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domingo, 19 de abril de 2026

A inteligência artificial está ampliando a aprendizagem ou apenas acelerando a execução de tarefas?


Uma pergunta tem aparecido com frequência crescente. A inteligência artificial está ampliando a aprendizagem ou apenas acelerando a execução de tarefas?


Este artigo publicado na Social Sciences & Humanities Open traz um dado que merece atenção. Em um experimento controlado com 120 estudantes, aqueles que utilizaram o ChatGPT como ferramenta de estudo tiveram desempenho significativamente inferior, semanas depois, em um teste de retenção de conhecimento (57,5% contra 68,5%).

O resultado traz reflexões. Mas o mais interessante não está apenas nos números, está na interpretação.

O estudo se apoia em duas ideias bem estabelecidas na psicologia cognitiva. A primeira é o cognitive offloading, ou seja, quando transferimos esforço mental para ferramentas externas. A segunda é o princípio das desirable difficulties, ou seja, o aprendizado que exige esforço tende a se consolidar melhor no longo prazo.

Ao reduzir o esforço durante o estudo, a IA pode estar enfraquecendo exatamente os mecanismos que tornam a aprendizagem duradoura.

Será que estamos diante de um problema da tecnologia ou de como estamos organizando o processo de aprendizagem?

O próprio desenho do estudo traz pistas importantes. O uso do ChatGPT foi “irrestrito”, sem mediação pedagógica, sem desenho didático e sem exigência de processamento ativo por parte do estudante. Isso não é trivial. Comparar “uso livre de IA” com “estudo tradicional estruturado” pode, em alguma medida, estar capturando menos o efeito da tecnologia e mais o efeito da ausência de método.

Há também um ponto que merece atenção. O grupo que utilizou IA estudou menos tempo, o que sugere que parte do efeito pode estar associada à substituição de esforço e não necessariamente à tecnologia em si.

Isso nos leva a uma distinção que considero central.

A IA pode ser um atalho que reduz o esforço cognitivo ou um instrumento que reorganiza o esforço cognitivo

Essas duas coisas não são iguais.

Se usada como substituição do processo, ela empobrece a aprendizagem. Se usada como ampliação do processo, ela pode aprofundá-la.

O risco, portanto, não é exatamente o uso da IA. É o uso sem intencionalidade pedagógica.

Talvez estejamos diante de um momento semelhante ao que vivemos com a calculadora, com a internet, ou mesmo com o Google. Ferramentas que inicialmente pareceram ameaçar a aprendizagem, mas que, quando integradas de forma adequada, redefiniram o que significa aprender.

Para mim, o ponto central não é se devemos usar IA. É como garantir que, mesmo com o uso da IA, o estudante continue formulando perguntas, organizando o pensamento e enfrentando o esforço de compreender.

Aprender nunca foi apenas acessar informação. Sempre foi transformar esforço em estrutura mental.

Penso que o maior risco seja que, pouco a pouco, deixemos de sustentar o esforço de pensar.

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