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quinta-feira, 23 de abril de 2026

Hannah Arendt: A Banalidade do Mal e o Espetáculo da Irresponsabilidade no Século XXI. Por Egidio Guerra





Há algo profundamente inquietante na obra de Hannah Arendt que desafia o conforto das explicações fáceis. Em uma época obcecada por monstros e vilões, a filosofa alemã nos apresentou uma figura muito mais perturbadora: o homem comum que pratica o mal extremo sem jamais nutrir qualquer intenção maligna. Ao cobrir o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém, em 1961, Arendt não encontrou o demônio que a imaginação popular projetava, mas um burocrata meticuloso, preocupado com sua promoção e surpreendentemente incapaz de pensar pela própria cabeça . Esta constatação deu origem ao seu conceito mais célebre e incompreendido: a banalidade do mal.

Como analisa Fina Birulés em Hannah Arendt: O mundo em jogo, a originalidade do pensamento arendtiano reside em sua recusa sistemática das totalidades fechadas. Para Birulés, Arendt nos ensina que o mundo é aquilo que se passa entre os homens — um espaço de aparição que só existe enquanto houver pluralidade, ação e discurso. Este "mundo em jogo" está perpetuamente ameaçado por forças que buscam sua dissolução: seja o isolamento do indivíduo moderno, seja a ascensão de ideologias que pretendem explicar a totalidade da experiência humana. Nesse sentido, a crise contemporânea não é acidental, mas estrutural, e a obra de Arendt oferece ferramentas indispensáveis para sua compreensão.


A Engrenagem sem Pensamento: Eichmann e a Modernidade Líquida

O conceito de banalidade do mal frequentemente sofre um reducionismo perigoso. Não se trata, como às vezes se alega, da ideia de que o mal se tornou comum ou frequente. Trata-se, antes, de sua ausência de profundidade. Eichmann não era um sádico nem um psicopata; era "um homem normal, marido, pai e funcionário exemplar", cujo problema fundamental era sua "incapacidade de pensar" . Ele operava dentro de uma lógica estritamente burocrática, preocupado em cumprir procedimentos e seguir ordens emanadas da autoridade superior.

A atualidade desta análise é estarrecedora. Pesquisas recentes sobre a aplicação do conceito ao contexto da pandemia de COVID-19 no Brasil revelam como a banalização da vida humana tornou-se uma política de Estado velada . O que Arendt chamou de "mal banal" manifesta-se quando decisões sobre a vida e a morte são tratadas como meras questões de gestão de recursos, eficiência econômica ou cumprimento de protocolos burocráticos — sem que haja, por parte dos agentes envolvidos, a necessária reflexão ética sobre o que está em jogo.

Mais do que isso: o conceito tem sido mobilizado para compreender fenômenos tão diversos quanto a violência do Estado Islâmico, onde o fanatismo ideológico opera como substituto do pensamento autônomo , e os massacres em escolas brasileiras, vistos como expressão trágica da "desintegração das estruturas políticas e simbólicas que sustentam a escola como espaço de formação humana" .


A Vitória do Animal Laborans: Trabalho, Consumo e a Erosão do Mundo Comum

Para compreender as condições de possibilidade deste fenômeno, Arendt recua a uma análise mais profunda em A Condição Humana. Nesta obra fundamental, ela distingue três atividades constitutivas da vita activa: o trabalho (labor), que corresponde aos processos biológicos de sobrevivência; a obra (work), que produz o mundo artificial e durável dos artefatos humanos; e a ação (action), que funda a esfera política propriamente dita através da pluralidade e do discurso.

A tese central de uma pesquisa recente da UFMG sobre Arendt é que a modernidade testemunhou a vitória do animal laborans — o homem reduzido à produção e ao consumo — sobre todas as outras dimensões da existência humana . Esta ascensão do trabalho como atividade dominante tem consequências devastadoras: ao priorizar o processo produtivo e a lógica utilitária, a sociedade contemporânea erode o espaço público, fragiliza a pluralidade e produz um isolamento generalizado que Arendt chamou de solidão — não aquela buscada pelo pensador, mas a experiência do indivíduo desconectado do mundo e dos outros.

