No imaginário popular, a história da Apple muitas vezes começa no momento da queda: a garagem, o primeiro computador, o sucesso estrondoso. Mas, assim como a narrativa bíblica, o que conhecemos como "o pecado" — a expulsão de Steve Jobs da empresa que fundou — é apenas o ato final de um primeiro capítulo muito mais ingênuo, caótico e profundamente humano. Antes do exílio de 1985, antes das brigas de poder e da soberba corporativa, houve um momento raro e quase puro de criação. Foi a era da "Maça antes do pecado", um período capturado com riqueza de detalhes no livro Apple: The First 50 Years, de David Pogue, e nas clássicas biografias do visionário.
Para entender a magnitude da queda, é preciso primeiro entender a santidade — ou pelo menos a ingenuidade — do início de tudo. Antes de Steve Jobs ser o "gênio cruel" ou o "mestre da realidade", ele era apenas um jovem de sandálias, cabelos rebeldes e ideias confusas, em busca de um sentido que não encontrava nas salas de aula da Reed College . A contracultura dos anos 1970 não era apenas um pano de fundo para Jobs; ela era sua essência. Ele experimentou LSD, viajou para a Índia em busca de iluminação espiritual, dormiu no chão de quartos de amigos e sobreviveu de refeições grátis em templos Hare Krishna .
Esse era o "Adão" antes da criação da indústria da tecnologia: um hippie visionário que não tomava banho regularmente e ficava entediado com a matemática, mas que se fascinava com a caligrafia e a estética . Seu parceiro, Steve Wozniak, era o oposto complementar: um gênio da engenharia tímido e avesso aos holofotes, que construía computadores por amor, não por lucro. Enquanto Jobs sonhava em mudar o mundo, Wozniak só queria impressionar seus colegas no clube de computadores Homebrew. A maçã estava no pomar, mas ninguém ainda havia pensado em mordê-la para vendê-la.
A fundação da Apple Computer em 1º de abril de 1976 foi um ato de pura amizade e oportunismo juvenil, regado a uma pitada de crueldade involuntária. A ideia inicial de Wozniak era dar o design do Apple I de graça. Foi Jobs, o astuto vendedor de garagem, quem insistiu: "Não, vamos vender" . É aqui que nasce o "pecado original" da Apple — não a ganância, mas a ambiência de transformar arte em negócio.
Curiosamente, há uma figura quase esquecida que personifica a inocência e o medo dessa era: Ron Wayne. Wayne era o "adulto na sala", um engenheiro mais velho chamado para arbitrar brigas entre os dois Steves e redigir o contrato social. Por seus serviços, ele recebeu 10% da nova empresa. Doze dias depois, assustado com as dívidas e com o visual desleixado de Jobs (que, segundo relatos, "não usava desodorante"), Wayne desistiu. Vendeu sua parte por meros 800 dólares . Se tivesse ficado, hoje seria um dos homens mais ricos do mundo. Mas, naquele momento, a Apple parecia apenas mais um "bico" de dois garotos desmazelados.
O Sonho (e o Pesadelo) da Inocência
O primeiro grande sucesso, o Apple II, foi a materialização desse espírito. Lançado em 1977, foi o primeiro computador pessoal que parecia um eletrodoméstico e não um kit de montar. Enquanto o mercado era dominado por "caixas cinzas", o Apple II tinha um case plástico e elegante. A empresa crescia em meio ao caos. As biografias de Walter Isaacson descrevem a Apple primitiva como uma mistura de mosteiro hippie com campo de batalha. Jobs era cruel, muitas vezes chamando as ideias dos outros de "merda" antes de roubá-las dias depois como se fossem suas .
Contudo, havia um método nessa loucura. Jobs, o "gênio" imperfeito, tinha uma obsessão que beirava o misticismo: ele acreditava que a tecnologia deveria ser bonita. Essa era a "maçã" antes da corrupção pelo poder corporativo — a crença pueril de que um produto bem desenhado poderia tornar o mundo melhor. Como mostra Pogue, Jobs descia no chão para discutir a sombra de um ícone ou a curvatura de um canto .
A Queda (O Primeiro Pecado)
A era de ouro da inocência acabou em 1984. Após o lançamento do Macintosh, a relação entre Jobs e o CEO John Sculley (o executivo da Pepsi que Jobs recrutou com a famosa frase "Você quer vender água açucarada pelo resto da vida ou quer mudar o mundo?") se deteriorou . Jobs, impulsivo e imaturo, tentou dar um golpe para tirar Sculley do poder. O plano falhou.
Em 1985, o Conselho da Apple, cansado das infantilidades do fundador, decidiu: Jobs estava expulso. Foi a expulsão do paraíso. Ele tinha apenas 30 anos . O "pecado" de Jobs foi ter sido arrogante demais em um ambiente que já não era mais uma garagem, mas uma corporação bilionária. Ao sair, ele levou consigo cinco dos principais funcionários da Apple — os "bandidos" que fundariam a NeXT — deixando a empresa que amava entregue ao que ele chamava de "buracos" .
Conclusão: O Legado da Maçã
Os 12 anos seguintes foram o "Velho Testamento" da Apple: sofrimento, produtos sem foco, quase falência . Enquanto isso, Jobs amadureceu no deserto da NeXT e floresceu na Pixar. A "Maça antes do pecado" foi o período em que a Apple era movida pela paixão bruta e pela inocência técnica de Wozniak, temperada pela histeria estética de Jobs.
Quando Jobs retornou em 1997, ele não era mais o hippie de sandálias; era um "predador" de terno preto. A inocência havia sido substituída pela disciplina. Mas, como David Pogue e Isaacson documentam, sem aquela primeira mordida ingênua em 1976 — sem aquele momento em que um garoto sujo convenceu seu amigo tímido a vender um sonho — a história da tecnologia teria sido muito mais cinzenta.
A maçã foi mordida. O paraíso foi perdido. Mas a humanidade ganhou o computador pessoal.
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