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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Ensinar Matemática é Investir em Infraestrutura



Conheci muitas pessoas realmente boas em matemática. Gente que fazia raiz quadrada de cabeça e achava Cálculo e Álgebra Linear fácil. Infelizmente, conheci também muitas pessoas que viam a matemática como algo absolutamente inútil. Pois bem, eu explico o porquê desse “infelizmente”. Três estudos ajudam a sustentar o que a experiência já me dizia: de fato, o primeiro grupo costuma ser mais bem sucedido profissional e economicamente do que o segundo.

Em 2024, o Urban Institute publicou um estudo nos EUA analisando como diferentes fatores na infância impactam a renda aos 30 anos. Entre as variáveis analisadas, o desempenho em matemática se destacou: crianças com desempenho consistentemente acima da média em matemática tinham renda adulta cerca de 3,5% maior, o que representa mais que o dobro do impacto de melhorias equivalentes nas condições de saúde.

Outro estudo, dos Professores Ritchie e Bates, da Universidade de Edinburgo, publicado em 2013, analisou, por mais de 40 anos, as relações entre os resultados em matemática e leitura na infância e o status socioeconômico na vida adulta. Descobriram que há uma cadeia de eventos que relaciona o desempenho nessas duas disciplinas aos 7 anos à motivação nos estudos, ao tempo de educação formal e à renda, em um efeito cascata de correlações.

Isso se mostra igualmente fascinante nas descobertas que fizeram os pesquisadores Meehan, Pacheco e Schober, da Universidade de Tecnologia de Auckland, na Nova Zelândia. Analisando os dados de uma amostra da população local por 11 anos – de 2009 a 2020 – puderam ligar o baixo desempenho escolar a empregos de maior risco. Mais um ponto curioso encontrado por eles, foi para o fato de “piores alunos” ganharem mais do que os “bons alunos” quando se têm 20 anos de idade; situação que logo se inverte, aos 25. A explicação imediata é de que um trabalha e outro estuda, um é receita e outro, despesa, no início da vida adulta.

Eu vi isso de perto. Na adolescência, éramos um grupo de 5 amigos na rua. Meu primo era o pior da turma na escola — sem interesse, sem motivação. Era o único que não pensava em entrar para a faculdade. Com 20 anos ele era o único independente financeiramente. Hoje é o que tem, digamos, o trabalho mais braçal — e provavelmente o menor salário entre nós.

O mais interessante é o que explica essas correlações entre desempenho em matemática e leitura na escola e a vida adulta. É fácil notar, em primeiro lugar, que o nexo existe em razão de a matemática e a leitura serem a base de todo o conhecimento acadêmico e, assim, o acesso a carreiras mais bem remuneradas, como medicina, engenharia e direito. Além disso, ambas influenciam o desempenho profissional em qualquer contexto, do médico ao eletricista, do CEO ao pequeno empreendedor. Quem sabe quantificar ou extrair informação relevante é mais competitivo em qualquer esfera profissional. Por último, mas não menos importante, elas são as ferramentas para o gerenciamento das finanças pessoais e para a eficácia de toda forma de comunicação, de negociar um bom contrato a ter uma conversa difícil.

É por isso que insisto na importância de se ensinar o básico bem. O domínio da linguagem e de cálculos e quantificação muda o jeito com que nos relacionamos com o mundo. Esse domínio nos permite acessar outras camadas da realidade, nos comunicar e nos expressar em maior variedade de contextos, nos motivar em seguir aprendendo e ser senhores de nossas vidas. Mas por que exatamente essas duas habilidades têm esse poder? A resposta está em como nosso cérebro funciona, mas isso deixa para a próxima postagem.

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