumentaremos que o cinema não morreu — ele se remediou, expandiu-se, tornou-se onipresente e, ao fazê-lo, transformou radicalmente nossa relação com o tempo, o espaço e a imaginação.

Parte I: The Man Who Invented Motion Pictures — A Invenção e o Crime

O Gênio Esquecido: Louis Le Prince

A história do cinema, como a conhecemos, começa com um desaparecimento. Paul Fischer, em seu livro meticulosamente pesquisado, resgata do esquecimento a figura de Louis Aimé Augustin Le Prince, um francês radicado em Leeds que, em 1888, construiu o primeiro dispositivo capaz de capturar e projetar imagens em movimento .

Fischer descreve Le Prince como um homem movido por obsessão silenciosa. Seu dispositivo, que ele chamava de "taker" ou "receiver", era projetado para capturar "ten to twelve images per second on film, creating a reproduction of reality that can be replayed as many times as desired" . A implicação era revolucionária:

"In an otherwise separate and detached world, occurrences from one end of the globe could now be viewable with only a few days delay on the other side of the world. No human experience — from the most mundane to the most momentous — would need to be lost to history" .

Le Prince patenteou sua invenção em quatro países, à frente de todos os outros inventores que corriam para alcançar o mesmo objetivo . Ele estava pronto para apresentar seu trabalho ao mundo em 1890.

O Crime Perfeito: O Desaparecimento na França

Em setembro de 1890, Le Prince visitou seu irmão em Dijon. No dia 16, ele embarcou em um trem com destino a Paris, de onde seguiria para Londres e depois para Nova York, onde demonstraria sua invenção .

Ele nunca chegou.

"His body was never found and his fate has been one of the great mysteries of the Victorian Age" .

O trem chegou a Paris. Le Prince não estava a bordo. Nenhum bilhete. Nenhum corpo. Nenhuma testemunha. Apenas o silêncio.

Thomas Edison e o Roubo da História

Menos de um ano depois, em 1891, Thomas Edison anunciou que havia desenvolvido uma câmera de motion pictures: o Kinetoscópio . A família de Le Prince estava convencida de que Edison havia roubado o trabalho de Louis. Eles processaram o inventor mais famoso do mundo .

O dia em tribunal chegou em 1898. Adolphe Le Prince, filho de Louis, testemunhou que a câmera de seu pai havia precedido os protótipos de Edison e de todos os outros . A questão que Fischer coloca é perturbadora:

"How far might the powerful and litigious Edison have gone to cement his legacy as the inventor of motion pictures?" .

Fischer não apenas documenta o mistério — ele o resolve. O livro apresenta uma solução para este "cold case" de 130 anos, com "plot twists and surprise ending worthy of a Hollywood blockbuster" . Mas a ironia é amarga: o homem que dedicou sua vida a preservar memórias foi, ele próprio, perdido na história .

O Significado da Invenção: O Tempo Capturado

A importância da invenção de Le Prince transcende a disputa por patentes. Fischer captura o que estava verdadeiramente em jogo:

"Moving photographs were a technological leap as transformative and momentous as the advent of the printing press" .

O prelo de Gutenberg democratizou o texto escrito, permitindo que ideias fossem disseminadas em escala sem precedentes. A câmera de Le Prince fez o mesmo pela imagem em movimento. Pela primeira vez, a experiência visual poderia ser compartilhada através do tempo e do espaço com fidelidade e reprodutibilidade.

Mas havia também um preço. A obsessão de Le Prince por seu dispositivo — uma obsessão que Fischer documenta em detalhes — consumiu sua vida. E, possivelmente, custou-lhe a vida. O título do livro promete "a true tale of obsession, murder, and the movies" . E entrega exatamente isso: uma história sobre como o desejo de capturar o tempo pode, ironicamente, fazer com que o próprio tempo do inventor seja abruptamente interrompido.

Parte II: A Tela Global — A Era Hipermoderna e a Expansão do Espírito Cinema

A Tese Central: O Tudo-Tela

Se Fischer nos conta a história do nascimento do cinema, Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, em A Tela Global: Mídias Culturais e Cinema na Era Hipermoderna, nos contam a história de sua morte anunciada e ressurreição transformadora.

