Há uma pergunta que atravessa a vida de Paul Gauguin como um fio de espada: o que a arte exige da vida para que ela possa, de fato, despertar? A resposta, que emerge de Wild Thing: A Life of Paul Gauguin de Sue Prideaux e de outras biografias do artista, não é confortável. Ela nos fala de perda, de deslocamento e de um tipo de egoísmo tão radical que beira a violência — uma violência que o artista inflige primeiro a si mesmo, e depois a todos que o cercam.
A Perda como Berço do Olhar
Antes de ser uma escolha, a arte foi, para Gauguin, uma ferida. Nascido em Paris em 1848, ele passou os primeiros anos de vida em Lima, no Peru, em uma casa de família aristocrática onde "corria livre" em um "país delicioso, onde nunca chove", como ele próprio recordaria mais tarde. Essa infância peruana, com suas cores, seu calor e sua liberdade, tornou-se para ele um paraíso perdido, uma "beatitude" da qual foi arrancado ao retornar à "França cinzenta como um fantasma" aos sete anos de idade.
O que a arte exige? Exige, antes de tudo, que se mantenha viva a memória desse paraíso perdido. Gauguin nunca deixou de "ansiar pela beatitude perdida, o lugar primitivo e agreste que lhe dera o que ele chamava de 'o sonho'". A arte não nasce do contentamento, mas da ausência. Ela é o esforço desesperado de recapturar algo que já não existe — ou que talvez nunca tenha existido senão no olhar de uma criança.
O Abandono das Certezas
Em 1882, Gauguin era um próspero corretor da bolsa em Paris. Tinha uma esposa, Mette, e cinco filhos. Era respeitável, burguês e, por dentro, estava morto. O colapso do mercado de ações naquele ano foi o pretexto perfeito: ele abandonou as finanças e decidiu viver exclusivamente de sua arte, contra a vontade da família e sob crescentes dificuldades financeiras.
O que a arte exige? Exige que se troque a segurança pelo abismo.
Não se trata de um sacrifício romântico qualquer. Gauguin não era um jovem boêmio em busca de aventura; era um homem de trinta e poucos anos que deliberadamente optou por empobrecer, por se despedir da previsibilidade, por tornar-se um estranho no mundo que antes o acolhia. Mais tarde, deixaria para trás não apenas a profissão, mas a própria Europa, rumando primeiro ao Panamá, depois à Martinica e, finalmente, ao Taiti. Cada movimento era um corte. Cada viagem, uma queima de pontes.
A Solidão da Visão
A arte exige, também, que se suporte a incompreensão. Quando Gauguin começou a expor, suas cores planas, seus contornos escuros e sua rejeição à perspectiva naturalista chocaram o público. Ele não pintava "depois da natureza", como os impressionistas, mas a partir de seu mundo interior. "Sempre desprezaria as pessoas que elevavam o reino da visão acima do misterioso reino do pensamento e da memória", escreve Prideaux sobre ele.
Ele buscava o que chamou de synthétisme: simplificar os dados sensoriais até suas formas fundamentais, usando a cor não para imitar a realidade, mas para expressar emoção. Isso, na França de fins do século XIX, era um escândalo. Mas Gauguin aprendeu a transformar a rejeição em identidade. "Sou um selvagem do Peru", bradava, construindo deliberadamente a própria lenda de outsider. Seus amigos ecoavam essa imagem: Degas o chamava de "lobo faminto sem coleira"; Strindberg, inspirado por ele, dizia sentir "uma grande necessidade de me tornar selvagem e fazer um novo mundo".
Eis o paradoxo: a arte exige que se permaneça à margem, mas também que se encontre nessa marginalidade a própria fonte da obra. O verdadeiro artista não é aquele que agrada, mas aquele que, ao resistir, inventa um novo mundo.
O Encontro com o "Paraíso" (e Sua Reinvenção)
Quando Gauguin finalmente chegou ao Taiti em 1891, esperava encontrar um Éden intocado. Em vez disso, encontrou uma colônia francesa já transformada por missionários ocidentais e pela administração colonial: cabanas de zinco corrugado, pobres e sujas, que nada tinham a ver com os sonhos exóticos que ele pintava.