O artigo recente de Thaís Cristo Andrade no jornal Estadão aplica esta análise ao Brasil contemporâneo com precisão cirúrgica. Ao comentar as fraudes bilionárias do INSS, que lesaram aposentados e pensionistas, a autora pergunta: "Será que, em algum momento, consideraram que esses descontos poderiam tirar o pão da mesa de um aposentado?" . A resposta provável — e arendtiana — é que não, porque a lógica do animal laborans é uma lógica puramente funcional: o que importa é o cumprimento da tarefa, a meta de produção, o lucro. O sofrimento do outro torna-se "dano colateral", uma externalidade irrelevante para o sistema.


O Mal sem Máscara: Da Crueldade Programada à Indiferença Cotidiana

Se a banalidade do mal já era perturbadora em sua formulação original, alguns analistas contemporâneos argumentam que estamos diante de uma nova configuração, ainda mais perversa. Em artigo publicado em março de 2026, o jornalista ambiental Dal Marcondes sugere que o atual cenário político global — particularmente o retorno de políticas isolacionistas e autoritárias — ultrapassou o conceito arendtiano original, configurando uma "crueldade programada", um "exercício de humilhação que se tornou estratégia de poder" .

A distinção proposta por Marcondes merece atenção: não se trata mais apenas da ausência de pensamento, mas de um mal requintado que deliberadamente ataca os alicerces éticos construídos desde o pós-guerra. Políticas que separam crianças imigrantes de suas famílias, que transferem mulheres trans para presídios masculinos, que abandonam princípios socioambientais em nome da ideologia de mercado — estas não são simplesmente ações impensadas, mas atos calculados que instrumentalizam o sofrimento humano como meio de afirmação política.

No entanto, talvez a forma mais perversa do mal banal em nosso tempo seja aquela que ocorre nos interstícios da vida cotidiana. Jones Figueirêdo Alves, desembargador e articulista, identifica a banalidade do mal nos "déficits sociais" naturalizados: as filas intermináveis em hospitais, a ausência de vagas em maternidades, o descaso com a segurança pública, a violência estrutural que atinge preferencialmente as populações vulneráveis . O mal torna-se banal não porque ninguém o percebe, mas porque a sociedade passa a aceitar o inaceitável como "parte do normal".

"Quando o mal não é punido, cria-se uma cultura onde a irresponsabilidade moral se institucionaliza. A impunidade se torna a normalização definitiva do mal." 


A Escola e o Mundo em Ruínas: A Crise da Autoridade

A obra de Arendt sobre educação, particularmente o ensaio "A Crise na Educação", oferece chaves adicionais para compreender nosso presente. Para a filosofa, a escola é uma instituição fundamentalmente conservadora — não no sentido político-partidário, mas no sentido de que sua função primordial é introduzir as novas gerações no mundo tal como ele é, antes que estas possam transformá-lo. Esta função torna-se problemática quando o próprio mundo está em crise.

Pesquisa recente sobre violência contra escolas no Brasil, publicada na Cadernos Arendt, argumenta que os ataques a instituições de ensino não são incidentes isolados, mas "expressões da desintegração das estruturas políticas e simbólicas que sustentam a escola como espaço de formação humana" . Quando a escola deixa de ser percebida como um mundo comum — um espaço protegido onde as novas gerações podem ser introduzidas gradualmente à responsabilidade pública — ela se torna alvo de uma violência que é, ao mesmo tempo, sintoma e agravante da crise mais ampla.

A conexão com a era digital é inevitável. As redes sociais e as inteligências artificiais, observa Andrade, produzem "usuários cada vez mais passivos e acríticos", cuja "capacidade de discernimento e reflexão individual tem se deteriorado" . O mesmo Eichmann que justificava suas ações com a obediência à lei e à autoridade de Hitler encontra, hoje, correspondentes nos burocratas de plataforma que moderam conteúdo segundo algoritmos opacos, nos profissionais de marketing que produzem campanhas sem questionar seus efeitos éticos, nos cidadãos que compartilham desinformação sem jamais verificar sua veracidade.


O Terrível Perigo de Não Pensar: Por que Arendt é Indispensável

O que torna Arendt tão urgentemente necessária é sua insistência em que pensar não é um luxo intelectual reservado a filósofos, mas uma exigência ética para todo ser humano. Pensar, para ela, significa estabelecer um "diálogo silencioso consigo mesmo" , no qual se examinam os próprios princípios, se questionam as evidências recebidas, se recusa o conformismo automático. A ausência deste diálogo interior — esta incapacidade de se "fazer companhia" — é o terreno fértil onde a banalidade do mal floresce.