A tese dos autores é ousada e contra-intuitiva. Longe de assistirmos ao fim do cinema, estamos testemunhando seu auge paradoxal — o que eles chamam de "tudo-cinema" ou "cinemania generalizada" . O século XX foi o século do cinema, mas a segunda metade do século XX e o século XXI anunciam "a era do tudo-tela" .

Lipovetsky situa esta transformação no contexto mais amplo da "era hipermoderna", que ele define como:

"o aprofundamento do tripé que sempre caracterizou a modernidade: o mercado, o indivíduo e a escalada técnico-científica" .

O hipermodernismo não é o fim da modernidade (como sugeria o pós-modernismo), mas sua intensificação. A globalização vertiginosa, as novas tecnologias de comunicação de massa e a legitimação dos prazeres do consumo revolucionaram o cotidiano das massas . E o cinema, como forma cultural central da modernidade, não poderia ficar imune a esta aceleração.

O Paradoxo do Cinema na Era das Telas Múltiplas

Lipovetsky e Serroy enfrentam uma aparente contradição. As estatísticas mostram uma diminuição do número de salas de cinema. A televisão, o videocassete, o DVD, o computador, o celular e as plataformas de streaming parecem ter fragmentado a audiência que antes se reunia na "catedral do século" que era a sala escura .

No entanto, os autores argumentam que é precisamente neste momento de aparente declínio que o cinema triunfa como nunca:

"É no momento em que o cinema não é mais a mídia predominante de outrora que triunfa, paradoxalmente, seu dispositivo próprio, não material, é claro, mas imaginário: o do grande espetáculo, o da transformação em imagem, do star-system" .

O "dispositivo imaginário" do cinema — sua maneira de ver o mundo, sua estética, sua gramática visual — expandiu-se para além das paredes das salas escuras e colonizou todos os outros meios. A transmissão esportiva, com suas múltiplas câmeras, seus zooms e seus slow motions, é cinema. O reality show, com sua filmagem do cotidiano de pessoas comuns, é cinema. O vídeo caseiro, a violência filmada pelos próprios agentes, a selfie cinematográfica — tudo é cinema .

"Uma cinemania generalizada, portanto. Uma cinevisão do mundo, por conseguinte" .

A Vida que Imita a Arte: O Cinema como Mundo

A consequência mais profunda desta transformação é aquela que Lipovetsky e Serroy identificam com clareza: "aqui, mais do que nunca, é a vida que imita a arte" . A inversão da fórmula de Oscar Wilde é completa. Não vivemos para depois contar. Contamos para viver. Ou, mais precisamente, vivemos como se estivéssemos sendo filmados.

"O cinema que, outrossim, é arte para além da evasão: tem a função social de criar vínculo humano (reunir os espectadores numa mesma sala) e que já foi chamado por isso de 'a catedral do século', e grande força de aculturação que forjou a modernidade" .

Esta "aculturação" é dupla. O cinema nos aculturou — nos ensinou a ver o mundo através de suas convenções. E agora nós, como cultura, o aculturamos — o absorvemos, o digerimos, o transformamos em algo que está em toda parte e em lugar nenhum.

A Defesa do Cinema: Contra a Visão Apocalíptica

Lipovetsky e Serroy estão conscientes das críticas à espetacularização da cultura. A acusação comum é que a proliferação de telas nos despoja da "vida verdadeira", nos leva à desrealização do mundo, ao controle dos comportamentos, ao empobrecimento das existências, à padronização da cultura .

Os autores não negam a existência de uma tendência superficializante. Mas recusam a visão apocalíptica:

"O que o universo telânico trouxe ao homem hipermoderno é menos, como se afirma com frequência, o reinado da alienação do que uma nova capacidade de recuo crítico, de distanciamento irônico, de julgamento e de desejos estéticos" .

A tela não nos torna passivos. Ao contrário — ela nos torna, potencialmente, mais críticos, mais conscientes das convenções, mais capazes de ironia e distanciamento. Não há "derrocada da cultura da singularidade no reinado da barbárie estética", mas também não há triunfo do "valor espírito". A conclusão de Lipovetsky e Serroy é deliberadamente ambivalente:

"Nenhum filme catástrofe, mas também nenhum happy end" .

