SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.
quinta-feira, 7 de maio de 2026
A alfabetização no Brasil é feia, mas é uma flor.
A alfabetização no Brasil é feia, mas é uma flor. Entre 1934 e 1945, Carlos Drummond de Andrade foi chefe de gabinete no Ministério da Educação e da Saúde Pública e, nesse mesmo período, escreveu os livros A Rosa do Povo e Sentimento do Mundo. Absurdo, né? Entre os poemas dos dois livros está "A Flor e a Náusea", onde o poeta caminha por uma rua cinza e no meio do asfalto nasce uma flor feia e sem cor, mas nasce. Em 2025, o Brasil alfabetizou 66% das crianças, superando a meta do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada. Dois anos atrás, eram 56%, e agora são cerca de 200 mil crianças a mais que estão alfabetizadas. É uma flor, o avanço é real, mas ela ainda é feia demais, pois um terço das crianças brasileiras das escolas públicas ainda não se alfabetizam na idade certa. Os resultados da alfabetização são divulgados nacionalmente e de maneira padronizada há apenas três anos. Essa divulgação ocorreu no mês passado, e em cima desses números produziram-se reportagens e rankings, e quem melhorou foi celebrado, quem não melhorou sentiu pressão. Para o bem ou para o mal, a possibilidade de comparar desempenhos incentiva a competição. Mas o papel de alguém que tenta analisar dados precisa ir muito além de rankear. Mais recentemente saíram os microdados, que mostram as informações escola por escola. Fui dar uma olhada e eis que tropecei em uma pedra no meio do caminho, com licença do Drummond. Os microdados revelam: 95% das escolas públicas têm pelo menos uma criança não alfabetizada. Noventa e cinco por cento. Quase todas. E quase metade das escolas públicas brasileiras tem entre 20% e 50% de não alfabetizados, sendo que mais da metade de todos os não alfabetizados estão nessas escolas. Esses números seguem propriedades de uma curva normal, não são uma grande surpresa para quem está acostumado com estatística, mas aqui aparece uma náusea. A náusea é que a atenção pública está voltada para um problema que tem outra forma. Hoje, manchetes, rankings e intervenções prioritárias atingem os melhores e piores do ranking. E não as “escolas do meio”, onde mora a maior parte do problema (mais da metade das crianças não alfabetizadas do nosso país). A pedra não é espetacular, não rende destaque, não recebeu atenção. Mas a pedra está ali, no meio do caminho. O analfabetismo invisibiliza, e a criança que não lê perde acesso ao código pelo qual o mundo se organiza. Quem não enxerga essa criança nos dados também reproduz essa invisibilidade, e as escolas do meio não ganharam manchete. Além disso, microdados ainda não trazem informações sobre raça/cor e educação especial, existem crianças que são ainda mais invisibilizadas. A náusea é dispersa, a pedra persiste, a flor precisa nascer. E todo mundo deveria poder ler Drummond.
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