Há um tipo de desconforto silencioso que atravessa a formação acadêmica, especialmente na pós-graduação, e que raramente é nomeado de forma honesta. É a sensação de não saber, de não dominar o problema, de não ter certeza se a pergunta está correta, se o caminho faz sentido ou se, no fundo, estamos apenas tateando no escuro.
Durante muito tempo, tratamos essa experiência como um desvio, como um sinal de fragilidade, como algo a ser corrigido. Mas... e se for exatamente o contrário?
Neste ensaio, Martin A. Schwartz propõe uma inversão que deveria nos inquietar mais do que confortar.
Na ciência, sentir-se “estúpido” não é um problema. É uma condição. Não se trata da falta de estudo ou de preparo, mas do encontro com aquilo que ninguém sabe ainda. E é aqui que está uma ruptura importante na trajetória de formação. Na educação básica e na graduação, somos treinados para responder corretamente e o sucesso está associado à precisão, ao domínio, à capacidade de reproduzir o que já foi estabelecido. Saber é acertar. Na pesquisa, isso se inverte. O pesquisador não é aquele que sabe. É aquele que sustenta o não saber por tempo suficiente para que algo novo emerja.
Isso tem implicações profundas para como estruturamos nossos programas de pós-graduação, nossos processos avaliativos e, sobretudo, nossas expectativas sobre estudantes e pesquisadores em formação. Talvez não estejamos falhando apenas em ensinar métodos, técnicas ou teorias. Talvez estejamos falhando em preparar as pessoas para lidar com a experiência fundamental da pesquisa, ou seja, com a incerteza. Porque fazer ciência é, em grande medida, escolher deliberadamente trabalhar na fronteira da ignorância. É aceitar que não sabemos se estamos fazendo a pergunta certa, que não temos garantia de resultado, que o erro não é exceção. Isso é parte do processo. E, mais do que aceitar, é aprender a operar nesse estado.
Há algo de profundamente formativo nisso. Quando a sensação de não saber deixa de ser interpretada como incapacidade e passa a ser compreendida como parte do trabalho, ela deixa de paralisar e passa a orientar. Ela indica que estamos no lugar certo, que avançamos até onde o conhecimento nos permite e agora entramos no território da descoberta.
Para quem atua na gestão acadêmica, isso nos provoca a repensar algumas questões.
Estamos formando estudantes para responder bem ou para perguntar melhor?
Estamos avaliando segurança ou capacidade de enfrentar o desconhecido?
Estamos criando ambientes que toleram o erro como etapa do processo ou que o punem como falha individual?
A ciência não avança apesar da incerteza. Ela avança por causa dela. Talvez uma das competências mais importantes e menos ensinadas na formação científica seja exatamente a capacidade de conviver com o não saber sem recuar. Porque, no limite, é ali que começam as descobertas.
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