Vivemos na ambiguidade. A tela é tanto prisão quanto janela. O cinema é tanto alienação quanto crítica. E a tarefa da teoria cultural é habitar esta ambiguidade, não resolvê-la falsamente.

Parte III: García Canclini e a Globalização Imaginada

A Globalização como Narrativa Múltipla

Se Lipovetsky e Serroy nos oferecem uma análise da forma da tela global, Néstor García Canclini nos oferece uma análise de seu conteúdo — ou, mais precisamente, de sua multiplicidade de conteúdos e interpretações. Em obras como La Globalización Imaginada e Imagined Globalization, Canclini desafia a narrativa dominante da globalização como homogeneização .

Sua tese central é que a globalização não é um processo único, monolítico e inevitável. É, ao contrário, um campo de forças onde diferentes atores imaginam e experimentam a interconexão global de maneiras radicalmente distintas:

"Only a small sector of politicians, financiers, and academics think of a circular globalization. The rest imagine tangential globalizations: with those who speak English, with nations of their own region, or in free trade agreements to protect themselves from generalized competition" .

Canclini propõe o conceito de "globalização imaginada" para capturar esta multiplicidade. A globalização não é um destino — é uma construção cultural, um conjunto de narrativas, um campo de disputas simbólicas .

O Cinema como Espaço de Negociação Cultural

No centro da análise de Canclini está o cinema — particularmente o cinema latino-americano em sua relação com Hollywood. Ele examina "as ambiguidades escondidas nas metáforas usadas para falar de conflitos fronteiriços" e analisa o humor nos mal-entendidos interculturais .

Para Canclini, o cinema não é apenas um produto cultural que circula globalmente. É um espaço de negociação onde identidades são formadas, desafiadas e transformadas. Ele se pergunta:

"What to do so that global exchanges are not managed only in business lobbies but in a public sphere where a world citizenship is being built" .

Esta questão é fundamental. Se o cinema se tornou global, quem controla suas imagens? Quem decide quais histórias são contadas? Quem tem acesso às telas?

Canclini não oferece respostas fáceis. Mas sua análise aponta para a importância de políticas culturais que permitam "a produção de novas formas de cidadania em direção a uma sociedade multicultural, em vez de torná-la homogênea" .

A América Latina e Hollywood: Uma Relação Assimétrica

Canclini examina especificamente a relação entre a América Latina e os Estados Unidos no campo cinematográfico. Ele fala de "Latin America and Europe as suburbs of Hollywood"  — uma formulação provocadora que captura a assimetria fundamental do mercado global de imagens.

As indústrias cinematográficas nacionais não desapareceram na era da globalização. Mas foram reconfiguradas, forçadas a negociar com o gigante americano. Canclini documenta "os diferentes modos em que se globalizam as finanças, a cidadania, as artes visuais, as editoras, a música e o cinema" , mostrando que cada setor tem sua própria dinâmica de globalização.

O que vale para as finanças não vale para o cinema. O que vale para o cinema em Hollywood não vale para o cinema no México ou no Brasil. A globalização é, para Canclini, irremediavelmente desigual — e esta desigualdade deve estar no centro de qualquer análise séria.

Parte IV: Pierre Lévy e o Ciberespaço como Novo Território do Imaginário

A Inteligência Coletiva e a Nova Ecologia da Informação

Pierre Lévy, sua contribuição para a compreensão da transformação do cinema em telas conectadas é indispensável. Lévy é o teórico da inteligência coletiva e do ciberespaço como novo território antropológico.

Para Lévy, o ciberespaço não é apenas uma rede de computadores. É um novo espaço de conhecimento, interação e criação coletiva. É onde a inteligência distribuída da humanidade pode se encontrar, se organizar e se amplificar. E é também onde as imagens — incluindo as imagens cinematográficas — ganham nova vida.

A Convergência e o Espectador como Co-criador

Lévy antecipa muitas das análises posteriores sobre a convergência midiática. Para ele, o espectador do cinema na era digital não é mais um receptor passivo. É um navegador, um curador, um co-criador. A inteligência coletiva permite que comunidades de espectadores se organizem em torno de filmes, produzindo interpretações, críticas, fanfictions, memes — todo um ecossistema de significados que se expande para além do texto original.