O que a arte exige aqui? Exige a coragem de inventar o mundo quando a realidade se recusa a cooperar.
Gauguin não registrou o Taiti que viu; pintou o Taiti que precisava existir. Suas telas de mulheres polinésias, deuses ancestrais e paisagens douradas são projeções idealizadas, "não tanto uma representação do que ele viu, mas uma projeção idealizada do que ele esperava encontrar". Ele sintetizou o cristianismo através de uma "lente multirracial" em obras como Ia orana Maria (Ave Maria), misturando mitologias e culturas para criar algo inteiramente novo.
Esta é talvez a exigência mais dura da arte: ela não quer a verdade factual. Ela quer a sua verdade. Gauguin sabia que não se tratava de reproduzir a natureza, mas de traduzi-la através do temperamento do artista. O realismo acadêmico era, para ele, uma mentira mais profunda do que qualquer fantasia honestamente assumida.
O Preço Humano
Não seria honesto falar do que a arte exige sem mencionar o que ela consome. Gauguin pagou um preço humano que continua a chocar os leitores contemporâneos. Abandonou a esposa e os filhos, deixando Mette para trás na Dinamarca com poucos recursos. No Taiti, "casou-se" com adolescentes de 13 e 14 anos — uma prática que, mesmo legal na colônia francesa da época e mediada pelas próprias famílias das meninas, é à luz da ética atual simplesmente indefensável. Ele viveu com Tehamana, uma dessas meninas, que descreve como tendo "liberado uma grande enchente de criatividade".
A arte exige isso? Exige que se seja um monstro?
A biógrafa Sue Prideaux não condena nem absolve. Ela simplesmente nos lembra que "o período recente de aparecimento de tantos novos materiais coincidindo com o debate contemporâneo em torno de sua reputação perturbadora tornou importante reexaminar a vida de Gauguin: não para condenar, não para desculpar, mas simplesmente para lançar nova luz sobre o homem e o mito".
Talvez a resposta não seja moral, mas existencial: a arte exige tudo. Ela é uma voragem. Alguns artistas — poucos, muito poucos — estão dispostos a pular dentro dela, levando consigo não apenas a própria vida, mas também as vidas que tocam. Isso não torna o ato belo. Torna-o, talvez, trágico.
O Testamento Final
Nos últimos anos de vida, já doente, pobre e vivendo nas Ilhas Marquesas, Gauguin pintou o que considerava sua obra-prima: De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos?. A imensa tela, pintada em apenas um mês, é uma meditação visual sobre a vida, a morte e o sentido. Terminada ela, ele tentou o suicídio com arsênico — e falhou.
A arte o manteve vivo? Ou foi ele quem, ao servir à arte, esgotou-se até o osso?
Conclusão: O Despertar
O que a arte exige da vida para que ela possa despertar?
Exige que se mantenha viva a memória de um paraíso perdido — esse sonho infantil de um mundo onde as cores eram mais intensas e as regras ainda não haviam se fechado sobre nós.
Exige que se troque a segurança pelo abismo — que se abandone o previsível em nome do desconhecido, sabendo que talvez não haja retorno.
Exige que se suporte a solidão da visão — que se crie mesmo quando ninguém compreende, que se invente o mundo quando o mundo se recusa a cooperar.
E exige, por fim, algo que nem sempre estamos dispostos a dar: que se pague o preço, seja ele qual for. Nem sempre a obra justifica o preço. Mas Gauguin, em sua busca furiosa por um mundo espiritual "permeando o mundo material", nos legou uma pergunta que continua a nos assombrar: será que existe algum caminho mais suave para a grande arte? Ou será que as exigências da visão são sempre — e inevitavelmente — um ato de violência sagrada contra a vida comum?
Gauguin acreditava que não. "Ainda que demore", talvez se possa parafrasear sua esperança messiânica, "esperarei por essa visão, a cada dia." E viveu como se não houvesse amanhã — ou como se o amanhã, na verdade, fosse inteiramente dedicado a essa espera.
Nenhum comentário:
Postar um comentário