Os desafios para os direitos humanos na contemporaneidade, analisados à luz de Arendt, revelam que a proteção da dignidade humana não depende apenas de leis e instituições, mas fundamentalmente da capacidade de ação e responsabilidade social de cada indivíduo . O mal banal surge precisamente quando delegamos esta responsabilidade a sistemas — sejam eles o Estado, a corporação, a ideologia ou o algoritmo — e abdicamos do exercício incômodo, mas indispensável, de pensar por nós mesmos.

Estivesse viva hoje, Arendt provavelmente concordaria que o mal se tornou mais eficiente, mais impessoal, mais facilmente dissimulado em interfaces amigáveis e painéis de controle . Hoje, como ontem, o mal não precisa de monstros. Precisa apenas de homens e mulheres que recusam o esforço de pensar; de sistemas que recompensam a obediência e punem a insubordinação; de uma cultura que confunde o debate público com entretenimento e a informação com conhecimento.


Contra o Mal Banal: A Aposta na Pluralidade e no Mundo Comum

A obra de Hannah Arendt, no entanto, não é uma filosofia do desespero. Contra a vitória do animal laborans e a erosão do espaço público, ela aposta na possibilidade de reconstrução do mundo comum através da ação concertada e do discurso. O milagre da política, para ela, é que ela pode começar de novo a cada momento — que o perdão liberta da inevitabilidade das ações passadas e que a promessa cria ilhas de estabilidade em um mar de imprevisibilidade.

As pesquisas contemporâneas sobre Arendt convergem para uma conclusão compartilhada: sua obra não é um monumento a ser admirado à distância, mas um arsenal conceitual vivo para o combate às patologias políticas do presente . Se o mal se tornou banal porque deixamos de pensar, a resistência começa pelo simples — e extraordinariamente difícil — ato de recuperar nossa capacidade de espanto diante do inaceitável, de indignação diante do injusto, de responsabilidade diante do sofrimento alheio.

O mundo, para Arendt, está sempre "em jogo" — nunca garantido, sempre a depender da ação humana para sua preservação e renovação. Cabe a cada geração decidir se aceita jogar este jogo ou se prefere abandonar o tabuleiro à lógica cega das engrenagens. A atualidade de sua obra é o testemunho de que o jogo ainda não acabou — e que talvez, se nos lembrarmos de pensar, possamos evitar que termine da pior maneira possível.


Referências

BIRULÉS, Fina. Hannah Arendt: O mundo em jogo. (obra-base mencionada, sem dados editoriais completos no corpus da pesquisa).

AFONSO, Maria Rosa. A Banalidade do Mal em Hannah Arendt: Compreensão e Atualidade do Conceito. Polymatheia - Revista de Filosofia, v. 17, n. 2, p. 192–206, 2024 .

MOLINA, Fabíola Dornelles. Hannah Arendt: A banalização da vida humana e a pandemia de COVID-19, no Brasil. Intuitio, v. 18, n. 2, p. 1–15, 2025 .

TEIXEIRA, João Paulo Allain; TOMÉ, Semiramys Fernandes. A concepção de Justiça em Hannah Arendt e a análise da banalização do mal no Estado Islâmico. Revista Direitos Humanos, 2024 .

ANDRADE, Thaís Cristo. Quando o mal se torna banal: refletindo com Arendt o Brasil atual. Estadão, 23 set. 2025 .

TAVARES, Amyna Karilia Mendonça. A banalidade do mal e os desafios para os Direitos Humanos: A perspectiva de Hannah Arendt na contemporaneidade. 2024. TCC (Graduação em Direito) - Universidade Estadual da Paraíba .

MARCONDES, Dal. A Arquitetura da Crueldade: "a banalidade do mal". Envolverde, 30 mar. 2026 .

GIAROLA, Shênia Souza. Trabalho e banalidade do mal em Hannah Arendt: a vitória do animal laborans como condição do mal banal. 2025. Tese (Doutorado em Filosofia) - Universidade Federal de Minas Gerais .

SIQUEIRA, Izaquiel Arruda. Educação em ruínas? Uma leitura arendtiana sobre a violência contra as escolas no Brasil. Cadernos Arendt, v. 6, n. 11, 2025 .

ALVES, Jones Figueirêdo. A banalidade do mal. JC, 28 set. 2025 

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