Esta é a contrapartida otimista da análise de Lipovetsky. Se a tela global pode ser alienante, ela também pode ser empoderadora. O espectador hipermoderno não está apenas diante da tela — está dentro dela, através dela, com ela.

A Crítica: O Risco da Fragmentação

Lévy não é ingênuo. Ele reconhece que a inteligência coletiva pode se fragmentar em "inteligências tribais" — bolhas, câmaras de eco, comunidades fechadas que se reforçam mutuamente em suas crenças. O ciberespaço é tanto um espaço de encontro quanto de isolamento. A tela conecta e desconecta simultaneamente.

Esta tensão é central para entender a transformação do cinema em telas globais. O mesmo dispositivo que permite que um filme indiano seja visto no Brasil também permite que o espectador brasileiro se isole em sua bolha de conteúdos personalizados, nunca encontrando o que não pediu, nunca desafiado pelo que não conhece.

Parte V: Síntese — A Criação, a Expansão e o Futuro do Cinema

De Le Prince ao Streaming: A Linha de Continuidade

O que une a Roundhay Garden Scene de Le Prince ao catálogo da Netflix? À primeira vista, quase nada. Um é um fragmento de dois segundos, em preto e branco, silencioso, capturando a banalidade de uma família andando em um jardim. O outro é um oceano de conteúdo, em cores, em som, em movimento perpétuo, acessível sob demanda.

Mas a linha de continuidade é clara. Le Prince queria que o passado se tornasse disponível para o futuro. A Netflix quer que o presente se torne disponível para o presente — imediatamente, instantaneamente, ubiquamente. O que mudou não foi o desejo fundamental, mas a tecnologia que o realiza.

A Expansão do Espírito Cinema: Da Sala Escura à Ecranosfera

Lipovetsky e Serroy têm razão: o cinema não morreu. Expandiu-se. O "espírito cinema" — a maneira de ver, de narrar, de espetacularizar — colonizou todos os cantos da ecranosfera . A transmissão esportiva é cinema. O reality show é cinema. O vídeo do YouTube é cinema. A live do Instagram é cinema.

Esta expansão tem consequências profundas para a experiência do cinema. A sala escura, com sua tela grande, seu som envolvente, sua escuridão compartilhada, era um espaço de ritual. A tela do celular, com sua imagem pequena, seu som precário, sua luz que compete com a luz do dia, é um espaço de consumo. O que se perde? O que se ganha?

A Globalização Imaginada e a Disputa pelas Imagens

Canclini nos lembra que esta expansão não é neutra. As imagens que circulam globalmente não são todas iguais. Hollywood domina. A América Latina é, muitas vezes, "subúrbio de Hollywood" . A globalização do cinema é, em grande medida, a globalização da indústria cultural americana.

Mas Canclini também nos mostra as resistências, as negociações, as globalizações tangenciais que escapam ao controle dos grandes conglomerados . O cinema indiano (Bollywood), o cinema nigeriano (Nollywood), o cinema chinês — todos encontraram seus próprios caminhos de circulação global, suas próprias audiências, suas próprias formas de contar histórias.

A Conquista da Alma e a Resistência do Espectador

Voltamos, aqui, à questão que atravessou nossos textos anteriores sobre a conquista da alma pela mídia. Se a tela global está em toda parte, se o espírito cinema colonizou nossa percepção, resta alguma margem para a resistência?

A resposta de Lipovetsky e Serroy é ambivalente, mas não pessimista. O espectador hipermoderno não é uma folha em branco sobre a qual as imagens se inscrevem. Ele é dotado de "capacidade de recuo crítico, de distanciamento irônico, de julgamento e de desejos estéticos" .

A resposta de Lévy é mais otimista: a inteligência coletiva permite que os espectadores se organizem, produzam suas próprias interpretações, criem suas próprias imagens. O espectador não é apenas consumidor — é também produtor.

A resposta de Canclini é mais política: a disputa pelas imagens é parte da disputa pela cidadania. Construir uma "cidadania mundial"  requer não apenas acesso às imagens, mas capacidade de produzir imagens próprias, de contar histórias próprias, de imaginar globalizações alternativas.

