Se há um tema que perpassa a história da arte moderna, do Renascimento flamengo ao expressionismo abstrato, é a tentativa de dar forma ao que nos escapa. Mas como capturar a ansiedade de uma época, a violência latente do cotidiano ou o fogo silencioso da psique? Atravessando as análises de T.J. Clark, Joseph Koerner, Florian Illies e a poética de Gaston Bachelard, percebemos que a arte nunca é um refúgio apolítico, mas sim um campo de batalha onde a psique e a polis se encontram.
1. A Cidade Hostil e o Inimigo Interno
A relação entre arte e política, como argumenta T.J. Clark em Those Passions: On Art and Politics, é inevitável na modernidade. Para Clark, a pintura é um "campo de batalha" onde poder e ideologia são interrogados . No entanto, antes mesmo da Paris do século XIX, essa batalha já estava travada nos painéis do Renascimento do Norte. Joseph Leo Koerner, em Bosch and Bruegel: From Enemy Painting to Everyday Life, propõe uma virada psicanalítica e política radical: a pintura da vida cotidiana nasceu da sua antítese — a obsessão pelo "inimigo" .
Para Koerner, Bosch não era apenas um ilustrador de horrores religiosos; sua força estava em tornar visível um "inimigo" psicológico que ameaçava a alma a partir de dentro. O fantástico servia para processar o intolerável. Bruegel, herdeiro desse olhar, transpõe essa "inimizade" para o mundo real. As paisagens camponesas e as cenas de inverno não são meros registros bucólicos; elas carregam uma estranheza, uma paranoia silenciosa. Ao olhar para o "outro" (o camponês, o louco, o invasor espanhol), a arte flamenga do século XVI converteu o medo em observação, e a intolerância na possibilidade de um mundo compartilhado. A política aqui é a da sobrevivência social, onde a imagem serve como um campo de negociação entre o "eu" e o "eles".
2. A Matéria como Sintoma (Cézanne e Bachelard)
Se Bruegel olhava para o mundo exterior com desconfiança, Paul Cézanne mergulhou na agitação interna da matéria. T.J. Clark, em If These Apples Should Fall, descreve um Cézanne que é o oposto do mestre sereno. Em vez de clássico, Clark vê uma arte de "inquietude" e "desabrigo" . As maçãs de Cézanne não são apetitosas; elas parecem vibrar, prestes a rolar para fora da mesa ou se desfazer em manchas de cor. Há uma "estranheza" e uma "ansiedade" subjacentes à superfície da tela .
Essa materialidade nervosa encontra sua tradução teórica perfeita na psicanálise dos elementos de Gaston Bachelard. Em A Psicanálise do Fogo, Bachelard não se contenta em analisar símbolos; ele propõe uma "química da imaginação" . O fogo não é apenas uma metáfora da paixão ou da destruição; ele é um arquétipo que estrutura o devaneio humano. O que Cézanne faz com a tinta e a maçã, Bachelard faz com o conceito: ambos revelam que o objeto só existe através da relação subjetiva e material que temos com ele. A "materialidade" de Cézanne é o fogo solidificado, a terra em tensão. A psicanálise de Bachelard nos ensina que a política da arte não está apenas no tema, mas na maneira como a matéria é violada e reconstruída pela mão do artista.
3. O Silêncio que Grita (Friedrich e o Tempo)
Onde está a política na paisagem solitária de Caspar David Friedrich? Florian Illies, em The Magic of Silence, responde a essa pergunta de forma brilhantemente paradoxal. Illies mostra que Friedrich foi "adorado por Hitler e Rilke, desprezado por Stalin e pelos estudantes de 68" . A "magia do silêncio" em Friedrich não é apolítica; é uma tela em branco onde cada época projetou sua própria ideologia.
A solidão do Mondeiro no Mar de Gelo ou a espiritualidade do Caminhante sobre o Mar de Névoa foram sequestradas pelo romantismo nacionalista, depois pela necessidade de silêncio no pós-guerra. Illies argumenta que a jornada de Friedrich através do tempo é a própria história da Alemanha moderna. A psicanálise aqui entra como ferramenta para entender a projeção: vemos em Friedrich não o que ele pintou, mas o que nosso inconsciente coletivo precisa ver — seja o poder da natureza, o peso da melancolia ou a fuga da realidade histórica.
4. Conclusão: A Paixão Necessária
T.J. Clark afirma que não teria escrito tanto sobre arte e política se não sentisse que "na era moderna, os dois não podem evitar um ao outro" . A psicanálise (seja a de Bachelard sobre o fogo, seja a leitura freudiana da paranoia em Bosch) nos fornece a gramática para entender por que a arte nos afeta tanto. A política nos fornece o contexto do que está em jogo.
Ao unir a "inquietude" material de Cézanne (Clark), o "inimigo" psicológico de Bruegel (Koerner), a projeção histórica sobre Friedrich (Illies) e a "química dos sonhos" de Bachelard, chegamos a uma conclusão: a obra de arte é um "complexo de Prometeu", como diria Bachelard ; ela rouba o fogo do céu (a ideia, a beleza), mas o entrega envolto na lama da história (a matéria, a política, o trauma). A arte moderna é, em sua essência, o registro visível do nosso mal-estar na civilização — e é por isso que, sem ela, perdem-se os "elementos essenciais da nossa autocompreensão" .
Referências Bibliográficas (baseado nos dados fornecidos):
BACHELARD, Gaston. A Psicanálise do Fogo. (Obra geral citada pela sua teoria do imaginário material) .
CLARK, T.J. If These Apples Should Fall: Cézanne and the Present. Londres: Thames and Hudson, 2022. .
CLARK, T.J. Those Passions: On Art and Politics. Londres: Thames and Hudson, 2025. .
ILLIES, Florian. The Magic of Silence: Caspar David Friedrich’s Journey Through Time. Cambridge: Polity Press, 2025. .
KOERNER, Joseph Leo. Bosch and Bruegel: From Enemy Painting to Everyday Life. Princeton: Princeton University Press, 2016.
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