O Preço da Invenção: Obsessão, Crime e Esquecimento

A história de Louis Le Prince nos lembra que a invenção do cinema teve um preço. Obsessão. Desaparecimento. Possível assassinato. Esquecimento. O homem que dedicou sua vida a preservar memórias foi, ele próprio, apagado da memória .

Há uma ironia profunda nisso. A tecnologia que permite que o passado se torne disponível para o futuro é incapaz de preservar a memória de seu próprio inventor. Le Prince foi vítima do que ele ajudou a criar: um mundo onde as imagens circulam, mas os criadores das imagens são frequentemente esquecidos.

A Questão Final: Quem Controla as Imagens, Controla o Mundo?

Esta questão, que já apareceu em nossa análise de Sherman e Fischer sobre a mídia, retorna aqui com força redobrada. O cinema, como forma cultural, tem um poder imenso de moldar imaginários, de forjar identidades, de naturalizar relações de poder.

Quem decide quais filmes são produzidos? Quem decide quais histórias são contadas? Quem decide quais imagens circulam globalmente?

A resposta, hoje, é complexa. Os grandes estúdios de Hollywood ainda dominam. Mas as plataformas de streaming — Netflix, Amazon, Disney+, Apple TV+ — criaram novos canais de distribuição que, ao menos potencialmente, permitem que mais vozes sejam ouvidas. O cinema coreano (Parasita), o cinema mexicano (Roma), o cinema brasileiro (Bacurau) — todos encontraram audiências globais através das plataformas.

A questão não está resolvida. Está em aberto. E a abertura é, ela mesma, um espaço de luta.

Conclusão: A Tela Global como Condição Humana

Começamos com uma invenção: a captura do tempo por Louis Le Prince em 1888. Terminamos com uma condição: a onipresença da tela na vida hipermoderna.

O cinema, que nasceu como um dispositivo técnico em uma oficina em Leeds, tornou-se o que Lipovetsky e Serroy chamam de "ecranosfera" — um ambiente midiático que nos envolve por todos os lados, que medeia nossa relação com o mundo, que molda nossa percepção do tempo e do espaço .

Esta transformação não é apenas técnica. É existencial. Vivemos, cada vez mais, através das telas. Trabalhamos na tela. Amamos na tela. Nos informamos na tela. Nos entretemos na tela. Nos lembramos e esquecemos na tela.

O cinema, que começou como uma promessa de preservar o passado, tornou-se a condição do presente. E o futuro — quem sabe? Talvez as telas se tornem ainda mais onipresentes, ainda mais integradas aos nossos corpos, ainda mais indistinguíveis da própria realidade.

Ou talvez, como sugerem Lipovetsky e Serroy, o excesso de telas produza um movimento de retorno — uma redescoberta do prazer da sala escura, do ritual compartilhado, da experiência que não pode ser pausada, acelerada ou fragmentada.

"Nenhum filme catástrofe, mas também nenhum happy end" .

Vivemos na ambiguidade. A tela global é promessa e ameaça. O cinema é memória e esquecimento. E nós, espectadores do século XXI, somos os herdeiros de Le Prince — herdeiros de uma invenção que não pedimos, mas que não podemos mais recusar.

O passado tornou-se disponível para o futuro, como Fischer escreveu . Resta saber que futuro queremos construir com este passado disponível. E que imagens queremos deixar para aqueles que virão depois de nós.

Referências

Fischer, P. (2022). The Man Who Invented Motion Pictures: A True Tale of Obsession, Murder, and the Movies. New York: Simon & Schuster .

Lipovetsky, G. & Serroy, J. (2009). A Tela Global: Mídias Culturais e Cinema na Era Hipermoderna. Porto Alegre: Sulina .

García Canclini, N. (1999). La Globalización Imaginada. Buenos Aires: Paidós .

García Canclini, N. (2022). Imagined Globalization (trad.陈金梅).南京:南京大学出版社 .

García Canclini, N. (2001). Consumers and Citizens: Globalization and Multicultural Conflicts. Minneapolis: University of Minnesota Press .

Kim, J-G. (2025). "Deconstructing the Screen: Are Platform Series Replacing Cinema?" Journal of Digital Contents Society, 26(11), 2981-2990 .

University of Southampton. (2025). Digital Screen Cultures (FILM6059) 

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